Ceilândia em Alerta — O deputado federal eleito pelo Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), afirmou que a reeleição de Celina Leão (PP) ao Governo do DF dificulta a construção de uma solução para a crise do Banco de Brasília (BRB). Em entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no podcast Galo Preto, transmitida na terça-feira (3), o ex-governador também avaliou o desempenho do PT nas eleições de 2026, defendeu mudanças na comunicação da esquerda e apresentou propostas para o próximo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agnelo foi um dos oito representantes do Distrito Federal eleitos para a Câmara dos Deputados, conforme resultado da disputa proporcional.
Durante a conversa, Fortes questionou por que o escândalo envolvendo o Banco Master e o BRB não foi suficiente para favorecer a candidatura de Leandro Grass (PT) ao governo do Distrito Federal. Na avaliação de Agnelo, Celina conseguiu construir uma narrativa que a afastou politicamente da gestão de Ibaneis Rocha (MDB), apesar de ter ocupado o cargo de vice-governadora e assumido o comando do Executivo em diferentes ocasiões.
O petista afirmou que a atual governadora teve participação na administração anterior e lembrou que parlamentares de seu partido apoiaram a operação de compra do Banco Master pelo BRB. Também relacionou o PP, legenda de Celina, às articulações políticas que envolveram a negociação.
Para Agnelo, a estratégia de separar a imagem da governadora da gestão de Ibaneis funcionou eleitoralmente. Ele avaliou, porém, que os problemas do governo anterior, especialmente na área financeira e nos serviços públicos, continuam associados ao grupo político que venceu as eleições.
Crise do BRB e preocupação com o patrimônio público
A situação do Banco de Brasília foi um dos principais assuntos da entrevista. Agnelo classificou o episódio envolvendo o BRB e o Banco Master como um dos maiores escândalos financeiros do país e afirmou que o prejuízo pode ultrapassar R$ 20 bilhões. Os valores e as acusações mencionados pelo ex-governador foram apresentados por ele durante a conversa.
O parlamentar eleito disse que a população do Distrito Federal não pode ser responsabilizada pelo prejuízo decorrente das operações investigadas. Segundo ele, uma eventual transferência da dívida para o poder público poderia comprometer investimentos, concursos, contratações e a qualidade dos serviços oferecidos à população.
Agnelo também afirmou que a eleição de Celina Leão dificulta a busca por uma solução institucional para o banco. Na avaliação dele, uma mudança de governo poderia facilitar o diálogo com o Banco Central, o Ministério da Fazenda e o governo federal.
Apesar disso, declarou que pretende trabalhar para encontrar alternativas que permitam preservar o BRB e evitar que a população tenha de arcar com os prejuízos. O ex-governador já havia criticado a condução do banco durante a gestão anterior, em entrevista na qual afirmou que o patrimônio da instituição havia sido colocado em risco. A crise também foi abordada em reportagem sobre as dificuldades financeiras do BRB.
Derrota de Leandro Grass e avaliação da campanha do PT
Ao analisar o resultado eleitoral no Distrito Federal, Agnelo reconheceu que a campanha de Leandro Grass poderia ter adotado uma estratégia mais incisiva para contestar a associação da candidatura de Celina Leão com o governo Ibaneis.
Ele considerou positiva a construção de alianças no segundo turno, mas classificou como um erro a ausência de uma composição mais ampla entre os partidos do campo progressista já na primeira etapa da disputa. Na avaliação do petista, uma candidatura unificada poderia ter transmitido uma mensagem mais forte de mudança política no Distrito Federal.
Agnelo destacou que Grass alcançou aproximadamente 42% dos votos e afirmou que o resultado demonstrou crescimento da candidatura. Também mencionou o desempenho de Lula no DF, que, segundo ele, chegou a cerca de 45%.
O ex-governador avaliou que a campanha precisava ter apresentado de maneira mais contundente as críticas à administração anterior e à participação de Celina na gestão. Para ele, a oposição não conseguiu fazer com que essas questões tivessem o peso esperado na decisão dos eleitores.
