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Por que entrada no Conselho da Paz de Trump pode ser perigo para Lula

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Participação no conselho idealizado por Trump divide o Planalto e expõe riscos diplomáticos, políticos e comerciais para o governo Lula

Um convite para integrar o Conselho da Paz de Donald Trump tornou-se o novo dilema diplomático do governo brasileiro. Nessa segunda-feira (26/1), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou quase 50 minutos em uma ligação com o líder da Casa Branca. E um dos temas principais foi a estrutura da organização, que pode ampliar o protagonismo internacional do Brasil ou trazer riscos políticos, diplomáticos e econômicos.

Analistas ouvidos pelo Metrópoles avaliam que a decisão coloca o governo brasileiro diante de uma encruzilhada.

Participar do conselho pode comprometer princípios históricos da política externa do país, enquanto uma recusa direta tende a recolocar o Brasil em rota de colisão com Washington, justamente após um ano de esforços para reaproximar ambos os governos e reduzir tensões comerciais ainda em vigor.Play Video


Convite reforçado

  • Na última semana, Trump havia reforçado o convite para o Brasil integrar o colegiado criado pela Casa Branca para coordenar esforços de transição política, segurança e reconstrução da Faixa de Gaza.
  • O republicano chegou a afirmar que o petista teria um “grande papel” no conselho.
  • Lula, por sua vez, evitou dar uma resposta definitiva e apresentou condicionantes.
  • Uma das principais preocupações do governo brasileiro é o alcance da iniciativa.
  • A minuta de criação do Conselho da Paz prevê que o órgão possa atuar em qualquer conflito que venha a se desenvolver, não apenas em Gaza, o que amplia o grau de envolvimento político dos países integrantes.

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Críticas ao modelo e defesa da ONU

Nessa segunda, durante telefonema, o brasileiro sugeriu que a atuação do órgão fosse limitada ao conflito em Gaza e que houvesse representação da Palestina nos debates.

Em nota divulgada após a conversa, o Planalto informou que Lula voltou a defender uma reforma abrangente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), com ampliação dos membros permanentes.

“Ao comentar o convite formulado ao Brasil para que participe do Conselho da Paz, Lula propôs que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina. Nesse contexto, reiterou a importância de uma reforma abrangente das Nações Unidas”, diz o comunicado.

Dias antes, o presidente havia adotado um tom mais duro ao criticar publicamente a iniciativa de Trump.

“O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo, ou seja, está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada”, afirmou Lula, ao dizer que o republicano quer “criar uma nova ONU” e ser “dono dela”.

Protagonismo limitado no Conselho

Para a coordenadora do curso de relações internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Fernanda Brandão, o desenho do conselho limita o espaço de atuação de países como o Brasil. Segundo ela, Trump não costuma dividir protagonismo em iniciativas internacionais, o que reduz a capacidade de influência de outros atores.

“Assim, o Brasil ao decidir participar terá dificuldades em avançar seus interesses e posições nesse Conselho. Apesar de correr o risco de se tornar corresponsável pelas decisões tomadas, a presença do Brasil também cria espaço para o país manifestar suas preocupações e perspectivas sobre Gaza”, afirma.

A especialista destaca que há uma tendência de prevalência de países alinhados a Israel entre os convidados, dificultando a defesa de posições historicamente adotadas pelo Brasil no conflito do Oriente Médio, como a solução de dois Estados — onde Israel e Palestina coexistiriam como dois países independentes.

Presidência fixa e lógica financeira

Outro ponto sensível é a estrutura de governança do órgão. Diferentemente do modelo adotado pela ONU, o Conselho da Paz não prevê rodízio de comando.

Pelo estatuto, Trump seria presidente de forma indefinida, com influência direta sobre votações, mandatos e permanência de países integrantes.

Há também preocupação com o modelo financeiro.

O documento prevê que países interessados em assento permanente aportem US$ 1 bilhão ao fundo do conselho, o que, na avaliação da diplomacia brasileira, cria uma lógica de “paz mercantil”, na qual quem contribui mais tem maior peso político.

Resistência interna e condicionantes

Internamente, auxiliares do Planalto avaliam que o Brasil não deve aceitar um convite baseado em adesão automática a um estatuto unilateralmente formulado pelos Estados Unidos.

A participação só seria considerada se as bases do conselho fossem renegociadas, com regras construídas de forma coletiva e não impostas por Washington.

A tendência entre integrantes do governo, no momento, é negar a proposta.

Até agora, Lula ainda não bateu o martelo. A avaliação no Planalto é de que o tema seja empurrado para o segundo semestre, quando deve ganhar centralidade nos debates da Assembleia Geral da ONU, em setembro.

Custos políticos e risco à neutralidade

O peso geopolítico da decisão também preocupa especialistas. Para o líder de estratégia de alocação da InvestSmart XP, Rafael Bellas, a entrada do Brasil no colegiado reforça a legitimidade internacional de uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos, mas expõe o país a custos políticos relevantes.

Segundo ele, ao integrar o conselho, o Brasil deixa de ser apenas um mediador externo e passa a compartilhar o respaldo institucional ao arranjo.

Caso decisões controversas sejam tomadas ou a reconstrução de Gaza enfrente impasses, o Brasil pode ter a imagem associada aos resultados, mesmo sem influência decisiva.

Bellas também destaca que a participação pode enfraquecer a política externa de neutralidade ativa adotada pelo Itamaraty, especialmente junto a países do Sul Global e parceiros árabes, reduzindo a credibilidade do país como ator equilibrado em fóruns multilaterais.

“Seu prestígio diplomático pode acabar associado a uma estratégia definida principalmente pelos Estados Unidos”, destaca.

América Latina no radar de Trump

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro acompanha com cautela a postura de Trump em relação à América Latina, tratada pelo republicano como área de influência dos Estados Unidos. Analistas avaliam que uma recusa direta ao convite poderia levar a um endurecimento da posição americana, inclusive com reflexos comerciais.

Por outro lado, aceitar o convite exige habilidade diplomática para manter o diálogo com países árabes, preservar o compromisso com o multilateralismo e evitar desgaste interno.

Com informações do Metrópoles

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