Um rio de esperança em Monteiro

Um rio de esperança em Monteiro

ricardo stuckert

  Alguns moradores de Monteiro ainda se mobilizaram. No entanto, não endossaram o convite da prefeita e Temer foi recebido com gritos de “Fora, Temer” e “Lula, Lula”. Não poderia ser diferente.

Nove dias depois, num dia de São José, 19 de março, a cidade receberia Lula, Dilma, o governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB) e mais uma comitiva, com nomes como Lindbergh Farias (PT-RJ), Fernando Haddad (PT-SP), Vanessa Grazziotin (PCdoB –AM), Luciana Santos (PCdoB-PE), Fátima Bezzera (PT-PB), Humberto Costa (PT –PE) e Gleisi Hoffmann (PT-PR). A data parece ter sido estrategicamente escolhida. No Sertão, dizem que se houver chuva no dia do santo, está garantida a fartura das colheitas durante o ano.

Quando eles chegaram ao solo de Monteiro, depois de virem de Campina Grande, já encontraram uma multidão que vestia vermelho e veio do Nordeste inteiro, para ver Lula, Dilma e, claro, parte das obras da transposição do São Francisco.

Caravanas de diversas partes do Nordeste formaram um engarrafamento de 3 km na entrada de Monteiro. Muitos abandonavam carros, ônibus, vans para chegar à cidade a pé. As pessoas se cumprimentavam como velhos conhecidos.

Cartazes, adesivos, agradecimentos. A indumentária denunciava a militância de esquerda e contra o golpe. Um painel enorme, colocado sobre a obra da transposição dizia: FORA TEMER. Dava pra ver de muito longe. Era como um grito desesperado de um povo que se sente ultrajado em sua essência. Mais embaixo, uma outra faixa indicava que ali era o “Canal do Lulão”. Mais tarde, o ex-presidente Lula não conseguiria se banhar, com um mergulho, nas águas do Velho Chico, por conta de uma multidão de banhistas que chegara lá antes dele.

O palanque foi montado num pátio onde acontece o São João de Monteiro. Mas era tanta gente e tanto sol, que era difícil acreditar que ninguém arredasse pé dali. Muita gente chegou antes de Lula e Dilma para apenas guardar lugar. Pessoas passavam mal e eram carregadas para fora da multidão. A cada instante, uma criança se perdia e uma era encontrada.

O sol das quatro horas da tarde, a hora em que Lula começou o discurso, era impiedoso e parecia querer provar a fé e a resistência de quem passou horas na estrada e chegou a uma cidade pequena que, apesar de arrumada e muito aprazível, não estava preparada para tanto. Às 13h, já tinha restaurante que não aceitava novos clientes. O motivo? A comida havia acabado.

Além do calor, pairava no ar uma atmosfera diferente. Parece que aquele mormaço ajudava a dar a liga em algo que andava em desuso. O sentimento coletivo de pertencimento dava para ser pego no ar. Em cada mão que se apertava, em cada olhar que se trocava, era nítido que estávamos ali em povo, em povo brasileiro. Para além de qualquer clichê, éramos irmãos. Uma coisa verdadeiramente emocionante.

O golpe não vai nos tirar isso. A esperança estava lá em Monteiro, naquela parcela de povo brasileiro que compareceu à inauguração popular do eixo leste da transposição do Rio São Francisco. Éramos milhares ali, mas, no Brasil inteiro, há milhões como nós. Não vão nos calar. Como o Rio São Francisco, mudaram nosso curso, mas vamos agora fazer História. Vamos para as ruas, nem que sejam a centenas de quilômetros de casa.

Por Paula Melo*, especial para o Vermelho

Fotos: Diego Galba

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