Editorial Jeová Rodrigues

Desde as famigeradas manifestações de 2013 estamos com esta frase rondando a política brasileira: “O Gigante acordou”. Mas o que ela realmente significa?

A ideia do “Gigante” ganhou capas de revistas internacionais, apareceu em sites mundo afora. Virou “trending topics” em redes sociais, e saiu da empolada letra de Osório Duque Estrada, composta em por volta de 1908-1909, para as faixas de rua misturado com um inglês mal escrito. Talvez pouca gente saiba, mas o hino brasileiro é composto por uma música em homenagem ao imperador Pedro I (composta em 1822) com um poema que enaltece de tudo um pouco; desde o lábaro, os campos e os bosques, as “lutas”, saindo de um passado mal explicado de “glórias” e chegando a um futuro que se “espelha” na grandeza do Gigante. No hino de 14 estrofes e 252 palavras, entretanto, o “povo” apenas brada no início. Nada mais.

Pode-se argumentar que os termos “dos filhos deste solo”, ou a visão do “filho” que ergue “da justiça a clava forte” carregam a ideia de “povo”. Mas a verdade é que a pátria-mãe brasileira, há mais de 500 anos, escolhe quem são seus filhos amados. E relega uma imensa maioria a condição de bastardos, sem direitos e sem proteção. Invisíveis a morrerem por todo este país. De morte matada ou de morte morrida. Muitas vezes pelas mãos da própria Mãe Idolatrada.

Duque Estrada escreveu: “Gigante pela própria natureza; és belo, és forte, impávido colosso; e o teu futuro espelha essa grandeza”. Em 2013, disseram eles que o “gigante acordou”. Isto significa dizer que esteve dormindo. E cabem as perguntas: (1) Dormiu por que quis ou foi colocado neste estado? (2) Quem o colocou ou manteve dormindo? (3) Por quanto tempo dormiu? E eu acrescentaria ainda a pergunta (4) Com o que, neste tempo, sonhou?

A frase “O Gigante acordou” encerra cinco diferentes ideias. Primeiro, a noção de um Brasil Gigante, se tomada como base a partir do hino, reflete o Brasil da elite. Um Brasil branco, rico, urbano e que sabe o significado das palavras “plácidas”, “resplandece”, “impávido”, “lábaro”, e etc. Convenhamos que o “Gigante” não se aplica a quem canta o hino como “Ouviram das pitangas a bergamota …”. O “Gigante” é o Brasil sem o povo. Uma elite empoderada, “garrida” para quem a “igualdade” foi conquistada imaginariamente com “braço forte”. Uma elite “adorada”, e para quem o Brasil sempre foi “mãe gentil”.

Em segundo lugar, a ideia d’ “O Gigante acordou” remete a uma mudança de estado. Do sono letárgico ao acordar (frenético?). A compreendermos este sentido a partir do que se viu depois do despertar, temos que o povo nunca poderia ser o “gigante que acorda”. Isto porque desde 2013 são os mais pobres – o povo, pois – que tem seus direitos diariamente suprimidos. E a menos que tenha acordado bêbado, não é possível explicar como um “Gigante” consciente deixaria que anões lhe tomassem o futuro. O sentido do “gigante que acorda” remete, portanto, à elite que teria sido embalada em um sonho desde 2003. Talvez acreditando que um metalúrgico iria apenas lhes deixar mais ricos (como efetivamente o fez), mas jamais ousaria fazer dos pobres menos pobres. São os filhos deste solo, para os quais és a “Pátria amada”, que acordam com os serviçais se vestindo melhor, comendo melhor, comprando carro e virando doutor.

A terceira ideia escondida no “gigante que acorda” é que ele acorda para dar o Golpe. Ele acorda para ir contra a democracia. Ele acorda para retirar ilegalmente uma presidenta e interditar – também de forma ilegal – o metalúrgico. O “gigante” acorda e se dá conta que cansou de brincar desta coisa de “democracia”. Isto que presume isonomia. Mas a igualdade que, segundo o hino, foi conquistada com “braço forte” é apenas a igualdade entre os já “iguais”. De novo, é apenas para quem os “bosques tem mais vidas”, “campos tem mais flores” e a vida “mais amores”. Para aqueles que pisam na lama da sarjeta para pegar o ônibus numa selva de concreto, a vida não é risonha, a vida não é igual e o lábaro não é estrelado. Quando da construção da letra do hino, no início do século XX, “democracia” e “povo” eram o que de mais radical existia. A República foi fundada pelos “homens bons” e para os “homens bons”. Retomar a ideia do “gigante” é apenas deixar claro para quem a Pátria Amada realmente sorri.

Ora, depois de acordado o que faz o “gigante”? Ele afasta e subjuga os pobres. Retira-lhes qualquer noção de “paz no futuro” e ergue “da justiça a clava forte” para que nunca mais estes grupos venham a tentar um lugar ao “sol da liberdade”. Os que sempre puderam manejar a clava da justiça precisaram do Gigante acordado para garantir que a Pátria continue amada apenas para os escolhidos. Aqueles que podem – e sempre puderam – contemplar um “formoso céu risonho e límpido” “ao som do mar e à luz do céu profundo”. A Pátria Amada sempre se assegura de que estes não sejam importunados, garantindo-lhes as glórias do passado e a paz no futuro. Eis a quarta ideia do Gigante que acorda e, finalmente, toma uma atitude. Quer seu país de volta.

O gigante ultrajado pelo que lhe fizeram durante o sono é a derradeira noção escondida. Como puderam tornar menos belo este colosso? Como puderam fazer-lhe mais negro, com mais espaço aos suados e fedorentos? Como, por Deus, deixaram a Pátria e a Família nas mãos destes degenerados que mostram os seios em plena liberdade? Um ultraje que precisa ser vingado a golpes de Jornal Nacional e perdão das dívidas para os aviltados. Ó Pátria, para que serves senão para iluminar aqueles que sempre estiveram deitados em berço esplêndido? Como pretendes continuar amada e adorada, idolatrada e defendida se não reconheces dentre outros mil aqueles cujos sobrenomes estiveram sempre na tua defesa? De Canudos aos tribunais em 2018?

Não, meus amigos! Nós não somos o Gigante. Nunca fomos. O povo não se distingue por ser maior. O povo vence por ser igual. O povo é formiga que brota da terra suja ao milhões e não se vê gigante, nem único, nem diferenciado. Quando lhe falarem sobre o “Gigante”, saiba que não falam de ti, mas falam contra ti. Quando te disserem que finalmente ele acordou, lembra-te que enquanto esteve dormindo os iguais prosperaram. Enquanto o Gigante dormia, o povo cresceu e ele – o tal Gigante – ficou menor. E este é todo o medo que eles carregam.

Eu quero o Brasil dos iguais e não o Brasil do Gigante que acorda. Que sejamos mais porque somos muitos, mas que todos nos olhemos na mesma altura dos olhos. E que todos tenhamos, em janeiro, o nosso Porto Alegre.

Por Fernando Horta

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Categoria CEILÂNDIA, IGNORANTE.