Editorial Jeová Rodrigues

Os descuidos políticos e econômicos do presidente Michel Temer concorrem para zerar de vez o capital político herdado da rejeição ao PT mas limitado, desde o início, por sua expressiva impopularidade. A capa de todos os jornais destacam a suspensão, por liminar de um juiz de Niterói, da posse no Ministério do Trabalho de uma ministra que, além de ser herdeira legítima e parecidíssima com o pai, o histriônico Roberto Jefferson, em poucos dias virou ícone de desprezo pelos direitos trabalhistas. Claro que a AGU vai recorrer, mas é mais um desgaste e meio para o Planalto. E de compreensão tão ou mais fácil para o eleitor humilde do que malas de dinheiro ou conversas subterrâneas sobre corrupção. A previsão para hoje é de chuva de liminares. Aqui e ali, jornais, como Folha, também lembram que Cristiane Brasil, a quase ex futura ministra, é acusada por uma empreiteira de receber R$ 200 mil pessoalmente e em espécie em 2012.
 
Outro tremor do governo também destacado pela imprensa, este mais sentido entre os formadores de opinião, é manchete do Valor. A dupla Henrique Meirelles (Fazenda) e Dyogo Oliveira (Planejamento) foi convocada para reiterar o compromisso do governo em manter este ano a “regra de ouro”, mas (!) admitiu que, em um segundo momento (quando?), será necessário discutir mudanças no regramento. Dyogo Oliveira estimou entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões o estouro em 2019. No país que derruba presidente por pedaladas fiscais, é muita coisa. O objetivo da regra é evitar o aumento da dívida pública. Ela permite que o governo se endivide para levantar recursos para investimentos, pois geram emprego e renda, mas não para despesas correntes. Caso o dispositivo seja descumprido, o presidente pode ser processado por crime de responsabilidade.
 
“Henrique Meirelles alegou que a discussão (sobre flexibilizar a ‘regra de ouro’) ‘não é adequada ao momento’. Óbvio que não é. E, se não é, por que foi lançada? Para causar mais um enorme desgaste por nada?”, irritou-se Eliane Cantanhêde (Estadão), para quem Temer tem algo de masoquista: “Mais um passo errado de um governo que adora virar alvo à toa.” Miriam Leitão, no Globo, traduz: no governo admite-se que dá para fechar as contas de 2018, mas não dá para fazer o Orçamento do próximo ano. “A ideia é apresentar um conjunto de propostas junto com a suspensão da regra de ouro”, conta. A situação fiscal é dramática, diz ela. O país está passando por sete anos de déficits, um fato inédito. Em editorial, O Globo diz que o “princípio da regra de ouro é intocável”.
 
Tão intocável como a reforma da Previdência, que sobe mais alguns metros no telhado a cada escorregão do governo no ano eleitoral. Junto sobe a ideia de um super candidato que una todos os partidos governistas para conquistar metade do tempo de propaganda eleitoral, defender o legado de Temer e vencer a polarização entre Lula e Bolsonaro. Em entrevista de página inteira no Globo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, chama o plano da candidatura única de “arrogante” e defende o lançamento de dois ou três candidatos do centro comprometido com o equilíbrio fiscal. No rastro das declarações de FHC de que o PSDB pode apoiar o nome de outro partido com mais perspectiva de vitória, Maia aponta a decepção com o desempenho de Geraldo Alckmin e a apreensão com o risco da mistura de política e economia por Henrique Meirelles, o ex-durão que agora frequenta até igreja evangélica na periferia de Brasília e fala em flexibilizar uma regra de ouro. O Estadão, em matéria com chamada de capa, diz que Maia tenta dinamitar a pré-candidatura de Meirelles. Sônia Racy, do mesmo jornal, afirma que Maia foi picado pela “mosca azul”. Quem achava fácil uma aliança entre PSDB, DEM e PMDB vai ficando triste.

Do jornalista Aziz Filho, hoje, na newsletter BússolaBR:

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Categoria corrupção, Denucias, Politica.