A política macroeconômica do governo Javier Milei está desmontando o tecido produtivo da Argentina. Enquanto o gestão ultraliberal celebra a entrada de produtos importados e a queda pontual da inflação, fábricas fecham, empregos desaparecem e trabalhadores cruzam a fronteira em busca de sobrevivência no Brasil.
A reportagem ouviu o sindicalista Ernesto Trigo Quiqui, da manufatura do couro da Argentina, e o economista argentino Eduardo Crespo (UFRJ), que revelaram os custos sociais de um modelo que prioriza a estabilização monetária em detrimento da produção nacional e do trabalho.
“O governo vende o país por pedaços”: o depoimento de quem produz

“Esta crise se atribui basicamente às políticas do governo, de abrir as importações, de deixar de subsidiar estruturas que precisam de apoio para competir”, afirma Ernesto Trigo, do Sindicato da Manufatura do Couro da Argentina. Para ele, o plano de ajuste não apenas reduz o poder de compra, mas elimina postos de trabalho em escala.
Os números corroboram a denúncia: o consumo de leite caiu cerca de 20%, o de carnes, 35%. A população migra para proteínas mais baratas, como frango, enquanto as classes altas mantêm o consumo de bens de luxo. “Tomar um café em Paris sai mais barato que em Buenos Aires”, compara Trigo, destacando a distorção de um país onde os salários mínimos são 8 a 10 vezes menores que os europeus.
A abertura comercial, combinada com apreciação cambial, inundou o mercado argentino de produtos estrangeiros. Em 2025, as importações de bens de consumo saltaram 55%, atingindo US$ 11,4 bilhões. Plataformas como Shein, Temu e Amazon ganharam espaço, enquanto a indústria têxtil local demitiu 16 mil trabalhadores — 13% de sua força de trabalho.
Abertura comercial estrangula produção local, analisa economista

Para o economista Eduardo Crespo, a combinação de abertura comercial e apreciação cambial é o principal fator que golpeia o emprego na Argentina. “Há uma entrada muito grande de importações que competem com a produção local. Isso levou ao fechamento de muitas empresas”, explica.
O ajuste macroeconômico, que busca controlar a inflação via produtos mais baratos do exterior, tem um custo assimétrico: beneficia o consumidor urbano no curto prazo, mas estrangula setores industriais concentrados nas regiões metropolitanas de Buenos Aires, Rosario e Córdoba — regiões que abrigam a maior parte da população e da base produtiva do país.
Setores como agro, mineração, gás não convencional e lítio apresentam crescimento, mas, como alerta Crespo, “não são grandes criadores de emprego” e não compensam a crise na indústria e nos serviços. O resultado é um mercado de trabalho fragmentado, com desemprego estrutural e migração forçada.
Erva-mate em queda livre: o colapso que empurra trabalhadores para o Brasil
Nenhum caso ilustra melhor a dinâmica migratória do que a crise no setor da erva-mate em Misiones, província fronteiriça que concentra a produção argentina. Até 2023, o Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM) definia preços mínimos para a folha verde, garantindo renda aos produtores e tarefeiros. Com o megadecreto DNU 70/2023, Milei desregulamentou o setor, transferindo a negociação para a correlação de forças entre produtores, secadores e indústria.
Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o impacto foi imediato: o quilo da folha verde, que valia cerca de 420 pesos em 2023, caiu para aproximadamente 180 pesos em partes de Misiones, enquanto insumos e combustíveis seguiram em alta. “Muitas propriedades menores passaram a sofrer com a saída da mão de obra”, relata Ángel Enrique Ozeñuk, produtor de San Vicente.
Diante da deterioração da renda, o Brasil surge como alternativa próxima. Dados da Receita Federal mostram que a emissão de CPFs para cidadãos argentinos saltou de uma média de 8 mil por ano (2016-2021) para quase 40 mil em 2025. Grande parte desse fluxo origina-se de Misiones, onde cidades como Puerto Iguazú se tornaram epicentro da migração laboral.
Trabalho sazonal no Sul: a nova rota da sobrevivência
A migração não é apenas permanente — é sazonal e estruturada em redes informais. Trabalhadores deixaram a erva-mate para colher uvas em Pinto Bandeira (RS), onde recebem alimentação e transporte além do salário.
Há trabalhadores que já circulam pelo Brasil desde 2018, trabalhando em colheitas de tomate, maçã, uva e morango em cidades como Flores da Cunha e Caxias do Sul. Com ganhos diário e margem financeira superior à obtida em Misiones.
Para empregadores gaúchos, a mão de obra argentina é valorizada pela experiência técnica, especialmente na poda e colheita manual. “Os tarefeiros chegam com conhecimento sobre a planta e preservam melhor a fisiologia da árvore”, avalia Ilvandro Barreto, da Câmara Setorial da Erva-Mate do RS.
Contudo, o cenário não é isento de riscos. Após o escândalo trabalhista de 2023, que resgatou mais de 200 trabalhadores em situação análoga à escravidão na Serra Gaúcha, o setor ampliou a contratação formal. Para migrantes, o CPF tornou-se porta de entrada para carteira assinada, conta bancária e permanência mais estável — mas também os expõe a novas vulnerabilidades.

Inflação resiste: a promessa não cumprida de Milei
Enquanto a migração avança, a inflação argentina segue resistente. Em fevereiro de 2026, o IPC marcou 2,9%, acumulando 33,1% em 12 meses — aceleração em relação a janeiro. Milei promete inflação abaixo de 1% entre junho e agosto, mas consultorias privadas projetam 1,7% e 1,5%, respectivamente, para os mesmos meses.
A persistência da inflação reflete fatores estruturais: preços da cesta básica, tarifas reguladas e combustíveis seguem pressionando o orçamento das famílias. Nos supermercados de Buenos Aires, promoções “Dois por um” buscam escoar estoques, mas não sinalizam queda real de preços.
Além disso, o governo enfrenta um impasse institucional no Indec, após suspender o lançamento de um novo IPC e perder o presidente do instituto. A incerteza estatística reforça a desconfiança da população em relação às projeções oficiais.
Um modelo que desindustrializa e exporta pobreza
A política econômica de Milei revela uma contradição fundamental: busca estabilizar preços via importações baratas, mas sacrifica a capacidade produtiva nacional e o emprego. O resultado é um círculo vicioso: menos indústria, menos trabalho formal, mais migração e dependência de bens estrangeiros.
Como sintetiza Ernesto Trigo: “Este governo vem vender o país por pedaços e precisava desarticular o Estado-nação”. Eduardo Crespo complementa: a abertura comercial pode ajudar na estabilização macroeconômica, mas “obviamente estrangula parte da produção local”.
Enquanto isso, o Brasil — especialmente os estados do Sul — absorve mão de obra argentina em setores sazonais, revelando uma nova dinâmica regional: a crise econômica de um país vizinho redesenha rotas migratórias e pressiona cadeias produtivas dos dois lados da fronteira.
A pergunta que fica é: até quando um modelo que desindustrializa, desemprega e expulsa trabalhadores poderá ser apresentado como sucesso econômico? Para os argentinos que cruzam a fronteira em busca de trabalho, a resposta já está no cotidiano — e no CPF brasileiro que carregam no bolso.
Com informações do Vermelho
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