Aos 40, Nathalia Dill celebra diversificação de formatos e complexidade da atuação

Com 18 de carreira na televisão, atriz carioca consolida maturidade artística com personagens radicalmente diferentes e abraça a liberdade de experimentar novos caminhos de atuação, como a sobrenatural Francesca de “Quem ama cuida”

Aos 40 anos e vivendo um dos momentos mais versáteis da carreira, Nathalia Dill atravessa simultaneamente tempos, gêneros e formatos. Na tevê aberta, ela desperta a curiosidade do público como a enigmática Francesca de Quem ama cuida, personagem que parece existir entre o real e o imaginário e que movimenta diariamente as redes sociais. No streaming, emocionou ao interpretar Valiana em Guerreiros do Sol, mulher que enfrenta um câncer de mama nos anos 1920. Enquanto isso, reprises de Paraíso (2009), Avenida Brasil (2012) e Rock story (2016) fazem o público revisitar diferentes fases de sua trajetória. Em comum entre todas essas versões de si mesma está a disposição para experimentar.

No centro das conversas está Francesca, talvez a personagem mais intrigante da atual temporada da teledramaturgia. Durante semanas, o público debateu se ela seria um fantasma, uma alucinação ou uma mulher de carne e osso que se aproximou de Otoniel, personagem de Tony Ramos, cheia de mistério. Para a atriz, a grande força da personagem está justamente em alimentar perguntas em vez de oferecer respostas. “Construí-la exige confiar muito no texto e na direção, porque é preciso sustentar esse mistério sem antecipar respostas. Independentemente do que ela representa na trama, existe uma verdade emocional que guia cada cena”, explica a mãe de Eva, de 5 anos.

Essa construção é resultado de uma combinação cuidadosa entre roteiro e direção. Sob o comando artístico de Amora Mautner, Francesca quase sempre aparece isolada dos demais personagens, acompanhada até de uma trilha sonora própria, reforçando a sensação de que pertence a outra dimensão. A atriz conta que seu trabalho é baseado na contenção: “Muitas vezes, o silêncio, o olhar e a presença dizem mais do que uma explicação. Nesse momento, meu trabalho não é mostrar as respostas, mas mostrar as perguntas certas que precisam ser feitas”.

Na produção assinada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, ao lado de Nathalia em cena, está um dos maiores nomes da televisão brasileira. Contracenar com Tony Ramos, diz, tornou o processo ainda mais rico. “O Tony é um ator extraordinário e extremamente generoso. Ele chega muito preparado, mas também muito disponível para o jogo da cena. Nos bastidores existe muito diálogo, escuta e confiança”, elogia.

Nathália Dill e Tony Ramos: mistério sobrenatural em Quem ama cuida
Nathália Dill e Tony Ramos: mistério sobrenatural em Quem ama cuida(foto: Globo/Divulgação)

Realidade histórica

Se em Quem ama cuida o mistério conduz a narrativa, em Guerreiros do Sol, do Globoplay, a emoção nasce da realidade histórica. Valiana enfrenta um diagnóstico de câncer de mama em uma época em que praticamente não existiam informações ou tratamentos eficazes para a doença. Para compreender o tamanho desse desamparo, Nathalia encontrou uma ponte inesperada com os dias atuais. “A analogia com a pandemia me ajudou justamente a acessar essa sensação de medo diante do invisível e do incerto”, afirma a atriz.

Além da pesquisa histórica, ela buscou relatos de mulheres que enfrentaram situações semelhantes para construir uma personagem marcada pela dignidade. A história também lança luz sobre uma ferida que atravessa gerações: o abandono feminino diante da doença. “A obra de época tem essa potência de nos fazer perceber o quanto avançamos e, ao mesmo tempo, o quanto algumas questões permanecem. Quando olhamos para uma história ambientada há 100 anos e nos reconhecemos nela, somos convidados a refletir sobre o presente”, reflete. Da personagem, Nathalia diz ter aprendido uma definição diferente de força. “A Valiana me ensinou que resiliência não significa ausência de dor. Ela sente medo, sofre, vacila, mas continua caminhando”, observa.

Poucos atores vivem hoje a experiência de transitar, ao mesmo tempo, por uma obra fechada e outra aberta. Enquanto Guerreiros do Sol teve toda a trajetória definida antes da estreia, Quem ama cuida permanece em constante transformação. “A obra aberta tem uma energia muito viva, porque dialoga com a reação do público. Eu conheço uma ideia da história da Francesca, mas o caminho pode mudar a qualquer momento”, adianta a intérprete, que, entre uma produção e outra, protagonizou Família é tudo, em 2024.

Segundo Nathalia, essa flexibilidade também reflete as mudanças da própria indústria audiovisual. Com os contratos por obra cada vez mais comuns, os atores passaram a circular entre plataformas, emissoras e formatos com muito mais frequência. “Como atriz, é muito estimulante poder transitar por universos tão diferentes. Acho que esse modelo amplia possibilidades criativas. Para um ator, não tem coisa melhor que novidade”, comemora a ariana.

Álbum de memórias

Enquanto encara novos desafios, o passado também permanece presente. As reprises de Avenida Brasil (na Globo), e Paraíso e Rock story (no Globoplay Novelas) oferecem uma oportunidade rara de rever personagens que marcaram etapas distintas de sua vida. “Existe um carinho enorme por essas personagens, porque cada uma delas representa uma fase da minha vida. Rever esses trabalhos é quase como folhear um álbum de memórias”, pondera Nathalia.

Essa sensação de maturidade acompanha também a vida pessoal. Recém-chegada aos 40 anos, ela diz enxergar a nova década menos como um marco e mais como uma conquista. “Sinto que existe mais liberdade, mais autoconhecimento e menos necessidade de corresponder a expectativas externas”, reflete a artista versátil, que acumula, ainda, personagens marcantes como a Viviane de Escrito das estrelas (2010), a histórica Elisabeta de Orgulho e paixão (2018) e a ex-freira Fabiana de A dona do pedaço (2019), além de ter se destacado no cinema com a presença premiada no filme Paraísos artificiais, de 2012.

É uma resposta que dialoga diretamente com o momento profissional que atravessa. Em vez de repetir fórmulas, a atriz parece interessada justamente em habitar territórios opostos: o suspense e o drama histórico, a televisão aberta e o streaming, o passado das reprises e a imprevisibilidade das novelas em construção. Com a maturidade na vida pessoal e na profissional, Nathalia Dill vive uma fase em que a principal certeza talvez seja justamente a vontade permanente de continuar mudando. “Para um ator, não tem coisa melhor que novidade”, finaliza.

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