Mais etanol na gasolina levanta dúvidas sobre real rendimento dos carros

Proposta de elevar o percentual obrigatório de etanol para 32% busca reduzir importações de gasolina e fortalecer a produção nacional, mas especialistas alertam para os efeitos no rendimento dos automóveis

A possibilidade de o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovar o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32%, conhecida como E32, voltou a colocar em pauta os impactos da política de combustíveis sobre a economia e o bolso dos brasileiros. A expectativa em torno da medida já influencia as negociações do setor, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

A proposta faz parte da estratégia do governo para ampliar o consumo de etanol produzido no país e diminuir a dependência da gasolina importada. Conforme explica o especialista em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Fabrício Tonegutti, a estimativa oficial é que a mudança reduza em aproximadamente 500 milhões de litros por mês a necessidade de importação do combustível.

Segundo ele, o aumento da participação do etanol pode representar ganhos para a cadeia produtiva nacional, especialmente para o setor sucroenergético e parte do agronegócio, ao estimular a demanda pelo biocombustível e fortalecer a segurança energética do país.

Por outro lado, Tonegutti afirma que a principal preocupação do consumidor está nos efeitos práticos da mudança. “A pergunta é outra: isso vai baratear de verdade ou só vai fazer o carro render menos?”, observa.

Atualmente, a gasolina comercializada no Brasil contém 30% de etanol (E30). O percentual passou a ser permitido após a sanção da Lei do Combustível do Futuro, em 2024, que elevou para 35% o limite máximo da mistura obrigatória. Antes da adoção do E30, o governo realizou uma série de testes ao longo de 2025 para comprovar a viabilidade técnica da alteração. Para a proposta do E32, entretanto, essa etapa não será repetida.

Na avaliação do especialista, embora não seja possível afirmar que haverá danos generalizados aos motores, também não se pode descartar impactos em determinados veículos. “O aumento da quantidade de etanol reduz o poder energético do combustível. Isso significa que, em alguns casos, o veículo poderá percorrer uma distância menor com a mesma quantidade de gasolina”, explica.

Ele acrescenta que motocicletas, automóveis mais antigos, modelos importados e veículos que não foram desenvolvidos para operar com uma concentração maior de etanol tendem a exigir maior atenção dos proprietários.

Diante desse cenário, Tonegutti recomenda que a análise do consumidor vá além do preço exibido nas bombas. Para ele, o indicador mais importante será o custo por quilômetro rodado, já que uma eventual redução no valor do litro pode ser compensada por um consumo maior de combustível.

Ao avaliar o cenário econômico, o especialista destaca que fatores como o início da queda da taxa Selic e a redução do preço do petróleo podem contribuir para aliviar os custos ao consumidor. Ainda assim, ele ressalta que os benefícios só serão percebidos caso esses movimentos resultem em crédito mais barato, combustíveis com melhor relação entre preço e rendimento e inflação mais controlada. “A grande pergunta é: vai sobrar mais dinheiro no fim do mês ou não? Porque, para o consumidor, no final, é isso que importa”, conclui.

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