O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) apresentou representação recomendando a abertura de processo para identificar autoridades públicas federais que teriam participado de eventos privados promovidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, em Trancoso, no litoral da Bahia. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
De acordo com o documento, datado de 29 de janeiro deste ano, “esses eventos, denominados Cine Trancoso, teriam contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico”.
A representação cita reportagens que abordaram festas realizadas na casa de veraneio utilizada por Vorcaro em Trancoso entre 2021 e 2022. O imóvel pertencia à empresária Sandra Habib, mulher de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil. Posteriormente, a propriedade foi adquirida por empresas ligadas ao banqueiro, e a negociação passou a integrar um processo judicial que descreve conflitos ocorridos quando ele ainda era locatário
Mensagens de WhatsApp anexadas ao processo mostram a reação da antiga proprietária diante de festas realizadas no local. Em uma delas, Sandra afirma: “O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”.
Segundo os relatos, o número de convidados teria ultrapassado o limite contratual de 20 pessoas, chegando a mais de 30 presentes na véspera do aniversário do banqueiro, em outubro de 2022. Também houve queixas relacionadas à contratação de grupo de pagode, som elevado e acionamento de autoridades locais.
Encontros semelhantes não teriam se restringido à Bahia. Eventos teriam ocorrido em outras cidades do Brasil e no exterior, incluindo reuniões paralelas a compromissos oficiais frequentados por autoridades e empresários. Um dos episódios mais comentados teria ocorrido durante a chamada Semana do Brasil, em Nova York, tradicional encontro anual de lideranças políticas e empresariais.
A celebração promovida por Vorcaro teria sido um “after”, termo usado para designar eventos realizados após a programação formal. Outro encontro citado por interlocutores teria acontecido em paralelo ao Fórum Jurídico de Lisboa, em Portugal, conhecido informalmente como Gilmarpalooza, em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, idealizador do seminário.
Relatos ouvidos pela reportagem indicam que, nessas ocasiões, a estrutura era descrita como sofisticada, com cardápios que incluíam caviar, vinhos de alto valor e uísques raros. Também há menções à presença de mulheres estrangeiras convidadas para recepcionar participantes. Segundo as narrativas, não era permitida a entrada com celulares.
A defesa de Vorcaro rebate as acusações. Em nota enviada à reportagem, os advogados afirmam que “repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”.
O texto acrescenta ainda que “as afirmações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos e reproduzem versões descontextualizadas, já anteriormente apontadas à imprensa como parte de tentativa de extorsão e de constrangimento público”.
A defesa sustenta também que “a divulgação de conteúdos carregados de juízo moral, dissociados de qualquer relevância jurídica, contribui apenas para a criação de ilações e para a indevida invasão da esfera privada, reforçando um ambiente de pré-julgamento incompatível com o devido processo legal, com o porte deste veículo de imprensa e com os jornalistas envolvidos. A defesa, que não teve acesso a nenhum documento até agora, entende que esse tipo de abordagem integra um movimento mais amplo de difamação, voltado à tentativa de influenciar a percepção pública antes da conclusão das apurações”.
A eventual abertura de processo no TCU poderá ampliar o alcance institucional das apurações, ao buscar identificar se houve participação de agentes públicos federais e se há implicações administrativas ou éticas decorrentes da presença em eventos privados financiados por empresário com interesses no sistema financeiro nacional.
Com informações do Brasil247
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