Editorial Jeová Rodrigues

Bater no PT passou a ser esporte favorito em setores da esquerda e em outros, que nunca foram de esquerda, mas que se aproveitavam da onda, para se somar e conseguir o que sempre quiseram – o fim do PT.

Porque o PT incomodou a muita gente, desde o seu nascimento. Não era para ter nascido. Deveria se manter como movimento social, levantando reivindicações, mas deixando a disputa política para os políticos tradicionais e os seus partidos.

Lula era para ter se mantido como combativo líder sindical, sem se meter na política. Quando tentou ser candidato a governador de São Paulo, levou uma surra, que deveria ter lhe servido para não se meter onde não era chamado.

O PT congregou a setores muito distintos, desde militância que surgia para a vida pública no movimento sindical, passando por comunidades eclesiais de base e sua teologia da libertação, até chegar a militantes egressos dos grupos do período anterior da esquerda e de grande parte dos intelectuais de prestígio no país naquele momento. Mas um agregado não faz um partido. Foi necessária a liderança do Lula se projetar como líder nacional e um projeto para o Brasil, que foi amadurecendo aos poucos.

A história do PT está profundamente enraizada na história do Brasil, porque se deu como parte de um movimento muito mais amplo, que deu origem à CUT, ao MST e a vários outros movimentos, que passaram a constituir o movimento popular brasileiro. O PT tornou-se a expressão política nacional desse imenso processo de mobilização social que, pela primeira vez, existia no Brasil.

As lutas políticas desde então tiveram, sempre, no PT, seu principal protagonista, sempre estreitamente associado aos principais movimentos sociais do país. Desde as lutas ainda na transição democrática, pelas eleições diretas, passando pelas lutas de resistência ao governo conservador do Sarney, chegando às eleições presidenciais.

As campanhas do Lula passaram a ser momentos importantes na configuração da identidade do PT. A eleição de 1989 revelava as enormes responsabilidades que repousavam sobre o partido, quando o PMDB se esfacelava e os outros partidos tradicionais não conseguiam ocupar o seu lugar. A projeção do Lula como o adversário do Collor demonstrava como o partido tinha responsabilidades muitos grandes pela frente.

Nas duas eleições seguintes o PT foi vítima da sua incompreensão do momento que vivia o pais, a América Latina e o mundo. Não se dava conta da emergência do neoliberalismo, das suas bandeiras inovadoras para a direita e das armadilhas que preparava para a esquerda. Entre estas, o ataque ao Estado como responsável pelos males do pais e, com ele, aos movimentos sociais e suas reivindicações, as propriedades públicas, às forcas de esquerda como supostas sobrevivências de um passado que a direita teria enterrado.

O PT e toda a esquerda não souberam responder às políticas de ajuste fiscal, que se tornaram a força da direita no combate aos desequilíbrios das contas públicas, elegidos pela direita como o alvo principal para o Brasil superar a crise em que se encontrava. Foram vítimas da eleição do Collor e suas desqualificações do Estado – composto por “marajás” – da proteção do mercado interno – responsáveis pelas “carroças”, que seriam os carros nacionais -, assim como do Plano Real e das suas promessas de que o controle da inflação levaria à superação da crise brasileira.

Os problemas centrais do Brasil, diagnosticados pelo PT, desde suas origem, nas questões sociais – miséria, pobreza, desigualdade social, exclusão social -, eram deslocados pelo neoliberalismo, que se propunha a resolvê-los pela projeção de um Estado mínimo, do dinamismo do mercado e da diminuição dos custos de contratação da força de trabalho.

O impulso do projeto neoliberal durou 10 anos e 3 eleições, em que o Lula foi derrotado, até que o seu esgotamento projetou o PT como o partido que passou a congregar as esperanças do país, agora convencido de que as questões sociais são as fundamentais e o PT e o Lula aqueles com capacidade para enfrentá-los.

Não farei aqui uma história, mesmo se resumida do PT, – projeto indispensável, pendente para o partido -, mas passarei ao período histórico mais recente. Ele se inicia lá atrás, quando surgem as denúncias sobre corrupção do governo do Lula e do PT, que terminam recaindo sobre o partido. Os “petistas” teriam sido os responsáveis, sem que a direita tivesse conseguido envolver o Lula nas acusações, apesar das suas tentativas, desde aquele momento. Dirigentes importantes do PT e ministros do governo caíram, mas o sucesso das políticas sociais do governo permitiu ao Lula reeleger-se, agora como um novo perfil – com o voto majoritário da massa mais pobre do país e concentrado no nordeste do Brasil.

