A 90 dias da eleição, direita rachada favorece Lula, que sofre pressão de tarifaço

Pressionado por escândalo do Master e ameaça de tarifaço dos EUA, Lula lidera as pesquisas eleitorais a três meses do pleito

Faltando exatamente três meses para as eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que buscará a reeleição, chega às vésperas da campanha na liderança das pesquisas eleitorais, mas pressionado pelo escândalo do Banco Master, que atingiu o entorno do Palácio do Planalto nas últimas semanas, e pela ameaça de um novo tarifaço dos Estados Unidos.

Nesta semana, que foi a última antes do defeso eleitoral — período em que agentes e órgãos públicos ficam sujeitos a regras específicas sobre publicidade institucional —, o presidente intensificou a agenda para entregar ações e participar de inaugurações. Na sexta-feira (3/7), o petista promoveu um evento de anúncios simultâneos em 12 cidades, com participação de ministros, secretários e outras autoridades.

Do outro lado da disputa eleitoral, o principal opositor de Lula esteve envolto em um dos maiores rachas na direita nos últimos anos — com o rompimento oficial entre o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).

A crise na família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) veio à tona na semana passada, quando Michelle publicou vídeos nas redes sociais afirmando ter sido humilhada, desrespeitada e maltratada por Flávio durante uma conversa telefônica.

O pano de fundo é a articulação do PL no Ceará. Michelle se opõe à aproximação da sigla com Ciro Gomes (PSDB), pré-candidato ao governo do estado, e defende o apoio a nomes mais alinhados ao bolsonarismo, como Eduardo Girão (Novo-CE).

Publicamente, Flávio tem tentado conter o desgaste desde a divulgação dos vídeos. Em manifestação nas redes sociais horas depois da publicação, o senador negou ter desrespeitado a madrasta e afirmou que jamais a trataria dessa forma.

Nos bastidores, porém, pessoas próximas à família Bolsonaro relatam que a relação entre Michelle e os filhos do ex-presidente é marcada por atritos há anos.

Integrantes do entorno bolsonarista afirmam que o desgaste se intensificou após a primeira prisão de Jair, em agosto de 2025, e ganhou novo impulso em dezembro, quando Flávio foi anunciado como herdeiro político do pai e pré-candidato do grupo ao Palácio do Planalto. Desde então, os desentendimentos e as trocas de “indiretas” entre Michelle e os filhos do ex-presidente tornaram-se frequentes.

O conflito, no entanto, agravou-se ao longo dos últimos dias, culminando na saída da ex-primeira-dama da presidência do PL Mulher. A candidatura dela ao Senado também dá sinais de enfraquecimento. Na última quinta-feira (2/7), o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que Michelle não deve disputar uma vaga pelo Distrito Federal. A desistência, porém, ainda não foi formalizada.

Como mostrou o Metrópoles, na coluna de Igor Gadelha, as movimentações de Michelle reforçam a percepção crescente entre aliados e adversários de que ela projeta o futuro político para além de uma candidatura ao Senado. A avaliação é de que o objetivo dela seria disputar o Palácio do Planalto, mais cedo ou mais tarde — não necessariamente nesta eleição.

Enquanto a crise se intensifica na oposição, Lula segue liderando as intenções de voto, embora a expectativa seja de que o pleito deste ano volte a ser marcado por forte polarização, como ocorreu em 2022.

De acordo com pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada na quarta-feira (1º/7), o presidente registra 46,3% das intenções de voto, enquanto o senador soma 36,6% em um cenário de primeiro turno. No segundo turno, Lula aparece com 48,8%, contra 42,3% de Flávio. Em abril, ambos tinham 48%, o que indica que o parlamentar perdeu 5,7 pontos percentuais.

