
Quando o STF aceitou a denúncia contra três generais e um almirante por articular a tentativa de golpe de 2022, ele ajudou a colocar um fim no 31 de março de 1964, dia que durou mais do que os 21 anos da ditadura. Pois a impunidade dos artífices, comandantes e torturadores daquele golpe ajudou a semear a tentativa de 2022, que contou com a participação de militares de alta patente.
Julgar estrelados é tão ou mais importante quanto um ex-presidente que se negou a aceitar o resultado da eleição.
O ex-ministro da Casa Civil e da Defesa, general Walter Braga Netto, o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o ex-ministro da Defesa general Paulo Sérgio Nogueira e o ex-comandante da Marinha almirante Almir Garnier estavam na primeira leva de denunciados que se tornaram réus por golpe. Mas há mais generais na fila.
O passado não resolvido sempre volta. Entrincheirado em bons cargos na Esplanada dos Ministérios, camuflado para fugir da Reforma da Previdência, carregado de benefícios de compras públicas de Viagra e próteses penianas superfaturadas, marchando com a mentira de que representa um poder moderador, defendendo a pensão especial para filhas solteiras.
Sim, não é que Bolsonaro perverteu pobres generais estrelados. Setores militares estavam com ele desde antes mesmo de seu governo em busca de privilégios, de dinheiro, de poder. O ex-presidente não criou o golpismo militar. Ele sempre esteve aí, inclusive Jair Messias foi nele forjado. Ele só deu à extrema direita organização e sentido através de sua eleição em 2018, inclusive nas Forças Armadas.

Nunca curamos as feridas deixadas por 21 anos de ditadura. Tapamos com um curativo mal feito, ao qual chamamos de anistia, que garantiu impunidade a crimes cometidos pelo Estado. Essas feridas continuam fedendo, apesar dos esforços estéticos.
Sabe por que é importante relembrar os 61 anos do golpe de 1964? Porque ele continua vivo não apenas nos militares que insistem em melar eleições, mas também na tortura pelas mãos de policiais nas periferias, herdeiros dos métodos e técnicas desenvolvidos na repressão.
Temos lidado com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. E o impacto de não entendermos, refletirmos, discutirmos e resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia, com parte do Estado aterrorizando e reprimindo parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).
A despeito da importância das Forças Armadas para o país e de militares democratas que fizeram resistência à tentativa de golpe, há uma dúvida que deveria afligir mais a jovem democracia brasileira: se a oportunidade que estivesse diante da cúpula militar não fosse a conspiração tosca de Jair, mas algo mais bem costurado, com suporte internacional (imagine se Donald Trump tivesse sido reeleito em 2020) e de setores importantes aqui dentro, ela entraria de cabeça no golpe?
Que o Supremo Tribunal Federal reconsidere e afirme que crimes contra a humanidade, como a tortura, não podem ser anistiados, nunca.
Que a história das mortes sob responsabilidade da ditadura seja conhecida e contada nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada, mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.
Que militares fardados fiquem na caserna, deixando a política para civis, seguindo a proposta que tramita no Congresso Nacional e que essa interpretação manipuladora de poder moderador seja enterrada de vez.
Que o Brasil possa, finalmente, enterrar o ano de 1964. Porque ele ainda está aqui.
Com informações do Diário do Centro do Mundo
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