
Brasília é uma cidade única. Planejada para representar a modernidade no que ela tinha de melhor, possui características singulares que lhe garantiram entrar no seleto rol de sítios declarados Patrimônios da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Pensada inicialmente para ser uma capital administrativa, hoje, é seguro afirmar, vive a efervescência de uma vida cotidiana plena de cultura e arte populares. Tanto é assim que o brasiliense subverteu o planejamento original e adotou o Eixo Rodoviário, aos domingos, como um dos principais pontos de encontro na Capital, onde os carros dão lugar às pessoas no rebatizado Eixão do Lazer.
Esse tipo de ressignificação dos espaços, que promove uma reapropriação socialmente espontânea, não apenas é saudável para a cidade tombada – pois demonstra maturidade e diversidade da população para escolher os rumos de sua cidade – como agradou até mesmo o urbanista Lucio Costa, autor da proposta original para Brasília. Em 1987, quando revisitava a cidade, Costa refletiu sobre o modo como trabalhadores e trabalhadoras utilizavam a Rodoviária do Plano Piloto de modo bem diferente do que fora planejado por ele. Em vez de um requintado equipamento no centro da Capital da República, coração da metrópole, converteu-se em um lugar de encontro popular. Em suas palavras:
(…) Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. Só o Brasil. E eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isto. Eles estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras, reais, não é uma flor de estufa como poderia ser. Brasília está funcionando e vai funcionar cada vez mais. Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela. Eu fiquei satisfeito, me senti orgulhoso de ter contribuído. — Lucio Costa, 1987
O reconhecimento de Brasília enquanto Patrimônio Cultural não deve ser compreendido como ato meramente declaratório. Patrimônio é, também, um direito coletivo, e sua função é garantir que toda a sociedade possa fruir daquilo que lhe pertence. Nesse sentido, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incentiva que todos possam aproveitar da cidade tombada no que ela tem de melhor e que possam vivenciar intensamente seus amplos espaços livres, de modo democrático e diverso.
O Eixão do Lazer se tornou, pelas mãos da própria população – e, por vezes, sem a mediação do poder público – um lugar de convivência e trocas simbólicas e culturais. A cada domingo, manifestações culturais típicas do País são ali realizadas. Lá se encontra o Choro, registrado como patrimônio imaterial e brasileiríssimo de corpo e alma, lado a lado com o Jazz e o Rock, que, aliás, também é típico da Capital. Lá se encontram o artesanato e o acarajé, outro igualmente reconhecido como patrimônio de profunda raiz nacional, e também o churrasquinho e tantas outras barraquinhas de comidas, tipicamente brasileiras ou não. Lá tem a bicicleta, o quadriciclo e o skate, que recentemente trouxe alegria, orgulho e medalha olímpica ao País. Lá se encontram famílias aos milhares, ora compostas de pais e filhos, ora de filhos e pets. São sons, cheiros e sabores da diversidade que é marca indelével do Brasil.
O Iphan vem a público, portanto, manifestar sua defesa do Eixão do Lazer como espaço do Patrimônio Cultural brasiliense e brasileiro. Cabe ao poder público garantir sua permanência em parceria com a população que o criou, e não se voltar contra sua diversidade ou mesmo o impor empecilhos à sua vitalidade.
Viva a benfazeja bastilha candanga. Viva o Eixão do Lazer!
Leandro Grass
Presidente do Iphan
Thiago Perpétuo
Superintendente do Iphan no Distrito FederalCategoria
Cultura, Artes, História e Esportes
(Valter Campanato / Agência Brasil)
Tags: Distrito Federal
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