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Mudanças climáticas aumentam problemas de pele e afetam mais países de baixa renda

Foto: Freepik

Ceilândia em Alerta — As mudanças climáticas já estão associadas a alterações na frequência e na gravidade de diversas doenças de pele em diferentes partes do mundo. Um estudo internacional apresentado no Congresso 2026 da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV), em Viena, na Áustria, aponta que o problema é relatado com maior frequência em países de menor renda.

A pesquisa foi realizada pelo Observatório Global de Acesso à Saúde da Pele (SkinObservatory) e reuniu respostas de representantes de 136 dos 194 países membros da Organização Mundial da Saúde (OMS). A análise considerou os quatro grupos de renda definidos pelo Banco Mundial.

Segundo o levantamento, 42,6% dos países participantes relataram mudanças na frequência e/ou na gravidade de doenças de pele relacionadas ao clima. Entre as nações de baixa renda, 55,6% identificaram esse tipo de alteração. Nos países de alta renda, o percentual foi de 28,3%.

Dos 58 países que relataram impactos, 81% registraram aumento de erupções cutâneas. Alterações em doenças inflamatórias foram apontadas por 75,9%, enquanto 62,1% identificaram mudanças relacionadas a doenças infecciosas.

Calor, umidade e radiação

As alterações climáticas podem afetar a pele por diferentes mecanismos. Ondas de calor, exposição maior à radiação ultravioleta, poluição e mudanças na umidade do ar podem prejudicar a barreira cutânea, responsável por ajudar a manter a hidratação e proteger o organismo.

De acordo com a dermatologista Isabella Doche, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o calor pode aumentar a produção de suor e oleosidade e modificar o equilíbrio do microbioma da pele.

Doenças como dermatite atópica, rosácea, acne, dermatite seborreica, micoses e algumas formas de urticária podem ser influenciadas pelas condições climáticas.

A miliária, conhecida popularmente como brotoeja, também é frequente em períodos de calor intenso, especialmente entre bebês. Doenças relacionadas à exposição solar, como o melasma e algumas dermatoses fotossensíveis, também podem se tornar mais difíceis de controlar.

A combinação de suor, umidade, atrito e abafamento favorece irritações principalmente em regiões de dobra, como axilas, virilhas e abaixo das mamas. A umidade persistente também pode facilitar a proliferação de fungos e bactérias.

Por outro lado, ambientes muito quentes associados ao uso constante de ar-condicionado podem ressecar a pele e prejudicar sua barreira de proteção.

Como proteger a pele

Especialistas recomendam medidas simples para reduzir os impactos das condições climáticas sobre a pele.

Entre os principais cuidados estão o uso diário de protetor solar de amplo espectro, preferencialmente com FPS 30 ou superior, além de roupas adequadas, chapéus, óculos de proteção e busca por sombra nos horários de maior radiação.

Também é importante manter a pele hidratada, evitar banhos muito quentes e prolongados e reduzir o uso de buchas e sabonetes abrasivos.

Roupas úmidas devem ser trocadas sempre que possível. Nas regiões de dobra, manter a pele seca pode ajudar a prevenir irritações e infecções fúngicas.

A dermatologista e cirurgiã Bhetha Tamura destaca que a higiene também deve ser feita sem excessos. Pessoas com doenças dermatológicas podem ter a hidratação natural da pele ainda mais prejudicada quando tomam banhos excessivos.

Para quem trabalha ou pratica atividades físicas em ambientes quentes, roupas leves e que permitam a rápida eliminação do suor podem ajudar a manter a pele seca e protegida.

Mudanças climáticas e doenças infecciosas

As alterações na temperatura e no regime de chuvas também podem modificar os ambientes onde vivem mosquitos e carrapatos. Com isso, determinados vetores podem ocupar novas áreas e ampliar a exposição da população a algumas doenças.

Eventos extremos, como enchentes, representam outro risco. Além do contato com água contaminada, essas situações podem favorecer infecções e dificultar o acesso da população a consultas, medicamentos e outros serviços de saúde.

O dermatologista Eduardo H.K. Oliveira explica que a pele é o primeiro órgão a entrar em contato com as alterações ambientais. Segundo ele, calor e umidade favorecem brotoejas, assaduras, micoses e irritações, enquanto períodos de seca intensa podem provocar ressecamento, eczema e coceira.

A poluição e a fumaça de queimadas também podem aumentar processos inflamatórios e agravar algumas doenças dermatológicas.

Verão recorde na Europa

O impacto das condições climáticas extremas também foi observado na Europa em 2026. Entre junho e agosto, a Europa Ocidental registrou o verão mais quente já observado, com temperatura média de 21,7°C, segundo dados ajustados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S).

O valor ficou 2,54°C acima da média registrada entre 1991 e 2020. Pelo menos 60% da Europa Ocidental registrou temperaturas superiores a 30°C durante 17 dias.

O período também foi marcado por ondas de calor prolongadas, seca e níveis elevados de estresse térmico. A região registrou 13 dias classificados como de estresse térmico “muito forte”, com sensação térmica superior a 38°C.

A estiagem contribuiu ainda para a propagação de incêndios florestais. Até o fim de setembro, aproximadamente 680 mil hectares haviam sido queimados no continente.

A fumaça das queimadas também elevou a concentração de partículas finas na atmosfera.

Aquecimento global contribui para eventos extremos

O climatologista José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que ondas de calor recentes na Europa estão relacionadas principalmente a alterações na circulação atmosférica.

Em algumas regiões, bloqueios de alta pressão impedem a chegada de chuva e mantêm o ar quente e seco por vários dias. A combinação de calor e seca aumenta o risco de incêndios florestais.

Embora fenômenos como o El Niño possam influenciar determinadas condições climáticas, estudos de atribuição indicam que o aquecimento global também contribui para a intensificação dos eventos extremos.

Situação no Brasil

Ainda não existe no Brasil um estudo nacional com o mesmo desenho da pesquisa apresentada no congresso europeu, mas levantamentos já identificaram efeitos específicos das condições ambientais sobre doenças de pele.

Durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, dermatologistas avaliaram 371 pessoas e identificaram 423 diagnósticos. Do total, 49,2% estavam relacionados a doenças infecciosas.

Outro estudo, realizado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), analisou 9.121 notificações de dermatoses ocupacionais entre 2006 e 2024 e apontou maior ocorrência entre trabalhadores expostos ao calor e a atividades ao ar livre.

Pesquisas brasileiras também investigam a influência das condições climáticas na distribuição de vetores e na ocorrência de doenças como a leishmaniose.

Para os pesquisadores, o cenário reforça a necessidade de ampliar o monitoramento das doenças de pele e preparar os sistemas de saúde para os efeitos das mudanças climáticas. A recomendação inclui capacitar profissionais e desenvolver estratégias de prevenção de acordo com as características climáticas de cada região.

Fonte: Correio Braziliense

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