Nas luzes do Cineteatro Verônica Moreno, localizado em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal, o que se vê não é apenas a reprodução de um rito bíblico, mas um espelho da periferia. Desde 1997, a Paixão do Cristo Negro transforma o sofrimento de Jesus em uma ferramenta de denúncia social e política. O espetáculo deixa de lado a neutralidade estética para mostrar, de forma direta, as dores de uma população negra que há muito tempo é marginalizada e esquecida pelo poder público.
A proposta vai além do altar e ocupa o espaço da crítica, questionando quem são os “Cristos” crucificados diariamente nas esquinas das cidades da capital. Na última sexta-feira (3), a encenação reafirmou sua vocação ao trazer três atores negros no papel principal, incluindo, de forma provocativa, a presença de uma mulher. Essa escolha subverte a imagem tradicional e coloca o corpo feminino no centro do debate sobre o sacrifício e a dor, um manifesto contra a invisibilidade.
Para a atriz Fernanda Marinha, uma das intérpretes de Jesus, a representação feminina é uma forma de humanizar a divindade e aproximá-la dos oprimidos. “É para mostrar essa força também. Porque às vezes a gente observa que as pessoas acham que Jesus pode ser só um homem, mas Jesus está em todos esses lugares”, explicou a artista.
Feminicídio como denúncia
O momento mais impactante da montagem, segundo o público e o elenco, foi a cena do açoite, ressignificada como um protesto contra o feminicídio. Enquanto os golpes caíam, a trilha sonora e as notícias de violência doméstica se misturavam ao sofrimento da personagem feminina.
Luciana Ferreira, moradora de Samambaia, relatou o nó na garganta ao ver a encenação das chicotadas representando a morte de mulheres. “Estamos vendo que a cada dia cresce mais a questão do feminicídio e muitas pessoas acham que isso é comum, é natural”, lamentou.
O espetáculo busca quebrar essa naturalização, expondo que o corpo da mulher negra sofre as dores que a história atribui apenas ao Messias. É um teatro que não pede licença para ser político, pois entende que a arte é sobrevivência.

Wandersson Barros, um dos produtores da peça, reforça que o grupo é assumidamente político e foca nas questões sociais que a periferia enfrenta no seu cotidiano. “A gente vem resgatando e mostrando com a nossa peça tudo que a nossa sociedade tem enfrentado hoje. As mulheres com a violência doméstica e os nossos indígenas sofrendo”, pontuou. Nesse contexto, a cultura aparece como a única forma de vida de um povo que não tem voz.
Falta de apoio
A estrutura do evento, contudo, revela um outro lado da “crucificação”, o abandono institucional e a carência de financiamento público. Mesmo reconhecido por lei no Distrito Federal, a edição deste ano não contou com recursos governamentais e o grupo enfrenta obstáculos para acessar políticas públicas de incentivo à cultura, o que reforça a sensação de abandono por parte do poder público.
Letícia Lins, uma das produtoras da Paixão do Cristo Negro, não escondeu a decepção diante da falta de apoio ao projeto. “Quando fomos atrás dos deputados e tudo mais, todos eles viraram as costas. Não teve um que apoiou”, revelou sobre a ausência de verbas públicas, que impacta diretamente a continuidade e a estrutura da encenação.
De acordo com os produtores, a montagem só aconteceu graças a comunidade e a parcerias locais.
O espetáculo critica quem usa a fé para justificar opressões, denunciando o uso de Deus para esconder os interesses dos poderosos. Durante a encenação, as falas de Jesus ecoam como um chamado à justiça para aqueles que têm fome e sede de um mundo mais igual.
“Não tem como construir o reino dos céus se não for pela paz e pela justiça”, dizia o texto encenado.

Memória, luta e continuidade
O ator Maralto, que também viveu Jesus, destacou que o Sermão da Montanha serve para reafirmar para quais pessoas o espetáculo é verdadeiramente feito. “O espetáculo acredita e se conecta com a comunidade e com as situações que a gente precisa ser para tentar cada vez mais resistir”, afirmou.
A denúncia do racismo é o pilar central que dá nome ao projeto, lembrando que a pele negra continua sendo alvo da violência. O texto final da peça trouxe uma lista de mártires contemporâneos, como Marielle Franco. Cada nome citado era um lembrete de que a crucificação não terminou no Calvário, mas segue no asfalto.
“Cada um desses enterrados é um pedaço da gente que se vai. Fracassamos enquanto cidadãos quando aceitamos o extermínio de homens e mulheres pretas”, proclamava a locução. O tom crítico da peça não busca o conforto, mas o confronto com a realidade de quem é morto apenas por ser quem é. A paixão de Cristo, aqui, é a paixão de um povo que se recusa a morrer.

A força do Cristo Negro reside na capacidade de transformar o luto em luta, mobilizando jovens, crianças e idosos de Samambaia em torno de oficinas de formação. O projeto atua como um ponto de cultura oferecendo arte, consciência e cidadania. É a educação popular de Paulo Freire aplicada na prática do palco e do cotidiano periférico.
Apesar dos obstáculos, o sentimento é de continuidade, embora a incerteza sobre o futuro financeiro do projeto para o próximo ano que ainda persiste. Letícia Lins reforça que o caminho a seguir é longo e que a luta contra o feminicídio e o racismo está longe de um fim. “A gente queria que não, mas infelizmente nossa luta ainda precisa de muita força”, concluiu.
Com informações do Brasil de Fato
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