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O “mercado” não tem medo da incerteza, mas de que se tenha um governo

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Nos jornais de hoje, várias matérias sobre a repetição de um “Efeito Lula” no descontrole da economia, como nos estertores do governo FHC,  e sobre Ciro Gomes ser “o pavor do mercado“, refletindo o que seriam os temores dos financistas com as eleições presidenciais.

O único fato que não se quer ver, claro, é que a eleição presidencial só não tem um vencedor anunciado e a garantia de que não levarão o país a aventuras – ou a um confronto entre o candidato disposto a implantar uma ditadura e a ditadura da toga já implantada – porque eles próprios a deformaram com a provável retirada de Lula da disputa eleitoral.

Todos, inclusive os mais figadais inimigos do lulismo, sabem que qual seria o resultado de urnas com Lula.

E, da mesma forma, sabem que Lula faria um governo – embora certamente mais incisivo e sem tantas ilusões “republicanas” – sem guinadas abruptas, sem mudanças abruptas e com mais diálogo – e diálogo mais confiável – com os agentes do capital.

Como antes, Lula representaria muito mais uma mudança de médio e longo prazo para o Brasil e muito menos a expectativa de que (com objetivos diferentes, fique claro) Bolsonaro e Ciro realizem, legitimados pela eleição, um governo de natureza imperial nos primeiros meses de eventuais governos seus.

Não se menciona Geraldo Alckmin ou Marina Silva, claro, porque eles são tão apetitosos quanto macarrão sem sal e sem molho ao paladar do eleitorado e, embora dóceis à vontade do mercado, apenas ocupariam a cadeira, como objetos de decoração.

Nada mais semelhante, portanto, no comportamento das elites financeiras – diferentes da classe média, que é menos ambiciosa e mais odiosa – do que a velha fábula da galinha dos ovos de ouro.

Mataram o que tanto dizem desejar, o tal “pacto social”, transcrito em Lula, na esperança de apanhar toda a dúzia e meia de ovos que lhes faíscam aos olhos: tirar direitos dos trabalhadores, roubar o pré-sal, liquidar a Previdência, encolher os gastos sociais, abocanhar o que resta das estatais e perseguir a restauração do status colonial de nosso país, reduzido a um nada no jogo das nações e, portanto,  a apenas um terreiro dos interesses internacionais.

Nos dois anos de golpe, em que puderam tudo, pouco disso foram capazes de fazer e estão a braços com os impasses de uma situação que não podem estabilizar.

Se o Brasil é, para lembrar a frase célebre de Fernando Henrique Cardoso, um transatlântico que não aceita “cavalos de pau”, também é grande demais para ficar à deriva, desgovernado como está, por falta de legitimidade política dos que ocupam a ponte de comando.

Como o ambicioso aldeão da fábula, o mercado está obcecado por seguir abrindo nossas entranhas, mas só vai encontrar tripas, porque o Brasil não é, há muito tempo, governável sem adequar-se, pouco que seja, o binômio desenvolvimento-justiça social.

Na primária compreensão desta gente, o Brasil precisa de homens de mercado, quando, por seu tamanho, carências e potenciais, precisa de homens de Estado.

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