Editorial Jeová Rodrigues

Risco em viaduto foi informado às gestões Roriz, Abadia, Arruda, Agnelo e Rollemberg; TV Globo ouviu ex-governadores e secretários. Engenheiro que projetou viaduto diagnosticou falta de manutenção.

Por Fred Ferreira e Renata Zago, TV Globo

DF2 cobra respostas sobre viaduto das gestões Roriz, Arruda, Agnelo e Rollemberg

DF2 cobra respostas sobre viaduto das gestões Roriz, Arruda, Agnelo e Rollemberg

 

Nas horas que se seguiram à queda parcial de um viaduto do Eixão Sul na Galeria dos Estados, na área central de Brasília, nesta terça-feira (6), pelo menos cinco relatórios sobre a fragilidade do local vieram à tona. Os estudos indicavam que a passagem subterrânea, assim como vários outros trechos da malha viária do DF, correm risco iminente há vários anos.

Nesta quarta (7), ex-governadores e ex-secretários que estavam no poder quando os levantamentos foram divulgados falaram à TV Globo sobre a falta de manutenção durante todo esse tempo. Os gestores deram respostas variadas, mas evasivas, sobre os motivos para o aparente descaso.

Dentre os relatórios divulgados, o mais antigo é de 2006 e foi elaborado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB). Naquele ano, o DF era governado por Joaquim Roriz, que se licenciou por uma candidatura ao Senado e deixou no cargo a vice, Maria de Lourdes Abadia.

A TV Globo não conseguiu contato com Roriz – que sofre com as complicações do mal de Alzheimer – e com Abadia. Em entrevista nesta quarta, o secretário de Obras do período, Maurício Canovas, disse não se lembrar do “tema” da manutenção de espaços públicos com detalhes.

“Não tô lembrando, mas provavelmente o encaminhamento deve ter sido, o encaminhamento do relatório para as áreas técnicas, né? Para avaliarem o relatório. […] Para você fazer alguma intervenção, você tem que contratar projetos, né, de recuperação. Isso tudo deve ter sido feito a partir de 2007”, declarou Canovas.

Mais avisos

Em 2009, outro relatório similar foi feito pelo Sindicato de Engenharia e Arquitetura (Sinaenco). O viaduto da Galeria dos Estados foi citado pela necessidade de reparo urgente, junto com outros oito viadutos e pontes.

De acordo com o Sinaenco, além do viaduto sobre a Galeria dos Estados, as pontes do Bragueto (acesso ao Lago Norte) e das Garças (acesso ao Lago Sul) também tinham quadro crítico, naquele momento.

Nessa época, o DF era governado por José Roberto Arruda, que não respondeu ao pedido de entrevista da TV Globo. O secretário de Obras de Arruda, Márcio Machado, conversou com a reportagem, mas não explicou o motivo de a manutenção não ter sido feita.

“A gente não chegou a fazer uma análise precisa naquele momento mas, provavelmente, [faltou] alguma manutenção. Isso aí tem que ser feito periodicamente”, admitiu Machado.

“Foi contratada uma consultoria posteriormente e, aí sim, que seria definido o acompanhamento e controle da estrutura.”

Em 2012, um novo relatório foi apresentado – desta vez, pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), que já tinha feito avisos sobre o risco dos viadutos do DF em 2009. A esta altura, o Distrito Federal era governado por Agnelo Queiroz, e tinha Luiz Carlos Pitiman como secretário de Obras.

Por telefone, Pitiman creditou a falta de manutenção na Galeria dos Estados a uma questão de prioridade. Na época, uma rachadura na Ponte JK estava no foco dos investimentos.

“Eu fiquei na Secretaria de Obras durante seis meses. O envolvimento de todos os órgãos e o levantamento de todas as situações e o conserto da Ponte JK, que era o primeiro problema, foi feito nesse período”, diz.

Alertas mais recentes

No ano seguinte, em 2012, o governo Agnelo recebeu mais um aviso forte. Naquele momento, auditores do Tribunal de Contas do DF classificaram a manutenção das obras públicas como “improvisada e casual”, e listaram oito espaços com necessidade de reparo urgente (veja o documento aqui).

Responsável pelo setor de obras naquele momento, o então vice-governador Tadeu Filippelli disse não saber o motivo exato de, mesmo com um aviso tão forte, a manutenção ter sido adiada mais uma vez.

“Olha, Fred, eu lamento, existe uma forma de evolução do trabalho, tudo. Sinceramente, eu não sei se os outros [viadutos] estavam em condições precárias ou não.”

O ex-governador Agnelo Queiroz também negou, em entrevista à TV Globo, que a gestão tenha sido negligente com os avisos. Segundo ele, dos 13 viadutos apontados pelo Tribunal de Contas, seis foram restaurados, e os sete restantes tinham projetos executivos prontos para serem licitados.

“Nós tomamos todas as providências legais, e num tempo necessário. Eu não posso executar uma obra sem ter um projeto executivo”, afirmou. Na terça, Agnelo chegou a emitir nota dizendo que tinha tomado todas as providências naquela época, “não tendo se verificado qualquer lamentável episódio como o ocorrido hoje”.

Gestão atual

Em 2015, já no governo de Rodrigo Rollemberg (PSB), o orçamento previsto para a “recuperação de obras especiais” – como os viadutos – era de R$ 52 milhões. Desse valor, apenas R$ 16 milhões foram gastos, e nenhum real foi empregado no viaduto da Galeria dos Estados.

Em 2016, o governo só empenhou R$ 19 milhões – a rubrica previa valor maior, de R$ 49 milhões. No ano passado, a disparidade foi ainda maior: o Buriti reservou R$ 56 milhões, mas só gastou, de fato R$ 1,6 milhão com essas obras.

“Nós fizemos [manutenção] em vários dos [viadutos] apontados pelo Tribunal de Contas do DF, e é importante registrar que o Tribunal de Contas fez uma amostragem. Nós fizemos [manutenção] também em diversos outros, que não foram apontados pelo Tribunal de Contas”, diz Rollemberg.

Diagnóstico: descaso

Nesta quarta, o engenheiro calculista que projetou o viaduto que desabou na na área central de Brasília visitou o local. Aos 84 anos, Bruno Contarini se emocionou e lamentou a situação da obra.

“Deu vontade de chorar, mas fiquei satisfeito que não morreu ninguém.”

“É chato você ver uma coisa que deveria estar inteira, arrebentada por corrosão. Uma coisa que não precisava ter acontecido. O problema é esse”, disse. Contarini afirma lembrar de todo o projeto e ainda possuir papeis que podem ser usados na perícia da Polícia Civil.

Em entrevista ao G1, Contarini também afirmou que “faltou manutenção” na estrutura. “Houve uma oxidação do material de sustentação [do viaduto] e essa armação falhou e provocou isso”, explica.

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Categoria CEILÂNDIA, Distrito Federal, Politica.