FERNANDO HIDEO: COMO FOI A “CAÇADA IDEOLÓGICA” PARA CHEGAR À FONTE DE EDUARDO GUIMARÃES

FERNANDO HIDEO: COMO FOI A “CAÇADA IDEOLÓGICA” PARA CHEGAR À FONTE DE EDUARDO GUIMARÃES

O juiz Sérgio Moro divulgou na tarde desta quinta-feira (23/03) decisão na qual:

1) afirma ser “o caso de rever o posicionamento anterior e melhor delimitar o objeto do processo” envolvendo o blogueiro Eduardo Guimarães, que há 12 anos exerce atividades jornalísticas;

2) determina a exclusão de “qualquer elemento probatório relativo à identificação da fonte de informação”.

“Dessa forma, o magistrado voltou atrás e reconheceu a tese alegada pela Defesa desde o início dessa investigação, admitindo ter tomado medidas ilegais”. É o que afirma em nota o advogado de Eduardo Guimarães, Fernando Hideo Lacerda.

Na mesma nota, Fernando Hideo faz uma seriíssima revelação:

Após o levantamento do sigilo dos autos, cumpre-nos informar fato extremamente grave.

Antes de ser conduzido coercitivamente, o jornalista Eduardo Guimarães teve o sigilo de suas ligações telefônicas violado. O magistrado determinou que a operadora de celular informasse seu extrato telefônico, com o objetivo claro de identificar a fonte que teria passado a informação divulgada no blog.

É importante ressaltar que a fonte jornalística foi identificada mediante quebra de sigilo dos extratos telefônicos do Eduardo Guimarães.

O juiz Sérgio Moro manteve a investigação sobre se Eduardo Guimarães de alguma forma beneficiou o ex-presidente Lula ao publicar o vazamento.

A defesa afirma que o blogueiro, à época do vazamento, tornou público o fato de que havia consultado o Instituto Lula com o objetivo de checar se o conteúdo tinha base na realidade.

Nós conversamos com Fernando Hideo sobre os acontecimentos de hoje.

Viomundo — O juiz Sérgio Moro quebrou o sigilo telefônico do  Eduardo antes mesmo de ele ser conduzido coercitivamente na terça-feira, 21 de março, e só chegou à fonte do blogueiro por causa desse expediente?

Fernando Hideo –– Exatamente.

Viomundo — Como foi isso?

Fernando Hideo — Eles pegaram uma lista de quem tinha tido acesso à decisão vazada.

A partir daí, iniciaram uma varredura ideológica em redes sociais para saber com quem as pessoas dessa lista tinham contato.

Começaram a selecionar quem tinha vínculos com pessoas de esquerda. Isso está escrito expressamente no processo. Por exemplo: quem tinha senadores do PT como amigos, quem tinha contato com o jornalista e escritor Fernando Moraes…

Uma patrulha ideológica, mesmo.

E, aí, estabeleceram ideologicamente os alvos, passando a quebrar o sigilo de e-mail e telefone dessas pessoas. Foi, aí, que pegaram a conversa da servidora da Receita Federal.

A cartada final. Em seu post, o Eduardo diz o dia e horário em que que teve contato com a pessoa.

A partir daí,  o juiz Sérgio Moro mandou quebrar o sigilo telefônico do Eduardo, para ver com quem ele havia tido contato naquele período.

Por isso, é totalmente absurdo o Moro dizer na decisão que o Eduardo “revelou, de pronto, ao ser indagado pela autoridade policial e sem qualquer espécie de coação, quem seria a sua fonte de informação”. Ele já sabia!!!

Viomundo — Ou seja, o juiz Sérgio Moro quebrou o sigilo do Eduardo, ficou mal na fita e agora tenta jogar nas costas do Eduardo a responsabilidade pela divulgação do nome da fonte, como se o Eduardo tivesse revelado?!

Fernando Hideo –– É uma hipocrisia.

Viomundo — E esse recuo do Moro, o que acha?

Fernando Hideo — A gente lamenta muito que o arrependimento dele não seja com base no Direito, com base na Constituição. O recuo dele foi com base na repercussão negativa que teve entre jornalistas reconhecidos, na Abraji [Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo]…

Ao invés de ele falar “eu errei”, de acordo com a Constituição, com o Direito, ele se pautou  pela opinião de jornalistas.

A única coisa que ele tinha que fazer é aplicar o Direito. E o Direito diz que o Moro não pode fazer o que ele fez. O Moro sabia desde o começo que estava tomando medidas ilegais.

Viomundo — Na sua decisão, o Moro determina a  exclusão de “qualquer elemento probatório relativo à identificação da fonte de informação”. E, aí?

Fernando Hideo — Agora, não adianta nada ele falar para tirar a prova. Ele já descobriu. A prova já foi usada. Ele já descobriu o nome da pessoa, ou seja, a fonte da informação, quebrando antes o sigilo telefônico do Eduardo.

por Conceição Lemes

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