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Caso Master se aproxima do Planalto

  • Após revelações que indicaram ligação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com  o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e com Flávio Bolsonaro, o escândalo de fraudes bancárias envolvendo a instituição passou a atingir o entorno do presidente Lula no último mês.
  • O então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), foi alvo, no último dia 18, de uma operação da Polícia Federal (PF) que investiga irregularidades relacionadas ao banco. A apuração se baseia em suspeitas de que o senador teria recebido “vantagens econômicas” para atuar em favor do Banco Master no Congresso.
  • Entre os repasses apontados pelos investigadores estão um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões, em Salvador, além de transferências que somariam R$ 3,5 milhões a pessoas ligadas ao parlamentar.
  • Embora negue ter atuado em favor da instituição, integrantes do governo avaliaram que o afastamento de Jaques Wagner da liderança seria a medida mais adequada para reduzir o desgaste político e conter possíveis impactos eleitorais. No lugar dele, foi nomeada a senadora Teresa Leitão (PT-PE).
  • Segundo levantamento da AtlasIntel/Bloomberg divulgado na quinta-feira (2/7), 37,6% dos eleitores brasileiros acreditam que aliados de Lula estão mais envolvidos no caso Master. O percentual configura empate técnico com os 36% que atribuem o escândalo a aliados de Jair Bolsonaro. Para 17,1%, todos os grupos políticos estão igualmente implicados.

Ameaça de novo tarifaço dos EUA

A possível imposição de uma tarifa de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros tem se transformado em uma disputa de narrativas entre Flávio e Lula e deve ter impacto na eleição deste ano.

Enquanto o governo brasileiro busca alternativas para negociar e evitar a taxação, o senador enviou um ofício ao governo norte-americano pedindo a suspensão da medida, sob o argumento de que a tarifa poderia favorecer Lula eleitoralmente.

“As tarifas propostas entregariam ao atual governo brasileiro precisamente a vitória política que ele vem arquitetando, ao mesmo tempo que prejudicariam a economia americana e os próprios brasileiros, que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, escreveu. O parlamentar solicita que o governo Trump suspenda a aplicação de sobretaxas ao menos até a realização das eleições presidenciais no Brasil.

Em junho, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) recomendou a imposição da taxa de 25% com base em práticas consideradas desleais, após concluir investigação contra o Brasil respaldada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

O governo Lula atribui a ameaça de taxação à atuação de Flávio e de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A avaliação no Planalto é de que os argumentos para a sobretaxa carecem de fundamentação e têm caráter político. Em documento enviado ao USTR, o Itamaraty afirma que a investigação mistura divergências políticas com “temas internos e domésticos do Brasil” para sustentar que “o comércio dos EUA é prejudicado ou restringido”.

Negociações

Como mostrou o Metrópoles, na quinta-feira (2/7), o governo brasileiro apresentou à equipe econômica de Donald Trump um “mapa do caminho” com alternativas de compensação para evitar a imposição do novo tarifaço.

Até esta fase das negociações, as autoridades norte-americanas ainda não haviam esclarecido quais pontos poderiam ser discutidos em troca de uma eventual suspensão das tarifas. Diante disso, o governo brasileiro elaborou uma proposta que prevê o reforço de mecanismos de controle em áreas questionadas pelos Estados Unidos com base na Seção 301 — comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

O documento propõe ampliar medidas já implementadas para demonstrar que os temas investigados não distorcem o comércio norte-americano, buscando assegurar que essas áreas continuarão sem impactos negativos para a economia dos EUA.

O governo brasileiro também sinaliza disposição para adotar medidas adicionais em cada uma das seis áreas investigadas, algumas das quais já estavam em desenvolvimento. O Pix, no entanto, segundo integrantes do governo, é considerado inegociável e não integra o documento.

Com essas propostas, o Brasil tenta evitar que a gestão Trump alegue falta de engajamento nas negociações como justificativa para a aplicação da tarifa.

Apesar de o “mapa do caminho” ter sido bem recebido pela equipe norte-americana, de acordo com fontes envolvidas nas negociações, auxiliares do governo brasileiro avaliam que a alíquota ainda deve ser implementada.

O governo estadunidense tem até 15 de julho para decidir se adotará ou não a recomendação do USTR de aplicar a sobretaxa sobre produtos brasileiros. Técnicos dos dois países devem se reunir novamente no início da próxima semana, em preparação para um encontro de alto nível antes do prazo final.

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