Início Política Mudança nas cúpulas do STF e do TSE redefine a relação entre Justiça e política nas eleições
Política

Mudança nas cúpulas do STF e do TSE redefine a relação entre Justiça e política nas eleições

Compartilhar
Compartilhar

Expectativa é de que, com Nunes Marques e André Mendonça à frente, Corte tenha uma atuação mais discreta nas eleições

A configuração das cúpulas do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, em 2026, abre um novo capítulo na relação entre Justiça e política em ano eleitoral. De um lado, o STF será comandado por Edson Fachin, com Alexandre de Moraes na vice-presidência, dupla que esteve no centro da resposta institucional aos ataques às urnas e ao resultado das eleições de 2022. Do outro, no TSE o comando ficará nas mãos de Kássio Nunes Marques, com André Mendonça como vice, ambos indicados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e associados a uma atuação mais contida da Justiça Eleitoral.

A mudança de eixo no TSE — atualmente presidido pela ministra Cármen Lúcia —, que deixa para trás o protagonismo exercido por Moraes e Fachin em 2022, tem provocado debates no meio jurídico e político sobre como a Corte reagirá, desta vez, às campanhas de desinformação, às críticas às urnas eletrônicas e às tentativas de judicialização do resultado eleitoral e, sobretudo, à manipulação da inteligência artificial para a disseminação de mentiras.

Para o advogado Luiz Gustavo Cunha, especialista em direito eleitoral, o contraste entre as duas duplas é grande. “Em 2022, o TSE adotou uma postura expansiva, intervindo de forma direta e, por vezes, criativa, para conter o avanço de narrativas que colocavam em dúvida a integridade do processo eleitoral. Essa atuação foi vista por muitos como decisiva para a preservação do resultado, mas, também, gerou questionamentos sobre os limites constitucionais do tribunal”, afirma.

No pleito de 2022, o tribunal editou resoluções que aceleraram a remoção de conteúdos considerados desinformativos nas redes sociais, restringiu propaganda paga na internet nos dias que antecederam a votação e atuou de forma intensa em ações contra candidatos e partidos. Para críticos, esse modelo reforçou a percepção de judicialização da política e alimentou discursos de perseguição e censura.

Já Nunes Marques e Mendonça, segundo Cunha, defendem uma concepção de Justiça Eleitoral mais autocontida. “Eles sinalizam que o TSE não deve funcionar como um ‘terceiro turno’ das eleições. A ideia é reprimir abusos claros, mas evitar intervenções que possam ser lidas como correção política do resultado”, diz o advogado. Mendonça, inclusive, declarou recentemente que a futura cúpula do tribunal deve agir com discrição, imparcialidade e fundamentação, ouvindo as partes de todos os lados.

A grande incógnita é se um TSE menos protagonista não se tornará mais vulnerável a estratégias sofisticadas de desinformação e a ataques coordenados, sobretudo no ambiente digital. Para Cunha, o risco existe. “A velocidade com que narrativas falsas se espalham hoje desafia os tempos do Judiciário. Uma redução excessiva do ímpeto institucional pode abrir brechas perigosas para a erosão da confiança no processo eleitoral”, avalia.

Por outro lado, há quem veja na mudança uma oportunidade de reduzir a tensão institucional. “O excesso de intervenção observado em 2022 acabou alimentando discursos antissistêmicos. Uma postura mais discreta pode retirar combustível dessas narrativas”, pondera.

Mesmo com a troca de comando, o TSE continuará a decidir de forma colegiada. A maioria dos ministros da Corte Eleitoral, indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tende a funcionar como contrapeso relevante. Juristas próximos a Moraes e ao ministro Flávio Dino, como o professor Floriano Marques e a ex-secretária do Ministério da Justiça Estela Aranha, integram o plenário e podem influenciar decisões em temas sensíveis, como pedidos de cassação, direito de resposta e ações sobre propaganda e desinformação.

Nesse contexto, a mudança de perfil no comando do TSE pode ser lida menos como um risco institucional e mais como um retorno gradual ao modelo tradicional da Justiça Eleitoral, voltado à garantia das regras do jogo. Ainda assim, o ambiente de forte polarização e o legado dos ataques às instituições — incluindo os de 8 de Janeiro — impõem à Corte um desafio delicado.

“O sucesso do TSE em 2026 dependerá menos dos nomes e mais da capacidade de equilibrar poder, prudência e legitimidade institucional”, resume Luiz Gustavo Cunha. “Um Judiciário excessivamente expansivo corre o risco de substituir a política; um Judiciário excessivamente contido pode falhar na proteção da democracia”, explica.

*Originalmente publicado em Metrópoles

Quer ficar por dentro do que acontece em Taguatinga, Ceilândia e região? Siga o perfil do TaguaCei no Instagram, no Facebook, no Youtube, no Twitter, e no Tik Tok.

Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente/Pôr do Sol e região por meio dos nossos números de WhatsApp: (61) 9 9916-4008 / (61) 9 9825-6604.

Compartilhar
Artigos Relacionados

Assessor de Trump que visitará Bolsonaro é um dos grandes ideólogos da extrema-direita

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a...

Lula lidera em todos os cenários de primeiro turno, aponta nova pesquisa

Simulações de primeiro turno para as eleições presidenciais de 2026 indicam que...

Lula discute cooperação energética em ligação com presidente da Namíbia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone na...

Lula cancela ida à posse de Kast no Chile

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou de última hora a...