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A pergunta decisiva é outra. E se Lula ganhar?

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A extrema direita já não precisa repetir o 8 de janeiro. Pode tentar destruir a democracia por dentro

Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro nas urnas. A extrema direita brasileira, parte expressiva da alta cúpula militar e setores radicais do bolsonarismo não aceitaram o resultado. O país mergulhou numa escalada golpista que começou com a contestação fraudulenta do sistema eleitoral, passou pelos acampamentos diante dos quartéis, avançou com envolvimento das Forças Armadas numa ruptura institucional e explodiu, em 8 de janeiro de 2023, na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. 

Mais tarde, as investigações revelariam algo ainda mais grave: a tentativa de golpe não era apenas uma aventura de vândalos fantasiados de verde e amarelo. Havia planos que previam inclusive ações contra Lula, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. O golpe foi abortado. Lula tomou posse. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe e outros crimes.  

Hoje, cumpre pena em prisão domiciliar humanitária, enquanto sua família tenta preservar o espólio político do bolsonarismo. A Reuters registrou tanto a condenação quanto, posteriormente, a derrubada do veto que abriu caminho para reduzir a pena do ex-presidente. Mas a pergunta permanece. E se Lula ganhar de novo? 

O golpe mudou de método 

A extrema direita tentará repetir o golpe clássico? Tentará novamente incendiar as ruas, mobilizar quartéis, contestar as urnas, pedir intervenção militar e ganhar apoio de generais, almirantes e brigadeiros para outra aventura contra a Constituição? 

Pode até tentar. Mas não precisa. O golpe mudou de método. A extrema direita global aprendeu que já não é indispensável fechar o Congresso, dissolver a Suprema Corte, censurar jornais por decreto e instalar um general no palácio presidencial. Esse foi o modelo clássico das ditaduras latino-americanas do século XX. O método contemporâneo é mais lento, mais sofisticado e, justamente por isso, mais perigoso. 

A democracia pode ser destruída por dentro. Foi essa a advertência feita por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as democracias morrem. As democracias modernas não acabam mais sob o barulho dos tanques. Podem morrer pelas mãos de líderes eleitos, parlamentos eleitos, maiorias formais, reformas legais, intimidação do Judiciário, captura das instituições, manipulação das regras do jogo e corrosão progressiva das garantias democráticas. 

No Brasil de 2026, isso deixou de ser hipótese teórica 

A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, em 29 de abril de 2026, foi um marco. O Senado recusou o nome indicado por Lula por 42 votos a 34. Foi a primeira rejeição de um indicado ao STF em mais de um século. Não foi apenas uma derrota parlamentar do governo. Foi uma demonstração de força de um Congresso disposto a interferir diretamente na composição do Judiciário e a impor limites severos à autoridade de um presidente eleito. 

Pouco depois, o Congresso derrubou o veto de Lula ao chamado PL da Dosimetria, abrindo caminho para a redução de penas de condenados pela tentativa de golpe e pelos atos ligados ao 8 de janeiro. Na Câmara, foram 318 votos pela derrubada do veto; no Senado, 49. Até agência internacionais como Reuters, AP e Guardian trataram a decisão como uma derrota política expressiva do governo e como medida com impacto direto sobre Bolsonaro e outros condenados pelo golpismo. 

Esse é o ponto central 

A extrema direita já não precisa, necessariamente, derrubar a porta do Palácio do Planalto. Pode começar pelo Congresso. Com maioria na Câmara e no Senado, pode bloquear indicações para o STF, aliviar penas de golpistas, impedir CPIs incômodas, ameaçar ministros do Supremo, capturar a pauta legislativa, paralisar o governo eleito e transformar cada dia de mandato numa guerra de desgaste. 

É o golpe sem golpe. Não há junta militar. Não há AI-5. Não há fechamento oficial do Congresso. Não há tanques diante do Supremo. Há votações, comissões, vetos derrubados, indicações barradas, CPIs arquivadas, chantagens orçamentárias, campanhas digitais, ameaças de impeachment, criminalização permanente do governo e pressão coordenada sobre o Judiciário. 

A democracia continua existindo na fachada. Mas seu conteúdo vai sendo esvaziado. 

O filho como herdeiro do golpe 

Nesse cenário, a candidatura de Flávio Bolsonaro não pode ser tratada como simples operação familiar. Ela é a tentativa de converter o capital eleitoral de Jair Bolsonaro — condenado, inelegível e politicamente impedido de disputar — num projeto de restauração do bolsonarismo pelo voto. 

Flávio não é apenas o filho lançado no lugar do pai. É a ponte entre o bolsonarismo condenado pelo golpe e o bolsonarismo que tenta voltar ao poder pela via eleitoral. 

As pesquisas mais recentes mostram uma disputa apertada. Levantamento do Datafolha apontou Flávio com 46% e Lula com 45% num cenário de segundo turno. Pesquisa Real Time Big Data registrou Flávio com 44% e Lula com 43%. Em ambos os casos, o dado político essencial é o empate técnico entre o presidente que busca a reeleição e o herdeiro direto do bolsonarismo. É esse o quadro de maio de 2026. 

Lula preserva uma base robusta. O bolsonarismo também. O país está dividido em dois blocos quase equivalentes. A extrema direita tenta transformar a condenação de Bolsonaro em combustível eleitoral e apresentar Flávio como continuidade “normalizada” do projeto que tentou destruir a democracia depois da derrota de 2022. 

Mas a verdadeira ameaça não está apenas na hipótese de Flávio vencer. Está também na hipótese de Lula vencer. Se Flávio ganhar, a extrema direita retorna ao Planalto pelo voto. Se Lula ganhar, a extrema direita pode tentar impedir que o voto tenha consequência prática. Essa é a encruzilhada brasileira. 

