Em mais um capítulo da ofensiva autoritária do governo Donald Trump contra a liberdade de imprensa, Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), ameaçou revogar licenças de emissoras de televisão dos Estados Unidos por divulgarem reportagens críticas sobre a guerra contra o Irã. A declaração, feita nas redes sociais no sábado (14), expõe a contradição central da extrema direita norte-americana: defende a “liberdade de expressão” como bandeira ideológica, mas busca silenciar vozes dissonantes quando o poder está em suas mãos.
Censura com aval estatal: a ameaça de Carr
“As emissoras que divulgam boatos e distorções de notícias — também conhecidas como notícias falsas — têm agora a oportunidade de corrigir o rumo antes que suas licenças precisem ser renovadas”, escreveu Carr. A mensagem, compartilhada junto a uma publicação de Trump no Truth Social, transforma a FCC — órgão regulador técnico — em instrumento de controle político.
A retórica não é nova. Desde que assumiu a presidência da agência, Carr tem levantado repetidamente a possibilidade de confiscar licenças devido a decisões de programação em grandes redes. Mas agora o alvo é a cobertura de guerra: um tema onde a transparência jornalística é vital para o debate democrático.
Primeira Emenda sob ataque: reações imediatas
Parlamentares democratas e organizações de defesa da liberdade de expressão condenaram rapidamente a ameaça. A senadora Elizabeth Warren classificou a declaração como “típica de um manual autoritário”. O senador Mark Kelly afirmou: “Quando nossa nação está em guerra, é crucial que a imprensa seja livre para noticiar sem interferência do governo”.
A Fundação para os Direitos Individuais e a Expressão (FIRE) foi ainda mais direta: “A gestão de Carr como presidente da FCC tem sido marcada por sua descarada disposição para intimidar e ameaçar nossa imprensa livre”. Para a entidade, a publicação é “chocante e perigosa”.
Especialistas em direito constitucional lembram que a Primeira Emenda proíbe explicitamente o governo de usar regulamentações para censurar. “A Primeira Emenda não permite que o governo censure informações sobre a guerra que está travando”, afirmou Aaron Terr, diretor de defesa pública da FIRE.
Padrão de intimidação: de Kimmel à CNN
A ameaça a emissoras por cobertura de guerra segue um roteiro já testado. No ano passado, Carr pressionou a ABC a “mudar a conduta” em relação ao comediante Jimmy Kimmel, cujo programa havia criticado Trump. Resultado: o “Jimmy Kimmel Live!” foi temporariamente retirado do ar.
Em fevereiro, Stephen Colbert denunciou que a CBS o impediu de exibir uma entrevista com um candidato democrata ao Senado devido a novas diretrizes da FCC sobre “igualdade de tempo de antena”. Agora, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, atacou a CNN por reportar que o governo Trump subestimou riscos no Estreito de Ormuz — e brincou que esperava que a rede passasse ao controle de David Ellison, bilionário aliado de Trump.
Interesses econômicos disfarçados de patriotismo
A menção a Ellison não é casual. Sua empresa, Paramount Skydance, busca comprar a Warner Bros. Discovery por US$ 111 bilhões — negócio que colocaria a CNN sob seu controle. Ellison já reformulou a liderança da CBS News, nomeando jornalistas mais conservadores.
Críticos apontam que a retórica de “combate à desinformação” serve, na prática, para abrir espaço a grupos midiáticos alinhados ao governo. A liberdade de expressão, nesse modelo, vale apenas para quem repete o discurso oficial.
Guerra impopular e narrativa controlada
A ofensiva contra a imprensa ocorre em momento delicado: pesquisas mostram que 53% dos eleitores norte-americanos se opõem à ação militar contra o Irã, incluindo 89% dos democratas e 60% dos independentes. Enquanto Trump afirma que “nós vencemos” e que a guerra “já estava acabada na primeira hora”, ataques iranianos persistem e o Estreito de Ormuz permanece bloqueado, com impactos globais no preço do petróleo.
Nesse contexto, controlar a narrativa midiática torna-se estratégia política. Hegseth chegou a pedir que repórteres “patriotas” escrevessem manchetes mais otimistas e criticou faixas de TV que diziam “Guerra no Oriente Médio se intensifica”. “O que deveria estar escrito? Que tal ‘O Irã está cada vez mais desesperado’?”, sugeriu.
A contradição da extrema direita: liberdade só para aliados
O episódio revela a essência do projeto autoritário em curso: a liberdade de expressão é invocada como princípio universal quando convém atacar adversários, mas é descartada quando a crítica atinge o poder. A extrema direita norte-americana, que historicamente denunciou supostos “viéses liberais” na mídia, agora usa o aparato estatal para punir divergências.
Como alertou o senador Brian Schatz: “Esta é uma diretriz clara para fornecer cobertura positiva da guerra, caso contrário, as licenças podem não ser renovadas”. Não se trata de regular conteúdo, mas de impor conformidade.
O que está em jogo: democracia ou censura?
A ameaça de Carr não é apenas sobre licenças de transmissão. É sobre o direito da sociedade de acessar informações plurais, especialmente em tempos de guerra. Quando o governo define o que é “verdade” e pune quem questiona, a democracia deixa de funcionar.
Enquanto especialistas alertam que o processo para cassar licenças é complexo e oneroso, o simples gesto de intimidar já cumpre seu papel: gerar autocensura, esfriar reportagens críticas e moldar a opinião pública pelo medo.
Cabe à sociedade norte-americana — e à comunidade internacional — reconhecer o padrão e reagir. Liberdade de imprensa não é favor que se concede a aliados; é direito que se defende, especialmente quando o poder tenta calá-la.
Com informações do Vermelho
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