E agora, Miguel? A farsa acabou!

E agora, Miguel? A farsa acabou!

O Conversa Afiada tem o prazer de oferecer ao amigo navegante obra magnífica de dois talentos de sua modesta equipe: o Totonho Cunha, frasista (e poeta) incomparável, e o genial Bessinha.

Com a não desprezivel contribuição do “José”, do Drummond:

E agora, Miguel?
A farsa acabou,
a luz apagou,
o apoio sumiu,
a o golpe esfriou,
e agora, Miguel?
e agora, você?
você, unha de fome
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que trai, não sai desta?
e agora, Miguel?
Está sem poder,
está sem discurso,
está em desalinho,
não pode esconder
já não pode tramar,
fugir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o socorro não veio,
a blindagem não veio
só veio a sangria
e tudo manchou
e tudo encardiu
e tudo lascou,
e agora, Miguel?
E agora, Miguel¿
sua doce palavra,
por mais que se negue,
sua gula incomum
ambição que não seca
seu roubado tesouro
seu telhado de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave do Acordão
quer abrir o portão,
não existe portão;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir as suas rimas
rimas não há mais.
Miguel, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
um hino forense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você renunciasse…
Mas você não renuncia,
você é duro, Miguel!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem homens de preto
pra sua fuga a galope,
você marcha, Miguel!
Miguel, para onde?
– ​Totonho Cunha​

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