Permitir a posse, impedir o mandato 

A ameaça de 2026 talvez não seja a repetição literal de 2023. Não virá com acampamentos diante dos quartéis, vidraças quebradas, relógios destruídos, gabinetes depredados e pedidos explícitos de intervenção militar.  

Pode vir com terno, gravata, regimento interno e linguagem constitucional. Pode vir em nome da “pacificação”, para anistiar golpistas. Pode vir em nome do “equilíbrio entre os Poderes”, para intimidar ministros do Supremo. Pode vir em nome da “liberdade de expressão”, para proteger máquinas de desinformação. Pode vir em nome da “responsabilidade fiscal”, para impedir que um governo eleito execute seu programa. Pode vir em nome da “vontade do Congresso”, para substituir a vontade popular expressa nas urnas. 

O novo método não precisa impedir a posse. Pode permitir a posse e impedir o mandato. Foi isso que os acontecimentos recentes começaram a revelar. A rejeição de Messias ao STF, a derrubada do veto à dosimetria e o arquivamento de investigações sensíveis, como a CPI do Banco Master, compõem uma mesma paisagem: um presidente eleito pode ser mantido formalmente no cargo e, ao mesmo tempo, ser impedido de governar. 

Esse é o perigo mais grave 

O golpe convencional produz choque imediato. O golpe por dentro produz anestesia. A sociedade vai se acostumando. Uma derrota institucional aqui. Uma chantagem parlamentar ali. Uma ameaça ao Supremo acolá. Uma campanha digital permanente. Uma mentira viralizada. Uma pauta econômica sabotada. Uma CPI enterrada. Uma indicação bloqueada. Uma maioria ocasional transformada em poder de veto permanente. 

Quando se percebe, a democracia continua com eleições, partidos, Congresso, Supremo. Mas já não governa quem venceu a eleição. 

Com Congresso, com Supremo, com Big Techs, com tudo 

A velha frase de Romero Jucá, durante o impeachment de Dilma Rousseff — “com Supremo, com tudo” — precisa ser atualizada para 2026. 

Agora, seria preciso dizer: com Congresso, com Supremo, com Big Techs, com tudo. 

A extrema direita aprendeu que a disputa pelo poder já não se dá apenas no Parlamento, nas ruas ou nos tribunais. Dá-se também nas plataformas digitais, nos algoritmos, nos grupos fechados, nas redes de influenciadores, nos disparos segmentados, nos vídeos emocionais, nas campanhas religiosas, nas bolhas de desinformação e na fabricação cotidiana de inimigos internos. 

O golpe contemporâneo não precisa de generais. Precisa de maioria parlamentar, dinheiro, mídia, tribunais pressionados e plataformas digitais sem controle democrático. 

Por isso, a eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Será uma disputa sobre a própria capacidade do Brasil de continuar sendo uma democracia funcional. Não basta vencer a eleição presidencial. 

Será necessário impedir que o resultado seja esvaziado por dentro. 

Desesperar, jamais 

Há, portanto, um recado indispensável à rede da centro-esquerda, dos progressistas, dos democratas, dos movimentos sociais, dos comunicadores independentes e da militância responsável pelos 45% que Lula sustenta, de forma persistente, em praticamente todas as pesquisas — os mesmos 45% que o bolsonarismo tenta transferir, como herança política e familiar, para Flávio Bolsonaro. 

Desesperar, jamais. A eleição não está decidida. Mas também não está perdida. O empate numérico entre Lula e o filho de Bolsonaro não deve produzir paralisia, abatimento ou sensação de derrota antecipada. Deve produzir organização, método, presença territorial, comunicação direta e consciência histórica. 

A extrema direita trabalha com medo, ódio, desinformação e sensação de inevitabilidade. Seu objetivo é convencer o país de que a volta do bolsonarismo é inexorável. Não é. 

Lula chega a 2026 carregando desgaste, sabotagens institucionais, ataques econômicos, cerco midiático e a pressão de um Congresso cada vez mais hostil. Mas chega também com algo que a extrema direita não tem: biografia, experiência, capacidade de negociação, memória popular e um projeto reconhecível de inclusão social. 

O campo democrático não pode se comportar como torcida assustada diante da máquina bolsonarista. Precisa agir como força política consciente de que a decisão será voto a voto, bairro a bairro, rede a rede, conversa a conversa. 

Os 45% de Lula não são apenas um número. São uma base social real. São trabalhadores, mulheres, jovens, negros, nordestinos, intelectuais, artistas, sindicalistas, professores, servidores públicos, pequenos empreendedores, religiosos democráticos, defensores do SUS, da universidade pública, da soberania nacional e da Constituição. 

Essa rede existe. Já derrotou Bolsonaro uma vez. Pode derrotar o bolsonarismo outra vez. 

Mas, para isso, precisa entrar em campanha sem ingenuidade e sem pânico. A extrema direita virá com tudo: mentiras em escala industrial, manipulação emocional, guerra religiosa, ataques ao STF, nostalgia autoritária, falsas denúncias de fraude, sabotagem parlamentar e tentativa de transformar Flávio Bolsonaro em candidato “normal”. 

A resposta não pode ser apenas indignação. Tem de ser política, comunicação, organização e disputa de sentido. 

Desesperar, jamais. Não há motivo para pânico. 

O momento exige exatamente o contrário: sangue-frio, unidade, coragem e ofensiva democrática. Porque, se Lula vencer de novo, não terá vencido apenas uma eleição. Terá derrotado, pela segunda vez, a tentativa de transformar o Brasil numa filial tropical da ultradireita global. 

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