Diplomata alerta para risco à soja brasileira após presidente dos EUA pressionar Pequim a ampliar compras do grão norte-americano
O assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, afirmou nesta segunda-feira (11), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que o pedido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que a China quadruplicasse a importação de soja norte-americana representa “quase um estado de guerra contra o Brasil”.
Segundo Amorim, a medida ultrapassa a esfera de uma competição comercial tradicional. “Há poucos dias tive um diálogo com Wang Yi, que além de ser chanceler tem função semelhante à minha, e não vejo razão para temer que a China vá abandonar parcerias estratégicas. Mas é sempre preciso que haja diálogo e acho que essa informação revela quase um estado de guerra contra o Brasil porque não é uma coisa ganha na competição comercial. É uma coisa ganha na força, é um mundo diferente”, afirmou. O diplomata ressaltou ainda que “nos meus 63 anos ligados à diplomacia de uma forma ou de outra nunca tinha visto uma situação deste tipo, mas é o que estamos vendo agora”.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil, e a soja figura entre os principais produtos exportados ao país asiático. Uma alteração significativa nas compras poderia afetar de forma profunda a produção agropecuária nacional e ter reflexos diretos na economia. O pedido de Trump foi divulgado poucas horas antes de os EUA prorrogarem por 90 dias a trégua tarifária com Pequim, que venceria nesta segunda-feira.
Na rede social Truth Social, Trump afirmou que a China estaria preocupada com a escassez do grão e disse esperar que o aumento das compras ocorra “rapidamente”. “O atendimento será rápido. Obrigado, presidente Xi”, escreveu, referindo-se a Xi Jinping. A declaração fez com que o contrato mais negociado da soja na Bolsa de Chicago subisse 2,38%, alcançando US$ 10,11 por bushel.
Em 2024, a China importou cerca de 105 milhões de toneladas de soja, sendo menos de um quarto proveniente dos EUA e a maior parte do Brasil. Para atingir o nível sugerido por Trump, Pequim teria de redirecionar quase toda a sua demanda ao mercado norte-americano, cenário considerado “altamente improvável”.
Ainda na noite desta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) telefonou para o líder chinês. O contato, solicitado por Lula, abordou a disputa tarifária com os EUA e incluiu uma troca de impressões sobre a guerra na Ucrânia e o papel das potências emergentes na promoção da paz. “Trocamos impressões sobre a atual conjuntura internacional e os recentes esforços pela paz entre Rússia e Ucrânia. Concordamos sobre o papel do G20 e do BRICS na defesa do multilateralismo”, disse o presidente.
A relação econômica e tecnológica entre Brasil e China foi outro tema central da conversa. Lula destacou avanços em sinergias entre programas nacionais de desenvolvimento e anunciou o compromisso de ampliar a cooperação em áreas como saúde, petróleo e gás, economia digital e satélites. “Destacamos nossa disposição em continuar identificando novas oportunidades de negócios entre as duas economias”, completou.
Com informações do brasil247
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