A esquerda precisa de moderação

A esquerda precisa de moderação

“Vale a pena ser moderado?”, foi a pergunta que fez, com a pertinência habitual, o sociólogo Celso Rocha de Barros em seu artigo na Folha de S.Paulo, publicado nesta segunda-feira, 23/3. No artigo, Barros lembra, com razão, que a maioria dos textos apresentados na preparação do próximo Congresso do PT propõe um partido mais radical e mais intervencionista – alguns chamariam de mais bolivarianista. “Há quem faça a autocrítica dos casos de corrupção”, escreveu, “mas pouca gente parece disposta à moderação em questões programáticas”. A fuga da moderação obviamente não se resume à esquerda – não há muita gente, ou mesmo ninguém, disposta a conversar do outro lado.

Eis um grande risco para a esquerda brasileira e, em particular, para o PT: atacada pela violência institucional sofrida por Dilma Rousseff em 2016, tisnada pela sucessão de citações na Lava Jato, alvejada pela crença generalizada de que o experimento desenvolvimentista dos anos Dilma fracassou, é bem possível que a maioria da esquerda prefira recorrer a imagens dos tempos heroicos, da fase pré-chegada ao poder, e a convicções ilusórias em torno da necessidade de uma “guinada à esquerda”. Guinada, aliás, era uma das mudanças mais pedidas por gente do PT, de movimentos sociais e de sindicatos nos últimos 13 meses de governo Dilma – para muitos, seria a única resposta adequada para enfrentar o golpe que se avizinhava.

Como estratégia de guerrilha política, tudo bem. Talvez faça sentido para reaquecer a autoestima da militância, recobrar os brios perdidos, reaquecer os ânimos para enfrentar a batalha eleitoral e a ocupação dos espaços perdidos e devidos. Mas custo a crer em sua eficácia como estratégia partidária e eleitoral visando à retomada do poder por meio das urnas. Parece difícil não imaginar que a maioria dos eleitores pensa como Celso Rocha de Barros: não adianta proteger demais o flanco esquerdo e perder o centro.

Se agir assim, o PT vai ignorar não só a história das democracias ocidentais – nas quais dificilmente uma coalizão de partidos chega ao poder se não abraçar o centro dos eleitores – como a própria história. Afinal, a moderação foi uma das razões que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2002. E foi a moderação que o ajudou a enfrentar uma crise como a do mensalão e deixar o Palácio do Planalto com a mais alta aprovação popular da história (moderação conjugada com a sorte e a eficácia de suas escolhas, claro, pois como ensinou Maquiavel, fortuna e virtú, ou sorte e virtude, andam lado a lado).

Será um erro duplo para um PT que está de olho simultaneamente na recuperação da própria imagem e nas eleições de 2018: moderação na autocrítica dos casos de corrupção e radicalização em questões programáticas. Sobretudo ao lembrar o quão desleixada foi a esquerda ao desprezar a ascensão, na sociedade, de um pensamento liberal-conservador. Por soberba diante dos próprios feitos e/ou pela sua dificuldade crônica em aceitar que o diferente e o crítico possam ser simplesmente um diferente e um crítico, e não um golpista, a esquerda deixou emergir na sociedade, sem o devido confronto de ideias, esse viés liberal-conservador. E do crítico nasceu o estridente, e do estridente nasceu o assustador.

Luis Nassif tinha razão ao mencionar, em artigo recente sobre a frente das esquerdas (de 4/3), o “fracasso do petismo e sua estratégia de conciliação”. E mais ainda na “dificuldade imensa em identificar os pontos centrais de uma estratégia política”. Concordo com ele sobre a dificuldade em consolidar um projeto de país que expurgue da social-democracia as “concessões absurdas feitas ao mercado” mas que, ao mesmo tempo, não embarque na visão de um socialismo utópico. Faz sentido também sua ideia de que constituem um dos desafios presentes o fracasso das políticas de conciliação e a dificuldade em definir as novas bandeiras– bandeiras que ampliem o campo de alianças e não limitem as esquerdas a uma militância de guetos.

Mas acrescento: é preciso neste momento definir com clareza o que chamamos de fracasso das estratégias de conciliação do petismo e/ou do lulismo. Convém distinguir, por exemplo, o que foi a conciliação proposta, iniciada e executada pelo ex-presidente Lula e suas diferenças em relação à revisão de rota promovida pela ex-presidenta Dilma – esta por convicção mas, sobretudo, por força das circunstâncias.

