O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou que chegou a temer uma operação militar estrangeira contra seu governo após declarações e sinais vindos de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Segundo Petro, o clima de tensão foi tão intenso que ele chegou a imaginar uma força de assalto aterrissando no Palácio de Nariño, sede do governo colombiano, sem que houvesse sequer um bunker para proteção. O receio se deu em meio a ataques verbais públicos de Trump, que o acusou de envolvimento com o narcotráfico e determinou a retirada de seu visto, além de incluí-lo em listas de sanções norte-americanas.
A entrevista foi concedida ao jornal espanhol El País, que detalha o momento político delicado vivido por Petro nos meses finais de seu mandato. O presidente relatou que a percepção de risco diminuiu após uma longa conversa telefônica com Trump, realizada na quarta-feira (7), na qual ambos falaram por cerca de uma hora e encerraram o diálogo em tom cordial.
Durante a entrevista, Petro admitiu que acreditou seriamente na possibilidade de ser sequestrado, assim como ocorreu com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no sábado (3). Questionado se realmente temeu ser removido do cargo à força, respondeu de forma direta: “Sem dúvida. Nicolás Maduro, ou qualquer presidente no mundo, pode ser destituído se não se alinhar a certos interesses”.
Petro explicou que a Colômbia não dispõe de sistemas sofisticados de defesa aérea e que nunca houve investimentos desse tipo porque o conflito histórico do país sempre foi interno. “Aqui nem sequer há defesa antiaérea. Nunca se comprou porque a luta é interna”, afirmou. Segundo ele, não houve necessidade de alertas específicos dos serviços de inteligência, já que as ameaças eram públicas. “Trump vem dizendo isso há meses”, declarou, acrescentando que sua principal resposta foi convocar mobilizações populares como forma de proteção política.
Ao ser questionado se a ameaça teria diminuído após o contato direto com o líder norte-americano, Petro foi cauteloso. “Acho que congelou, mas posso estar enganado. Não soubemos que ação militar se planejava, apenas que havia uma em curso”. Em seguida, detalhou o conteúdo mais sensível da conversa: “Trump me disse na chamada que estava pensando em fazer coisas más na Colômbia. A mensagem era que estavam preparando algo, planejando, uma operação militar”.
Segundo o presidente colombiano, Trump havia recebido informações distorcidas vindas da oposição colombiana radicada na Flórida. “Essa oposição mente sobre nossa luta contra o narcotráfico. Você lê o que diz Álvaro Uribe e praticamente vem defender que nos ataquem”, afirmou. Ainda assim, Petro disse ter saído da conversa com uma impressão menos hostil do presidente dos Estados Unidos. “Faz o que pensa, como eu. Também é pragmático, mais do que eu. Eu gosto de conversar”, disse, acrescentando que Trump lhe confidenciou: “Sei que inventaram muitas mentiras sobre você, assim como sobre mim”.
O presidente também comentou sua atuação no cenário regional, especialmente em relação à Venezuela. Confirmou que mantém diálogo com Delcy Rodríguez, atual presidente do país na ausência de Maduro, e afirmou ter relação pessoal próxima com ela. “Sou amigo dela. Está pressionada, dentro e fora”, disse. Para Petro, o desafio central venezuelano é a unidade popular: “Se o povo se divide, haverá colonização. Se se une e busca uma saída política, pode avançar”.
Ao tratar da oposição venezuelana, Petro fez críticas diretas a María Corina Machado. “Ela tem que mudar seu discurso. Tudo o que fez até agora está equivocado”, afirmou, acrescentando que não considera que o processo eleitoral recente tenha sido plenamente livre. “Eu não considero que foram eleições livres”, declarou, lembrando que sua posição se aproxima, nesse ponto, da defendida por autoridades norte-americanas.
Petro também detalhou os esforços de mediação internacional anteriores às eleições venezuelanas, envolvendo países como México, Noruega e Estados Unidos. Segundo ele, houve tentativas concretas de criar condições para eleições livres, com redução da repressão e suspensão de sanções, mas o processo fracassou. “Não houve anistia, não houve desbloqueio e tudo fracassou”, resumiu.
Ao final da entrevista, o presidente colombiano rejeitou a ideia de que esteja vivendo um “ocaso” político. Para ele, as recentes mobilizações populares demonstram vitalidade. “Faltando tão pouco tempo, sair tanta gente às praças demonstra força. Me sinto muito satisfeito com a companhia do povo”, concluiu.
Originalmente publicado em Brasil247
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