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“Discurso cheio de mentiras de Bolsonaro na ONU não surtiu efeito”, diz The Guardian

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Espanto, incredulidade e indignação caracterizam a reação de diferentes veículos de imprensa europeus ao discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia-Geral da ONU.

“Bolsonaro tenta mostrar novo Brasil mas discurso cheio de mentiras na ONU não surtiu efeito”, diz artigo publicado no jornal The Guardian nesta terça-feira.

“Num discurso de 12 minutos, no qual o populista de extrema direita pregou medicamentos sem eficácia provada contra a Covid, denunciou as medidas de isolamento social e vendeu uma sucessão de distorções e totais mentiras sobre a política do Brasil e o meio ambiente, Bolsonaro fez pouco para reparar a destroçada reputação internacional de seu país”, avalia Tom Phillips, correspondente do jornal inglês no Brasil.

O artigo desmente diversos pontos do discurso de Bolsonaro, como sobre a ausência de “‘de um só caso concreto de corrupção durante os dois anos e oito meses (da minha presidência)’, incorretamente, esquecendo de mencionar a série de escândalos envolvendo sua família e seu governo, como na compra de vacinas contra a Covid”, aponta.

“Bolsonaro insistiu que seu governo foi campeão na vacinação contra a Covid, embora ele pessoalmente minou os esforços para imunizar os cidadãos contra a doença que matou quase 600 mil brasileiros e supostamente se recusou a receber uma dose”, afirma.

O constrangimento político de Jair Bolsonaro também foi observado na publicação. “Na segunda-feira, o prefeito de Nova Iorque Bill de Blasio e Boris Johnson (primeiro-ministro do Reino Unido) publicamente instigaram Bolsonaro a se vacinar, com de Blasio dizendo que o presidente do Brasil não deveria se incomodar em visitar a cidade sem fazê-lo”.

“Em outro ponto de seu discurso, o líder brasileiro declarou falsamente que as recentes manifestações pró-Bolsonaro no dia da independência foram as maiores da história do Brasil e pintou um mundo cor-de-rosa inverossímil da economia de seu país e de esforços de proteção ambiental”, afirma.

Indignação

Outros veículos europeus também comentaram o discurso bolsonarista.

Em Portugal, o jornal Correio da Manhã disse que “discurso de Bolsonaro na Assembleia-Geral gera indignação mundial, pelas inverdades, preconceito e ataques a entidades e outros países.”

“Especulações dos últimos dias de que Bolsonaro faria um discurso moderado tentando atenuar a péssima impressão do mundo inteiro às suas posições e ao seu governo foram substituídas pela incredulidade e pela revolta assim que o brasileiro começou a falar na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas”, diz texto de Domingos Grilo Serrinha.

“Bolsonaro iniciou o seu discurso ao ataque, afirmando que ia repor a verdade sobre o Brasil que a imprensa brasileira e mundial, segundo ele, distorcem, mostrou preconceito ao assumir-se como um presidente cristão que acredita na família tradicional, ou seja, um homem e uma mulher, deixando de fora milhões de famílias com orientações diversas, e em seguida iniciou uma série de inverdades”, relata.

“O governante brasileiro declarou que a Amazónia está praticamente intacta, negando a devastação que quase diariamente é noticiada, afirmou que os índios brasileiros vivem numa liberdade absoluta, ignorando as denúncias de invasões e ataques armados de garimpeiros e madeireiros a aldeias indígenas, responsabilizou governadores de estados e prefeitos pelo elevado desemprego no Brasil e, para espanto de todos, voltou a defender o tratamento da Covid com medicamentos rejeitados pelas entidades de saúde de todo o planeta e criticou o chamado passaporte de vacina, adotado por inúmeros países.”

“Membros de delegações de outros países na própria sede da ONU e que falaram a jornalistas sob sigilo para evitar problemas diplomáticos classificaram o discurso como ‘vergonhoso’ e uma sucessão de informações falsas sobre a realidade brasileira e os supostos êxitos do governo Bolsonaro”, relata.

O jornal espanhol El Diário disse que “o discurso tentou responder a duas das principais acusaçoes que recebe da comunidade internacional: a ausência de uma política ambiental e sua disciplicência contra o tratamento à Covid-19”.

Em entrevista publicada nesta terça-feira no jornal italiano La Repubblica, o filósofo alemão Peter Sloterdijk disse de um modo geral que “no discurso de Bolsonaro, Erdogan e Putin o homem não é mais responsável pelo impacto de suas ações”.

Considerou que “negar o aquecimento global é pueril. E os políticos que o fazem são crianças fingindo serem homens”.

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