Na aparência e com moderação, Lula manteve a ordem liberalizante estabelecida nos mandatos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. Evitou confronto com o capital e adotou uma política econômica conservadora. Propôs uma reforma conservadora da Previdência Social dos servidores públicos. Oito anos depois, ao fim do segundo mandato, sabemos, o Brasil se dava conta de que seu governo se assentava em três pilares fundamentais: crescimento econômico, distribuição de renda e incorporação social. Sem Antonio Palocci e com Guido Mantega e Dilma Rousseff, mas sem confrontar o capital e sem guinadas à esquerda. Com estratégia e política conciliatória, todos ganharam em seu governo. Uns mais, outros menos, como todo capitalismo. Mas todos ganharam.

Dilma pegou um país muito melhor do que Lula recebera, mas viveu e padeceu em condições internacionais radicalmente diferentes. Também lhe faltou sorte, como sublinhou FHC em declaração recente que virou motivo de piada nas redes sociais (de novo Maquiavel: no poder, dificilmente há fortuna sem virtude). Seu governo enfrentou, inclusive, uma fase do capitalismo internacional marcada por uma política mundial de austeridade – algo bem distinto do que Lula enfrentara. Também recebeu uma tendência brutal à desindustrialização da economia. Ela então respondeu a tudo isso com uma política de crescimento ancorada na industrialização.

Vale aqui o conhecido diagnóstico de André Singer sobre a crise do lulismo: Dilma adotou medidas que atendiam diretamente o que pedia o setor industrial – o mesmo setor que a abandonaria em 2015 e 2016. Redução forçada e sistemática dos juros, desvalorização do real, controle de capital especulativo, prioridade para o produto nacional nas compras do Estado e taxação de produtos importados estavam entre essas medidas. E, conforme Dilma as implementava, o empresariado industrial ia ficando mais e mais contra ela.

Como ela própria reconheceu, forçou a mão na continuidade de certas políticas, como a da desoneração. Continuou a tratar como crise o que a tendência iniciada em 2008 se revelou como perene. O seu experimento equivocadamente interpretou como cíclico o que se mostrou uma mudança estrutural ou perene – caso da queda dos preços das commodities. A manutenção de políticas anti-crise até o fim do primeiro mandato de Dilma, como isenções fiscais e os estímulos de crédito, previa uma recuperação que não chegaria. Deveriam ter sido desmontadas progressivamente após seu sucesso no período 2008-2010, mas em alguns casos foram até aprofundadas.

Tais equívocos não são exatamente um experimento desenvolvimentista, mas em muitos casos erros pura e simplesmente. A saúde fiscal deteriorada, por um lado, e as escolhas feitas para medicá-la, por outro, ajudaram a compor o cenário de horror que adornou a profunda crise de 2015-16 – sem esquecer a natureza da crise política, dos efeitos da Lava Jato sobre as incertezas e a insegurança dos agentes econômicos, e da debilidade com que Dilma II tratou Congresso e empresariado… A conciliação fora para o brejo.

O experimento desenvolvimentista à moda Dilma foi menos uma ruptura, como querem alguns, e muito mais uma tentativa de preservar o compromisso lulista num contexto muito mais hostil, como defendem outros. Para tanto, tencionou o pacto lulista, para o bem e para o mal.

Qualquer que seja a interpretação sobre a raiz de tais problemas (nunca é demais lembrar que ser crítico de obra pronta é fácil), o fato é que o país assistiu a um gravíssimo fracasso econômico que contribuiu para levar a esquerda às cordas. E tal fracasso também teve seus fatores endógenos – para usar uma expressão de que os economistas gostam. Em outras palavras, a culpa também foi da esquerda que estava no poder.

Não dá, portanto, para a esquerda tentar reerguer-se para 2018 pensando em radicalizar sua estratégia “à esquerda” ou continuar a interpretar os problemas que enfrentou tão-somente pelo viés externo: Lava Jato, Sergio Moro, a crise internacional, o Congresso, o Judiciário, a banda violenta da direita, tudo tem sido cadastrada na pasta das explicações com muita ênfase. Mas timidamente se coloca a própria culpa, os próprios erros, os próprios equívocos. Na economia e na corrupção, dois dos temas principais que marcarão o debate eleitoral em 2018.

Esse reconhecimento pode ser um bom começo para pensar a orientação a partir daqui – de preferência, contendo a ação dos radicais livres.

por Rodrigo de Almeida. Rodrigo de Almeida é jornalista e cientista político.

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