“Falta o tempo necessário para que Moro seja burilado, mas suficiente também para que Bolsonaro trate de esvaziá-lo. E, a julgar por seu comportamento, se recusando a vetar o item do projeto anticrime, que institui os juízes de garantias, Bolsonaro pode ir além”, pondera a jornalista Denise Assis sobre uma eventual candidatura presidencial de Sérgio Moro
“Falta o tempo necessário para que Moro seja burilado, mas suficiente também para que Bolsonaro trate de esvaziá-lo. E, a julgar por seu comportamento, se recusando a vetar o item do projeto anticrime, que institui os juízes de garantias, Bolsonaro pode ir além”, pondera a jornalista Denise Assis sobre uma eventual candidatura presidencial de Sérgio Moro
Foi dada a largada. Há uma semana que as organizações Globo batem no Lula, na Dilma, no PT, como nos áureos tempos de Lava-Jato, tentando ressuscitar o antigo prestígio do fenômeno que alavancou o ex-juiz, Sergio Moro, para o cenário nacional e político. Sustentando a tal Lava-Jato, eles vitaminam o possível candidato “mais arrumadinho”, para 2022, uma vez que em 2018 eles apostaram no cavalo errado.
É preciso respeitar o tempo de construção de golpes e candidatos: geralmente dois anos. E está aí a história do Ipês, em 1964 – campanha iniciada em 1962, para a derrubada de Jango-, e 2016 – golpe que começou a ser construído em 2014 -, que não me deixam mentir. O processo é lento, constante e determinado. É preciso voltar com o nome de Lula para o noticiário e mostrá-lo de novo como um bandoleiro, um malfeitor. A tal ponto isto é introjetado nos profissionais da emissora, que Bonner, ao falar da lua, nesta semana, trocou por “Lula”, num ato falho que deu o que falar.
A tática é a mesma de sempre. Mostrar para o respeitável público qual é o bandido e qual é o mocinho que pode salvar a nação das mãos dos “corruptos”, palavrinha mágica, panaceia para todos os certames. Falou em eleição, e lá está ela, no noticiário, pra baixo e pra cima, colada na testa dos candidatos de oposição.
Sim, senhoras e senhores, na falta de resultados, compostura e decoro, melhor é colocar logo o candidato em perspectiva no centro do jogo e tratar de moldá-lo ao gosto do mercado, da elite e do eleitorado médio, que sempre segue os ricos, porque precisam parecer igual.
Moro andou miúdo, espicaçado pelo patrão, chutado para escanteio. Mas bastou um hiato longo entre uma publicação e outra da Vaza-Jato, a libertação do Lula e a queda significativa de Bolsonaro nas pesquisas – perdendo em popularidade para o seu ministro da Justiça -, para que que a luz no fim do túnel se acendesse para os fazedores de candidatos. Eis aí o cavalo passando selado. É montar ou montar.
Pesquisa do Instituto FSB, divulgada no dia 6 de dezembro, mostrou o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) com 9 pontos percentuais à frente de Lula em uma eventual disputa presidencial em 2º turno. O ex-juiz federal obteve 48% das intenções dos votos em 1º turno, enquanto Lula: 39%. Eis, enfim, alguém com fôlego para bater no candidato/preferência nacional, devem ter comemorado.
Desde então, denúncias requentadas e processos mal-ajambrados saíram das gavetas, numa espécie de sintonia fina entre Moro e o noticiário, interessado em moldar o candidato a ser apresentado como solução para vencer Lula na refrega de 2022. Mas, convenhamos, apesar de ser o tempo necessário e suficiente para que ele fique pronto, é tempo também para que Bolsonaro lhe corte as asas, que andam crescendo além do que o presidente gostaria.
Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 8 de novembro apontou que Moro é conhecido por 93% dos entrevistados. Entre os que dizem identificá-lo, 53% avaliam sua gestão no ministério como ótima/boa. Outros 23% consideram regular, e 21%, ruim/péssima -3% não souberam opinar. Isto, graças a fatores tais como a reativação das prisões-espetáculo que andaram sendo exibidas no noticiário, como nos velhos tempos.
Bolsonaro tem indicadores mais modestos, de acordo com o mesmo levantamento, com 30% de ótimo/bom, 32% de regular e 36% de ruim/péssimo —1% não soube avaliar. Numa tentativa de fingir que não sentiu o golpe, o presidente chegou a dizer, em uma live, que Moro é uma opção para 2022. Mas que ninguém se iluda. Bolsonaro pode dar uma de “abelha-rainha”. Depois de fecundada pelo zangão, o único macho da colmeia, ele paga um preço alto pela proeza: após a cópula, seu órgão genital é rompido, e o zangão morre.
Falta o tempo necessário para que Moro seja burilado, mas suficiente também para que Bolsonaro trate de esvaziá-lo. E, a julgar por seu comportamento, se recusando a vetar o item do projeto anticrime, que institui os juízes de garantias, Bolsonaro pode ir além. Que Deus nos livre e guarde, até mesmo partir para manobras radicais, caso não aviste horizontes favoráveis, para se manter no poder. Que venha 2020!
Denise Assis
Jornalista há quatro décadas, passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de “Propaganda e cinema a serviço do golpe – 1962/1964” e “Imaculada”, membro do Jornalistas pela Democracia
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