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Filho de Ibaneis e aliado venderam crédito de R$ 38 milhões à Reag antes de BRB negociar com Master

Um fundo ligado à Reag Investimentos, empresa investigada no caso do Banco Master, comprou um crédito de R$ 38 milhões do escritório do advogado Caio Carvalho Barros, filho do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e de outro aliado político e profissional do chefe do Executivo local, pouco antes de o Banco de Brasília (BRB) iniciar negociações com o banco de Daniel Vorcaro.

A informação foi publicada pelo jornal Estado de S. Paulo, que teve acesso ao documento da operação. A negociação havia sido revelada inicialmente pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, e acrescenta um novo elemento ao cerco político e judicial em torno das relações entre agentes do governo do Distrito Federal, a Reag e o colapso do Banco Master.

O contrato foi firmado em 29 de maio de 2024. Os escritórios assinaram o documento em 3 de junho, e o fundo ligado à Reag assinou em 5 de junho. Ainda naquele mesmo mês, o BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, começou a fazer negócios com o Master, instituição que posteriormente se tornaria alvo de investigações da Polícia Federal e acabaria liquidada.

Segundo o escritório Ibaneis Advocacia, o crédito foi vendido por R$ 10,3 milhões, pagos em 12 de junho de 2024. Desse total, R$ 4 milhões foram destinados ao escritório ligado à família do governador e R$ 6,3 milhões ao Engels Muniz Sociedade Individual, que participou da negociação.

Negócio antecedeu aproximação entre BRB e Master

A sequência dos fatos é politicamente sensível. Um mês depois da venda do crédito ao fundo ligado à Reag, o BRB começou a negociar operações com o Banco Master. Inicialmente, Daniel Vorcaro e a própria Reag se tornaram acionistas do Banco de Brasília. Na sequência, o banco estatal passou a comprar carteiras de crédito do Master.

Em março de 2025, o BRB chegou a apresentar uma oferta para comprar parte do banco de Vorcaro. Na ocasião, Ibaneis deu aval e apoio público à iniciativa. Mais tarde, porém, o avanço das investigações abalou profundamente essa articulação.

De acordo com as apurações da Polícia Federal citadas pela reportagem, os créditos vendidos pelo Master ao BRB eram podres e até inexistentes. As operações, segundo as investigações, deixaram um prejuízo calculado em pelo menos R$ 8 bilhões ao Banco de Brasília. A compra do Master pelo BRB acabou rejeitada pelo Banco Central em setembro. Em novembro, o Master foi liquidado, Vorcaro foi preso e o próprio BRB passou a ser investigado por suspeitas de fraude.

Como foi feita a cessão dos direitos

O escritório ligado a Ibaneis Rocha, em parceria com o escritório do advogado Engels Augusto Muniz, cedeu honorários advocatícios ao “Reag Legal Claims Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizados”. O crédito era decorrente de uma ação movida em favor do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindlegis/DF), em processo no qual servidores ativos e aposentados cobram da União o pagamento de benefícios vinculados ao exercício de funções comissionadas.

A União foi condenada a efetuar os pagamentos, mas o processo ainda não havia transitado em julgado. Nesses casos, é comum que credores e advogados negociem seus direitos com deságio para antecipar o recebimento dos valores.

Segundo o documento citado pelo jornal Estado de S. Paulo, o valor total da condenação era de R$ 381,3 milhões. O crédito foi negociado por R$ 38,1 milhões, o equivalente a 10% desse montante.

O diretor do fundo comprador é Marcos Ferreira Costa. Ele também é apontado como responsável pelo Fundo Borneo, que se tornou acionista do BRB e, em março de 2025, apoiou a eleição de dois advogados indicados por Ibaneis para o Conselho Fiscal do banco. Após revelações anteriores sobre o caso, os dois conselheiros renunciaram aos cargos.

Relações políticas ampliam a pressão sobre o governador

A operação ganhou ainda mais repercussão por envolver personagens próximos ao núcleo político do governador. Engels Augusto Muniz, que participou do negócio, é sócio do escritório de advocacia do secretário da Casa Civil de Ibaneis, Gustavo Vale Rocha. Além disso, foi secretário-executivo de Rocha no Ministério dos Direitos Humanos, durante o governo Michel Temer.

Ibaneis é fundador do escritório de advocacia envolvido na cessão do crédito, embora afirme estar desligado da sociedade desde o fim de 2018, quando foi eleito governador. Seu filho, Caio Carvalho Barros, tornou-se advogado em 2022 e passou a integrar a sociedade, representando a companhia.

Também pesa no caso o fato de a Reag ser investigada nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto, que apuram esquemas de lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado. Esse contexto elevou o custo político do contrato e intensificou as cobranças por explicações públicas.

As versões apresentadas pelos envolvidos

Em nota, o escritório Ibaneis Advocacia afirmou que os dois escritórios receberam valor equivalente a 27% do valor do crédito, totalizando R$ 10,3 milhões. A sociedade declarou:

“Trata-se, pois, de negócio jurídico regular, lícito e reiteradamente praticado no mercado por escritórios de advocacia, credores da Fazenda Pública e instituições financeiras, como forma de abreviar o recebimento, com deságio, de valores decorrentes de ações judiciais contra entes públicos”

Já o advogado Engels Augusto Muniz afirmou ao jornal que a operação foi regular e negou qualquer relação entre o contrato e o escândalo do Banco Master. Segundo ele, a iniciativa partiu do escritório ligado a Ibaneis:

“Em determinado momento, ele (o escritório de Ibaneis) entendeu que deveria vender esses créditos. Tínhamos uma expectativa de receber um valor muito maior e vendemos por um deságio muito grande. Procuramos vários fundos e um dos que aceitou pagar um valor razoável foi um fundo ligado à Reag”

Muniz também negou que a transação tivesse qualquer conexão com as operações posteriores entre BRB e Master. Em sua versão, as tratativas sobre a cessão começaram muito antes de o banco estatal entrar em cena:

“Começamos a negociar a venda em 2021. Não existia nem BRB, nem Master, nem venda de BRB para Master nem compra desses ativos do Master”

Ainda segundo ele, o escritório de Ibaneis ficou com a maior parte do valor da venda, sem detalhar o montante. A afirmação contrasta com a nota divulgada pela própria sociedade ligada ao filho do governador, que informou uma divisão específica dos valores.

Oposição aciona STF e pede investigação

As revelações provocaram reação imediata da oposição no Distrito Federal. Segundo o jornal Estado de S. Paulo, parlamentares e partidos pediram apuração do contrato de R$ 38 milhões.

O deputado distrital Fábio Felix (PSOL) solicitou que Ibaneis seja investigado, para que a Polícia Federal apure se há outros contratos entre o governador e a Reag e se os valores pagos são compatíveis com os praticados no mercado.

O PSB, por sua vez, pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o afastamento de Ibaneis em razão do contrato. Já PSOL e Rede decidiram protocolar um pedido de impeachment do governador na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

A ofensiva da oposição tenta ampliar o foco das investigações, conectando o contrato firmado com o fundo da Reag ao ambiente mais amplo de relações entre agentes políticos do governo do DF, o BRB e o Banco Master. Embora os envolvidos sustentem a legalidade do negócio, o caso se tornou mais um capítulo da crise que atingiu o banco estatal brasiliense e expôs a promiscuidade entre poder político, mercado financeiro e estruturas de influência no Distrito Federal

Com informações do Brasil247

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