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Com potencial ainda por explorar, Brics pode enfrentar hegemonia militar e econômica dos EUA, dizem especialistas

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Bloco é visto como alternativa geopolítica e estratégica diante da crise do sistema capitalista

A mesa de abertura do curso de formação sobre o Brics – promovido pela Alba Movimentos e pelo Conselho Popular dos Brics – debateu, nesta sexta-feira (11), o cenário geopolítico global e os desafios estratégicos do bloco. Realizado na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP), o encontro marca o início de três dias de discussões sobre soberania, economia, meio ambiente e articulação entre os povos do Sul Global.

Com o tema “BRICS e a nova geopolítica mundial”, o debate contou com a participação de João Pedro Stedile (MST/Alba), Monica Bruckmann (UFRJ) e Ana Penido (UFRJ). Os três palestrantes convergiram na análise de que o Brics tem potencial ainda por explorar como alternativa ao poder dos Estados Unidos, mas que precisa aprofundar sua vocação popular, democrática e anti-imperialista.

“Ninguém imaginava, no início, a importância que o Brics teria hoje. O bloco passou a ocupar um papel central nas disputas internacionais, e pode ser um espaço para enfrentamento ao imperialismo”, avaliou João Pedro Stedile, que celebrou a criação do Conselho Popular do Brics como uma conquista dos movimentos populares.

A cientista política Ana Penido destacou que a participação ativa dos povos é essencial para que o Brics se consolide como uma força em favor da paz: “Os povos não querem a guerra, têm outras prioridades para o uso do dinheiro público. Um Brics popular pode ajudar a conter a escalada armamentista”.

Já a professora Monica Bruckmann reforçou o papel estratégico do bloco na reorganização da economia global. “É urgente repensar a estrutura interna de cooperação do Brics, para que se promova a reindustrialização dos países membros. Sem isso, seguiremos presos ao ciclo de exportação de matérias-primas”, afirmou.

João Pedro Stedile: Brics como resposta à crise do capital

Economista e diretor nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Stedile defendeu que o mundo vive uma crise estrutural do sistema capitalista, que já não é mais capaz de produzir o que a sociedade precisa para viver. “O sistema só funciona para os bilionários e grandes corporações”, afirmou. A crise se manifesta também no esgotamento do Estado burguês, que não cumpre mais papel social e se limita a garantir a acumulação do capital financeiro.

Neste contexto, o Brics figura como alternativa real. “É o único espaço internacional hoje que pode convergir interesses de países com políticas anti-imperialistas”, disse. Stedile lembrou ainda que a proposta do Conselho Popular dos Brics, aprovada em Cazã (Rússia), é uma vitória dos movimentos populares, pois cria um espaço de articulação à margem das elites econômicas.

Apesar de seus avanços, o economista alertou que o Brics ainda é um processo em construção, marcado por fragilidades e contradições internas. Para ele, o futuro do bloco dependerá da correlação de forças dentro de cada país. “Há governos com orientações distintas atuando no Brics. Alguns cumprem papéis progressistas, mesmo sem serem anti-imperialistas. É nesse jogo de interesses que o bloco vai se moldando”, afirmou.

De acordo com Stedile, o Conselho Popular dos Brics pode cumprir um papel estratégico ao estimular a cooperação entre os povos, para além dos governos. “Há muitos temas que interessam à sociedade e não estão na pauta dos Estados. O conselho pode conectar forças populares em cada país e identificar possibilidades reais de cooperação nas áreas da cultura, da educação, da soberania alimentar. É uma porta que se abre”, disse.

Segundo ele, uma reunião ampliada está sendo preparada em Salvador (BA), com o objetivo de envolver representações populares de todos os países do bloco, além de outros potenciais parceiros. “Queremos trazer os países que estão sendo deixados de lado, como a Venezuela, e garantir que os povos tenham voz nesse processo”, concluiu.

Ana Penido: participação popular é chave para a paz

Ana Penido, que é pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes – Unicamp) e do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, apresentou uma análise sobre os descompassos internos e globais no atual momento geopolítico. Segundo ela, há contradições entre diferentes frações das elites de um mesmo país, o que se expressa, por exemplo, na forte aliança militar brasileira com os Estados Unidos, enquanto na diplomacia e na economia há maior margem de manobra.

Ela destacou que os EUA seguem exercendo hegemonia por meio de guerras, promovendo conflitos que sustentam sua economia e fortalecem a indústria bélica. “Mesmo quando perdem no campo militar, os Estados Unidos vencem economicamente, porque sua economia está profundamente estruturada em torno da produção e venda de armas”, afirmou. “Eles são a própria representação da indústria bélica mundial.”

A pesquisadora também apontou que o discurso de combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas tem sido usado historicamente pelos EUA para criminalizar países desalinhados aos seus interesses. Segundo ela, o BRICS pode contribuir com a diversificação de parcerias no setor militar, sem reproduzir a lógica armamentista do Ocidente.

“Rússia e China têm orçamento para manter estruturas de defesa robustas, mas o povo brasileiro tem outras prioridades. Por isso, é fundamental fortalecer o BRICS popular, com engajamento dos povos para que se escolha a paz e não a guerra”, concluiu.

Monica Bruckmann: cooperação e reindustrialização

A professora Monica Bruckmann abordou o papel dos países do Brics na nova configuração do sistema-mundo. Segundo ela, vivemos um processo de desglobalização e protecionismo, que abre espaço para o fortalecimento de polos alternativos à hegemonia ocidental.

Ela traçou um paralelo com a Conferência de Bandung, em 1955, que deu origem ao movimento dos países não alinhados. “Estamos diante de uma oportunidade histórica semelhante, mas agora com capacidades tecnológicas, científicas e produtivas muito superiores às de 70 anos atrás”, avaliou.

Para Monica, o Brics tem potencial para articular uma nova ordem planetária e financeira, rompendo com a dependência de sistemas como o SWIFT e criando mecanismos próprios de pagamento. Ela defendeu ainda uma reforma na estrutura interna do Brics para promover a cooperação industrial entre os países membros.

“O risco que corremos é continuar reprimarizados, como fornecedores de matérias-primas para a transição energética mundial. Temos as maiores reservas de cobre, lítio e níquel, mas sem industrialização, seguiremos no papel de colônia”, alertou ao citar a desigualdade da estrutura industrial da China em relação aos demais países do bloco.

*Com informações do Brasil e Fato

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