O golpe, ontem e hoje, e o esquecimento calculado

Eliara Santana: ‘O esquecimento calculado nos rouba a voz coletiva e nos mata aos poucos. Por isso, precisamos lembrar, para que nunca mais aconteça’. À esquerda, trecho do filme que mostra formatura de grupo militar composto por indígenas treinados para torturar presos  (reprodução). À direita, 8 de janeiro de 2023: golpistas invadiram o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional. Fotos: Reprodução de vídeo e Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para 63% dos brasileiros, a data do golpe militar de 1964, que implantou uma ditadura violenta de 21 anos, deve ser esquecida.

Os dados são da recente pesquisa Datafolha. Não quero discutir aqui a decisão do Governo Lula de proibir qualquer ato oficial relativo à data.

Entendo que houve acordos e até entendo a necessidade deles diante da ameaça constante contra a democracia. Nós não vencemos a guerra. Vencemos uma batalha bem difícil, e estamos todos estripados, daí os acordos.

Portanto, quero discutir neste 31 de março de 2024, 60 anos do golpe militar, um tema muito sensível e que tem despertado minha atenção cada vez mais: o esquecimento calculado.

“Conceito” que estou elaborando a partir de um olhar atento para várias questões, o esquecimento calculado é tanto conveniente quanto programado.

E com essa percepção, quero discutir também nesta data a falta de memória que marca a vida nacional – o que revelam os dados da pesquisa.

Somos um país desmemoriado, não temos uma memória cultivada: esquecemos datas, feitos, atores, acontecimentos.

E esse esquecimento, amigos, nada tem de aleatório — a memória, como o amor, é algo construído e cultivado — e aqui, a ideia de cultivar é muito importante.

Portanto, a ausência calculada do ato de lembrar — com um certo desprezo calculado por tudo o que passou, por tudo o que vivemos, por tudo de bom e de ruim que as pessoas fizeram — é uma estratégia de certos grupos e certas pessoas.

Do ponto de vista pessoal, esquecer o que aconteceu e o que fizeram conosco vem muito a calhar.

Se fizeram coisas ruins, bola pra frente; mas se fizeram coisas boas e queremos mudar de lado ou arranjar novos parceiros, esquecer é muito conveniente.

Do ponto de vista político-nacional, o esquecimento é estratégico para os grupos dominantes — e cultivar o esquecimento é uma ação que se oculta sob o véu da máxima “o que passou passou”. Mas não passou, não passa.

A tortura não passa, a dor de perder alguém amado não passa, o silenciamento não passa, a falta de reconhecimento não passa, as puxadas de tapete não passam, a traição não passa, a ausência de um corpo da pessoa amada para enterrar não passa.

Nada disso passa, fica sempre ali, latente. Uma memória nacional apagada e silenciada — um não dizer permanente, mesmo em governos democráticos. E seguimos como se nada tivesse havido. Ou fingindo que nada houve.



Eu gosto de lembrar, gosto de cultivar a memória, gosto de revisitar os acontecimentos — isso me faz entender muitas coisas e muitas ações. Lembro-me de acontecimentos bons e ruins, de coisas boas e ruins que pessoas importantes para mim me fizeram. Isso também ajuda a pensar sobre o futuro.

Do ponto de vista de uma Nação, eu diria que é bem semelhante. Se nós não cultivamos o ato de lembrar, se nós varremos parte da vida nacional para debaixo do tapete, não vamos conseguir pensar o futuro de modo íntegro.

A ditadura que se instalou com o golpe de 1964 matou, torturou, roubou sonhos, levou embora um projeto nacional e é também responsável pela eclosão do bolsonarismo.

Toda a estrutura militar corrupta, que se apropriou do Estado e se enriqueceu, formando uma casta na qual não se mexe — com familiares que seguem se beneficiando muito de tudo isso — é incompatível com a democracia.

Essa casta segue dominando — basta ver as milícias e as polícias e os generais golpistas.

Portanto, o esquecimento é muito conveniente para também manter intactos os privilégios.

O Brasil deveria ter um grande museu da tortura, um grande museu pra lembrar que ditadura mata e destrói, que a tortura não é aceitável, que regimes totalitários não são benéficos. Mas não temos nada assim. E vamos assistindo à casta militar tramar golpes e se safar.

Centenas e centenas de famílias não enterraram seus mortos na ditadura. Mães não encontraram nunca mais seus filhos.

Isso é resultado da ditadura, isso tem de ser dito e mostrado — vivemos numa sociedade midiatizada.

Hoje, as polícias matam e ainda torturam — isso é legado do golpe de 1964, tem de ser mostrado e dito.

O bolsonarismo como se articulou no Brasil é fruto da ditadura e do esquecimento calculado — que é muito conveniente para os dominantes e poderosos.

Precisamos nos lembrar do 31 de março de 1964 e de todas as suas consequências, pois ainda choram Marias e Clarices e nossa Pátria mãe, tão distraída, segue sendo subtraída em tenebrosas transações que golpeiam a democracia.

O esquecimento calculado nos rouba a voz coletiva e nos mata aos poucos. Por isso, precisamos lembrar, para que nunca mais aconteça.

Com informações do VioMundo

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