Comunicação e participação popular
Outro ponto central da entrevista foi a necessidade de o PT modernizar sua estratégia de comunicação. Agnelo reconheceu que a direita avançou na utilização das redes sociais e na construção de narrativas políticas, enquanto os setores progressistas tiveram dificuldades para acompanhar esse movimento.
Ao comentar a atuação do deputado André Janones durante a campanha de Lula, Agnelo afirmou que a experiência demonstrou a importância de estabelecer uma comunicação direta com a população, utilizando ferramentas digitais em larga escala.
Segundo ele, o governo e os partidos de esquerda precisam compreender que as formas tradicionais de comunicação já não são suficientes para disputar a opinião pública.
O parlamentar também defendeu que o próximo governo Lula amplie os mecanismos de participação popular. Entre as alternativas citadas estão consultas públicas, plebiscitos e canais permanentes de diálogo com a sociedade.
Na avaliação de Agnelo, a população demonstrou nas eleições que deseja participar mais diretamente das decisões políticas, e não apenas acompanhar acordos feitos pelas cúpulas partidárias e parlamentares.
Juros, creches e mudanças econômicas
Na discussão sobre a política econômica, Agnelo declarou apoio às propostas do economista André Lara Resende relacionadas à redução dos juros. Ele criticou o peso do pagamento de encargos da dívida pública e afirmou que as taxas elevadas prejudicam os investimentos produtivos e limitam a capacidade do Estado de ampliar políticas sociais.
O ex-governador também defendeu a aceleração de programas de construção de creches públicas. Para ele, a expansão dessas unidades precisa ocorrer em ritmo maior, acompanhada de recursos para manutenção, pagamento de profissionais e funcionamento adequado.
Agnelo argumentou que a oferta de creches beneficia toda a estrutura familiar, pois garante alimentação e proteção às crianças e permite que mães tenham melhores condições de trabalhar e conquistar autonomia financeira.
Ele ainda defendeu mudanças estruturais em áreas como reforma agrária, defesa nacional e política de empresas públicas. Sobre as Forças Armadas, afirmou que o país precisa modernizar a formação dos militares, afastando a concepção de inimigo interno e reforçando o cumprimento da missão constitucional das instituições.
Congresso conservador e mobilização nas ruas
Agnelo reconheceu que o próximo governo enfrentará dificuldades no Congresso Nacional, que, segundo ele, terá uma composição ainda mais conservadora. Para superar os obstáculos, defendeu a articulação política, mas afirmou que a mobilização popular será fundamental para aprovar propostas de interesse dos trabalhadores.
Como exemplo, citou a mobilização em torno do fim da escala de trabalho 6×1 e afirmou que a pressão da sociedade pode influenciar o comportamento dos parlamentares, inclusive daqueles que inicialmente resistem a determinadas propostas.
O deputado eleito também defendeu mudanças na relação entre o governo federal e os partidos que integram a base aliada. Na avaliação dele, não basta que uma legenda ocupe ministérios: os partidos que participam da administração precisam assumir compromissos com o programa de governo e demonstrar alinhamento nas votações do Congresso.
Ao tratar do futuro do PT, Agnelo afirmou que a legenda precisa passar por um processo de renovação e abrir mais espaço para a juventude. Ele destacou que as transformações nas relações de trabalho, nas tecnologias e nos meios de comunicação exigem uma atualização das estratégias partidárias.
Para o ex-governador, a esquerda precisa preservar suas bandeiras históricas, como a defesa da democracia, da soberania nacional e da redução das desigualdades, mas também se preparar para uma nova realidade política e social.
A entrevista terminou com a discussão sobre os desafios do PT e dos partidos progressistas para o período posterior ao governo Lula. Agnelo defendeu que a renovação geracional seja parte da preparação da esquerda para os próximos anos.
Fonte: Galo Preto – YouTube



