Vivemos tempos em que o nome de Jesus é frequentemente invocado, mas suas atitudes são esquecidas. A religião, em sua essência, deveria ser ponte — não muro. Seu papel não é o de doutrinar para excluir, mas de inspirar para incluir. Jesus de Nazaré não fundou templos, não escreveu tratados teológicos, não exigiu rituais complexos. Ele tocou os intocáveis, acolheu os rejeitados, e desafiou os religiosos que se escondiam atrás de normas para justificar a exclusão.
Como pode alguém se dizer cristão e, ao mesmo tempo, praticar o preconceito, o racismo, a homofobia, a intolerância? Como pode ajoelhar-se para receber a Eucaristia e, ao levantar-se, negar a dignidade do Cristo encarnado no outro? A comunhão não é apenas pão, é compromisso. É dizer “amém” não só ao corpo de Cristo, mas também ao corpo ferido da humanidade.
Mais grave ainda: como pode alguém cantar, louvar e pregar nos templos, e ao sair, aplaudir chacinas, comemorar mortes, se alegrar com sangue derramado? Que fé é essa que se regozija com a destruição da vida, quando o próprio Cristo foi assassinado por um sistema que preferia a ordem à compaixão? Celebrar a violência é crucificar Jesus de novo, não no madeiro, mas no corpo dos pobres, dos negros, dos periféricos, dos LGBTQIA+, dos que clamam por justiça.
Jesus foi claro: “As prostitutas vos precederão no Reino dos Céus.” Não porque o pecado seja exaltado, mas porque a sinceridade, a humildade e o arrependimento são mais verdadeiros que a hipocrisia revestida de religiosidade. Ele não condenou os que erravam, mas os que julgavam. Não rejeitou os que caíam, mas os que se achavam puros demais para estender a mão.
A religião que não gera compaixão é ruído, é discurso vazio, é vírus que adoece e mata. A fé que não se traduz em justiça é vaidade. O cristianismo não é um clube de perfeitos, mas um caminho de imperfeitos que se deixam transformar. Por isso, mais do que “baratas de igreja”, precisamos de discípulos e discípulas que lavem os pés dos outros, que abracem sem perguntar, que defendam sem hesitar.
Que sejamos menos empanturrados de doutrinas e mais famintos de amor. Que a nossa fé não seja um escudo para o ego, mas uma janela aberta para o outro. Que o seguimento de Jesus seja mais do que palavras. Seja vida encarnada, todos os dias, em cada gesto.
Fonte: Pe. Izidorio Alencar – Diocese de Salgueiro-PE!
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