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Bolsonaro na ONU: triste página da política externa brasileira

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Um discurso que não fugiu à expectativa. Jair Bolsonaro abriu a 74º Assembleia-Geral da Organização das nações Unidas (ONU) demarcando a posição do governo brasileiro nos estreitos parâmetros da ideologia da extrema direita.

Foto: Alan Santos/PR/Agência Brasil

 Bolsonaro, um presidente submisso à Donald Trump

Não economizou agressividade e adjetivações para atacar os inimigos preferenciais de sempre — os progressistas, democratas, patriotas e ambientalistas. O tom beligerante, de confrontação e de forte carga ideológica se distancia da tradição diplomática brasileira, bem como o caráter de alinhamento a outra potência, neste caso aos EUA.

Apesar do tom aparentemente voltado para questões internas, o discurso seguiu o manual da tendência extremista de direita nos países mais atingidos pela crise econômica global. É a conhecida prática de oferecer facilidades por meio de demagogias e violência para aniquilar os efeitos da degradação social. A velha receita de que os males do mundo decorrem das ideias civilizacionais.

A ONU possui uma inegável importância para a política externa brasileira. Nossa diplomacia teve um papel ativo no processo político-diplomático que levou ao estabelecimento da ONU, principalmente na fase final da guerra e no processo de debates da Carta de São Francisco, que criou a organização em 1945.

Seu papel de liderança na América do sul, e seu envolvimento na reta final da guerra, sendo o único país a enviar forças para atuarem no campo de batalha contra o eixo na Europa, o fizeram a ser cogitado na Conferência de Dumbarton Oaks como o Sexto Membro permanente do Conselho de Segurança da nascente entidade de nações.

Desde 1947, o Brasil, por ter sido o primeiro país a aderir a ONU, abre os debates de sua anual Assembleia Geral. Tradição inaugurada por Oswaldo Aranha, então chanceler do governo Vargas. Ao longo deste período, Ministros de Relações Exteriores e Presidentes de distintos matizes político e ideológicos fizeram uso da Tribuna.

Alguns marcaram época, como o do Chanceler embaixador João Augusto de Araújo Castro, que na abertura da da 18º Assembleia-Geral das Nações Unidos, em 1963 defendeu o famoso postulado dos três ‘D’, “Desarmamento, desenvolvimento e descolonização”, como caminhos para a promoção da paz.

Em 1982, já no fim do regime militar, o presidente João Figueiredo colocou luz sobre a crise da dívida externa enfrentada na época pelos países em desenvolvimento. Restabelecida a democracia no Brasil, José Sarney condenou a política do apartheid na África do Sul e defendeu a política de descolonização.

A fala de Bolsonaro na ONU apequena o Brasil. Pode-se dizer que o presidente mais uma vez aviltou a Constituição. Nesse micromundo bolsonarista não cabe, também, a prioridade aos interesses econômicos do país. Nenhuma palavra foi pronunciada sobre a gravidade da crise, que deveria ser apresentada como o item prioritário numa assembleia em que esse tema caberia como uma luva.

Perdeu a oportunidade de exigir, além das responsabilidades de quem de direito, um intercâmbio comercial menos injusto. Cobrar dos líderes mundiais que o espaço do Brasil no cenário econômico e político seja levado em conta nos processos que definem a dinâmica econômica mundial. Bolsonaro se comportou como se o Brasil não tivesse nada com isso e que seus destinos estão bem definidos pelos que se alinham com sua ideologia, em especial o poderoso chefão da casa Branca, Donald Trump.

Bolsonaro escreveu hoje uma triste pagina da política externa brasileira. O presidente, ao colocar carga em um discurso ideológico, de confrontação e de alinhamento à agenda e interesses de terceiros, em direção contraria aos interesses nacionais. Sem uma política externa independente não há projeto nacional autônomo.

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