O prestígio do Lula se projetou nacionalmente como o líder político mais importante do país, enquanto o PT sofria as consequências das acusações sistemáticas contra o partido. Depois de ter aumentado suas bancadas, começou a sofrer um declínio, embora tivesse uma projeção importante de governos estaduais, que demonstrariam a reiteração da capacidade nacional de governo em muitos estados, especialmente do nordeste.

O PT passou a ser vítima dos ataques também dentro da esquerda. Setores que tinham se equivocado profundamente sobre tudo o que passava no país, que tinham prognosticado que o Lula e o PT haviam traído a esquerda e fracassariam – da concepção trotskista originaria, da qual nunca se desvencilharam -, e que nunca fizeram autocrítica desses erros garrafais, se concentravam mais nos ataques ao PT do que à direita, com a qual coqueteavam, especialmente durante as eleições, quando ganhavam generosos espaços, em troca de concentrar os ataques no PT.

Lula terminou seu governo com a maior consagração que a esquerda já teve em toda sua história. Com uma popularidade nacional que revelava a capacidade hegemônica que a esquerda nunca havia tido anteriormente. Suas teses se revelavam as que convenciam a grande maioria da população, seu governo tinha a legitimidade popular que nenhum outro havia tido. Lula se consolidava como maior personagem da esquerda mundial no século XXI.

O PT conseguiu se manter, apoiado no sucesso do governo nacional e dos governos estaduais do partido. As bancadas diminuíram de tamanho e perderam força na sua atuação.

O segundo mandato da Dilma foi aquele em que a hegemonia que os governos do Lula haviam logrado, foi se perdendo. A reeleição da Dilma refletiu isso, com derrota fragorosa nos setores em que a influência dos meios de comunicação é forte, inclusive setores pobres da população. A efetividade das políticas sociais permitiu a reeleição.

Mas a pobreza da campanha eleitoral de 2014 já refletia como o PT tinha perdido a capacidade de compreender o momento em que o país vivia, especialmente desde as manifestações de 2013 – iniciadas com reivindicações populares, mas açambarcadas pela direita, que as usou para seus objetivos de desestabilização do governo do PT.

A campanha praticamente se reduziu a proclamar a necessidade de impedir retrocessos, particularmente nas políticas sociais, o que permitiu manter o eleitorado diretamente beneficiado por elas, mas não conseguiu dialogar e ganhar setores que tinham desenvolvido animosidade em relação ao governo e ao PT.

A mais profunda e prolongada crise da história do país, que chega agora ao seu quinto ano seguido, viu o PT ser o alvo fundamental de ataque da direita – que nunca se enganou sobre quem é seu inimigo fundamental, erro que a ultra esquerda comete sempre. Nunca a imagem de um partido foi vítima de tantos ataques, mentiras, perseguições, difamações, como a que se abateu sobre o PT.

O partido sentiu a derrota a perda do governo e dessa campanha contra ele. Perdeu militantes, mas, sobretudo, perdeu capacidade de influência da militância, desmoralizada pelas derrotas e pelos preconceitos que se generalizaram em amplos setores da sociedade contra os petistas.

Foi o Lula quem começou o processo de recuperação da esquerda no Brasil, toda ela afetada pelos retrocessos brutais em termos democráticos, sociais e de soberania nacional. Setores crepusculares se apressaram em anunciar, em coro com a direita, o fim do PT.

Mas foi na adversidade que o PT foi se recuperando, se renovando, voltando a ser o partido da esperança do povo brasileiro. Lula conseguiu fazer com que o partido, renovado nas suas direções, voltasse a identificar sua defesa com a defesa da democracia, dos direitos do povo, do próprio Brasil como país e como nação.

Hoje o Lula e o PT, cujas mortes foram prematuramente anunciadas pelos que sempre as desejaram, pelos que sabem que só terão lugar se o Lula e o PT desaparecessem, reaparecem com força e identificados com o futuro do Brasil. Do que acontecer com o Lula e o com o PT, depende o futuro do Brasil.

Falta muito para que o PT esteja à altura dos difíceis desafios que tem pela frente. Entre tantas necessidades, a de adaptar suas estruturas para formas muito mais dinâmicas de funcionamento, muito mais enraizadas nas práticas de massa, com muito maior capacidade de mobilização dos intelectuais e de formulação estratégica e tática, com maior capacidade de formação da militância política. Precisa renovar sua composição, em grande medida com os setores fundamentais que ainda estão ausentes da vida politica – jovens, mulheres, negros.

Mas é na adversidade que se vê a força e o caráter de um partido. O PT enfrenta essas adversidades tendo à frente o Lula e tendo com si os mais importantes movimentos sociais e o maior contingente de militantes, como único partido nacional e o que representa a esquerda no seu conjunto.

EMIR SADER

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Categoria CEILÂNDIA, JUSTIÇA, Lava a jato, PERSEGUIÇÃO, Politica.