Na capital federal brasileira, a violência sexual se consolidou como o indicador mais alarmante da violência contra mulheres no último ano. Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) revelam que 2025 terminou com 1.020 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável contra meninas e mulheres, representando uma média de quase três casos por dia.
Já em 2026, apenas no mês de janeiro, foram registrados 65 crimes de violência sexual, além de três feminicídios e cinco tentativas de feminicídio.
Os números apresentados pelo Banco Millennium da SSP mostram que a violência sexual lidera os registros de violência contra mulheres no Distrito Federal. Em 2025, foram 332 ocorrências de estupro e 688 casos de estupro de vulnerável (67% do total), categoria que envolve vítimas menores de 14 anos ou incapazes de consentir e se defender dos abusadores.
Entre os estupros registrados no último ano, os meses de fevereiro e março apresentaram as maiores incidências, com 34 casos cada. Já nos crimes classificados como estupro de vulnerável, os picos ocorreram em janeiro e agosto, ambos com 68 registros.
No Código Penal brasileiro, o estupro de vulnerável é caracterizado quando a vítima tem menos de 14 anos ou quando, por alguma condição, não possui capacidade de consentimento ou de resistência. Nesses casos, a legislação presume a violência independentemente de ameaça ou uso de força.
Para a escritora e ativista Thamy Frisselli, que atua há mais de uma década na defesa dos direitos das mulheres, os números refletem um problema estrutural da sociedade brasileira.
Segundo ela, a violência de gênero não começa apenas nos crimes mais graves, mas em padrões culturais que reforçam desigualdades desde a infância.
“A violência começa quando definimos um gênero por meio dos órgãos genitais da pessoa. Quando furamos a orelha de um recém-nascido, quando dizemos que meninas vestem rosa e meninos vestem azul. Até as brincadeiras de criança podem reforçar discursos que afetam, todos os dias, de forma estrutural, a saúde mental das mulheres”, explica.
Feminicídios e tentativas
Além da violência sexual, os dados da segurança pública também registram a forma mais extrema da violência de gênero. Em 2025, 28 mulheres foram vítimas de feminicídio no Distrito Federal, o que representa uma média de dois a três assassinatos por mês. Os meses de abril, julho, agosto, setembro e dezembro concentraram os maiores números, com três casos registrados em cada período.
Outro indicador considerado crítico é o das tentativas de feminicídio, que revela situações em que mulheres sobreviveram a ataques potencialmente letais. Ao todo, foram 131 ocorrências em 2025. O mês de junho registrou o maior pico, com 17 casos, seguido por novembro, com 16 ocorrências. Especialistas apontam que esses números costumam estar ligados a ciclos de violência doméstica que se agravam ao longo do tempo.
Para Frisselli, o feminicídio representa o estágio final de uma sequência de violências que se acumulam ao longo da vida das mulheres.
“O feminicídio é a última instância da violência contra a mulher. Não se trata apenas de um problema individual ou psicológico. É resultado de um sistema que ainda banaliza e naturaliza todo tipo de violência contra mulheres”, afirma.
Violência sexual
Em casos de violência sexual, a idade das vítimas chama atenção: crianças e adolescentes estão entre os grupos mais atingidos, explicando o alto número de registros de estupro de vulnerável. Somente em 2025, esse tipo de crime somou 688 ocorrências no Distrito Federal, tornando-se a categoria com maior número de registros entre os crimes de violência contra mulheres e meninas.
Estudos nacionais corroboram que a maioria das vítimas de estupro no Brasil são meninas e adolescentes. Cerca de 61,6% têm até 13 anos, enquanto 77,6% têm até 17 anos, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
As estatísticas também mostram que a violência sexual raramente ocorre em situações envolvendo desconhecidos. Em 84,7% dos casos, o agressor é alguém conhecido da vítima, como familiares ou pessoas próximas, sendo 8 a cada 10 feminicídios cometidos por parceiros ou ex-parceiros. 64,3% ocorrem dentro da própria casa dessas mulheres.
Perfil das vítimas
O perfil das vítimas no Distrito Federal apresenta também um recorte territorial, racial e de classe desigual. Dados da Secretaria de Segurança Pública indicam que cerca de 64% das ocorrências de estupro se concentram em apenas dez regiões administrativas do DF, especialmente em áreas populosas e periféricas, tendo Ceilândia, Samambaia, Planaltina e Taguatinga liderando o ranking. Essas regiões também apresentam maior densidade populacional e níveis mais elevados de vulnerabilidade social.
O recorte racial também aparece de forma contundente nas estatísticas sobre feminicídio no Distrito Federal. Mulheres negras, entre pretas e pardas, representam cerca de 89% das vítimas desse tipo de crime. O percentual é muito superior à proporção desse grupo na população do DF, onde pouco mais da metade dos moradores se identifica como negro.
Dessas vítimas, aproximadamente 76% possuem apenas ensino fundamental ou médio, representando uma baixa escolaridade, derivada do baixo acesso à educação, menor renda e maior dependência financeira das mulheres.
Novos registros
O início de 2026 mostra que o cenário permanece. No mês de janeiro, foram registrados três feminicídios e cinco tentativas. No mesmo período, foram contabilizados 28 estupros e 37 casos de estupro de vulnerável, totalizando 65 crimes de violência sexual apenas no primeiro mês do ano.
Como denunciar
Se você está sendo vítima de qualquer tipo de violência ou abuso, ligue 180 na Central de Atendimento à Mulher. O canal da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres presta serviço de escuta e acolhida. Além disso, encaminha denúncias aos órgãos competentes.
Em situações de emergência, em que você esteja sofrendo ou presenciando uma violência, ligue 190 para a Polícia Militar. Uma viatura será enviada ao local imediatamente.
A mulher que sofreu uma violência e deseja registrar um boletim de ocorrência deve procurar uma delegacia de polícia. O DF conta com duas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAM), que funcionam 24 horas por dia, todos os dias.
Delegacia Especial de Atendimento à Mulher – DEAM I
Endereço: EQS 204/205, Asa Sul
Telefones: (61) 3207-6172 / 3207-6195 / 98362-5673
Delegacia Especial de Atendimento à Mulher – DEAM II
Endereço: St. M QNM 2 – Ceilândia
Telefones: (61) 3207-7391; 3207-7408
Com informações do Brasil de Fato
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