Com expectativas moderadas, a cúpula do Rio pode consolidar avanços, em meio a dissensos e aos limites da cooperação entre os gigantes emergentes
A 17ª Cúpula do BRICS, que acontece nos dias 6 e 7 de julho no Rio de Janeiro, carrega um simbolismo inegável: o Brasil volta a ser protagonista de um dos principais fóruns da geopolítica global, justamente num momento em que o mundo assiste à erosão do unilateralismo, do multilateralismo tradicional limitado pela hegemonia dos Estados Unidos, à emergência do multlateralismo genuíno e ao avanço da luta pela nova ordem multipolar.
Sob a presidência brasileira, o BRICS, agora ampliado e mais heterogêneo, busca reafirmar o papel do Sul Global como força política e econômica relevante, defendendo mais equilíbrio nas decisões internacionais e maior inclusão dos países em desenvolvimento nas instâncias globais. Numa visão realista, o que se espera do encontro no Rio são sinais concretos: avanços em mecanismos financeiros, compromisso real com o enfrentamento das crises globais, sobretudo o clima e a desigualdade, e, principalmente, a reafirmação de que o BRICS é uma plataforma a serviço de um mundo mais justo e equilibrado. Mas os desafios são grandes. Play Video
O governo Lula assume o comando do BRICS com uma postura pragmática e moderada, excessivamente empenhado para que o grupo se torne um instrumento de confronto direto com o Ocidente. O Brasil aposta em temas concretos e consensuais, como o fortalecimento do comércio em moedas locais, a cooperação em saúde — especialmente em vacinas e medicamentos —, o financiamento de infraestrutura e o combate às mudanças climáticas.
Por sua vez, a China, maior potência econômica do grupo, imprime um tom mais assertivo. Pequim enxerga o BRICS como peça-chave para fomentar o protagonismo do Sul Global via a proposta de construção da comunidade de futuro compartilhado, incremento de cooperação no âmbito do Novo Cinturão e Nova Rota da Seda, consolidação da multipolaridade, iniciativa de desenvolvimento global e de civilização global, para o que é imperativo ampliar o BRICS e o Sul Global como sujeito importante na edificação da nova ordem econômica e política internacional.
Por óbvio, esta diferença de enfoques não significa distanciamento entre o Brasil e a China, que compartilham interesses comuns e têm uma parceria estratégica global consolidada na nova era.
Um tema que desperta atenção e suscita discussões é a ampliação do BRICS, o que torna o grupo mais representativo e também mais diverso. Neste ambiente, a coesão do bloco será testada.
O Brasil tem demonstrado cautela em relação à expansão acelerada. Embora reconheça a importância de ampliar a representatividade, teme que um grupo muito heterogêneo dificulte consensos e dilua a capacidade do BRICS de apresentar propostas concretas ao mundo. Já a China e a Rússia alimentam expectativas de maior ampliação.
É necessário tomar em consideração que a Cúpula do BRICS do Rio de Janeiro ocorre em meio a um cenário internacional conturbado: a guerra comercial, exacerbada pelas políticas protecionistas dos Estados Unidos sob o governo Trump; as tensões geopolíticas em várias regiões; a disputa tecnológica; e o avanço de discursos unilateralistas. Nesse contexto, o BRICS se apresenta como alternativa para defender uma ordem internacional mais equilibrada, multipolar e baseada no Direito Internacional.
Mesmo com diferenças de ênfases e enfoques, seja na visão sobre a governança global, na relação com países que pretendem a hegemonia, ou nos modelos internos de desenvolvimento, o BRICS tem o mérito de abrir espaço para que o Sul Global tenha voz e influência. O fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), dirigido pela ex-presidenta do Brasil Dilma Rousseff, os esforços para reduzir a dependência ao dólar em transações bilaterais, as iniciativas voltadas para o desenvolvimento compartilhado, o multilateralismo e a promoção da paz demonstram que, apesar das limitações, o bloco pode se fortalecer.
O governo brasileiro tem um papel estratégico nesta cúpula. Lula tenta equilibrar o fortalecimento do BRICS com o compromisso histórico do Brasil com o multilateralismo, o diálogo e o respeito às instituições internacionais. O desafio é manter a unidade e consolidar o grupo como espaço legítimo de cooperação entre países emergentes.
A cúpula no Brasil pode dar novo passo, ainda que modesto, para consolidar o BRICS como ator relevante na reconfiguração da ordem mundial.
*Com informações do brasil247
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