Assessor especial do presidente Lula critica provocações do governo Trump e alerta para articulação da extrema-direita internacional contra o Brasil
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o Brasil continua aberto a negociações com os Estados Unidos sobre tarifas comerciais, mas não aceitará ataques ao Judiciário nem provocações políticas. A declaração foi feita em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, repercutida pelo Valor, e destacou a postura de firmeza do governo brasileiro diante de medidas recentes do presidente dos EUA, Donald Trump.
Segundo Amorim, embora “os canais não estejam fechados” para o diálogo, há dificuldades para alcançar as autoridades decisórias em Washington. O contexto é de tensão crescente: no mesmo dia, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou que a reunião marcada com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, para tratar do tarifaço, foi desmarcada sem nova data. Haddad atribuiu o cancelamento a manobras do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos EUA e estaria articulando sanções contra autoridades brasileiras — o parlamentar nega a acusação.
Críticas a Trump e à extrema-direita
Amorim avaliou que o cenário internacional atual é “o mais complexo” de sua trajetória diplomática, devido a conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio, além de disputas comerciais. Ele relacionou as medidas de Trump ao interesse de figuras como Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca, em fortalecer a extrema-direita global.
“Eu não atribuiria todo poder ao Bolsonaro. Há desejo da extrema-direita dos EUA, dirigida pelo Steve Bannon, de realmente desestabilizar o Brasil. Temos que estar cientes disso”, afirmou.
O assessor considerou “inaceitáveis” as manifestações de membros do governo americano com ameaças a autoridades brasileiras, sugerindo que possam ser calculadas para justificar uma escalada. Ao anunciar o tarifaço, Trump citou decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o processo contra Jair Bolsonaro. Desde então, oito ministros da Corte tiveram vistos suspensos, e Trump aplicou a Lei Magnitsky contra Moraes, impondo sanções financeiras.
Defesa da soberania e do comércio em moeda local
Para Amorim, a estratégia de fortalecer o comércio bilateral em moedas locais é uma resposta natural à instabilidade do sistema multilateral e não depende de vontades políticas específicas. Ele afirmou que essa visão é compartilhada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pode ser um dos motivos do desagrado de Trump.
“A aceitação do dólar como moeda de reserva está ligada a um sistema multilateral. Na medida em que esse sistema deixa de existir, é natural que os países procurem outras formas de garantir estabilidade e seu comércio.”
Conflitos internacionais e a posição do Brasil
Ao comentar sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Amorim disse acreditar que “os dois lados estão percebendo que não vão ter tudo que queriam” e considerou positiva a possível reunião de Trump com Vladimir Putin e o diálogo com Volodymyr Zelensky. Ele ressaltou, no entanto, que a resolução exigirá participação de mais países.
Sobre o conflito em Gaza, Amorim defendeu a saída do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, decisão do governo Lula, argumentando que a entidade vinha sendo usada para justificar ações militares de Israel contra a Palestina.
“Não podemos permitir que isso sirva para dificultar o que achamos ser a solução, que é o reconhecimento do Estado da Palestina. Combatemos totalmente o antissemitismo, mas não aceitamos essa manipulação.”
Com informações do brasil247
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