O colapso político do trumpismo nos Estados Unidos abre uma janela histórica para o Brasil. Não se trata apenas de um fenômeno interno norte-americano, mas de um abalo profundo em toda a rede global da extrema-direita, que durante anos se alimentou da figura de Donald Trump como símbolo de força, ruptura e poder. Agora, esse símbolo se transforma rapidamente em um fardo.
Trump, hoje presidente dos Estados Unidos, já é rejeitado por mais de 60% dos estadunidenses e passou a ser visto, por amplos setores da opinião pública global, como o principal responsável pela desordem internacional – seja pela escalada de conflitos, seja pela condução errática da política externa e econômica. A imagem de líder forte cede espaço à percepção de instabilidade, imprevisibilidade e perigo.
Esse desgaste inevitavelmente atravessa fronteiras – e atinge em cheio a extrema-direita brasileira.
No Brasil, poucos grupos políticos foram tão explicitamente alinhados ao trumpismo quanto o clã Bolsonaro. Jair Bolsonaro, hoje preso pela trama golpista, não apenas imitava Trump em estilo e discurso, como era frequentemente descrito como o “Trump dos trópicos”. A associação nunca foi negada – ao contrário, foi cultivada como ativo político.
A sorte, para os brasileiros, é que esse ativo virou passivo, não apenas em razão do caos global semeado por Trump com suas guerras, mas também pelo tarifaço imposto ao Brasil no ano passado.
O bolsonarismo construiu sua identidade sobre pilares importados: negacionismo, ataque às instituições, culto à violência simbólica e a ideia de uma guerra permanente contra adversários internos e externos. Tudo isso foi amplificado sob a inspiração direta do trumpismo. Com o colapso desse modelo nos Estados Unidos, o edifício ideológico da extrema-direita brasileira começa a apresentar rachaduras evidentes.
Outro personagem diretamente afetado por esse cenário é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Em um gesto que simboliza essa vinculação, ele chegou a vestir o boné “Make America Great Again” no dia da vitória de Trump. A cena não foi trivial – foi um alinhamento explícito, quase um selo de pertencimento a um projeto político internacional da extrema-direita.
Agora, esse vínculo cobra seu preço.
À medida que Trump se torna um símbolo de caos e fracasso, aqueles que se associaram a ele podem vir a carregar o mesmo desgaste. Não se trata apenas de uma questão de imagem, mas de conteúdo político: quem apostou no trumpismo apostou em um modelo que hoje é amplamente questionado e rejeitado.
No entanto, seria um erro grave imaginar que o fracasso da extrema-direita cairá do céu, como uma fruta madura pronta para ser colhida. A história mostra que projetos autoritários não desaparecem espontaneamente – eles precisam ser enfrentados, deslegitimados e derrotados politicamente.
É aqui que entra a responsabilidade das forças democráticas brasileiras.
Os publicitários do presidente Lula e também do ex-ministro Fernando Haddad, hoje pré-candidato ao governo de São Paulo, têm diante de si uma tarefa estratégica: explicitar, sem ambiguidades, a conexão entre o bolsonarismo, Tarcísio e o trumpismo. Não se trata de um ataque gratuito, mas de uma disputa narrativa fundamental para conscientizar a população brasileira sobre o que seus adversários efetivamente representam.
É preciso mostrar ao eleitorado que essas correntes políticas fazem parte de um mesmo projeto – um projeto que fracassou, que produziu instabilidade e que hoje é rejeitado inclusive em seu país de origem.
A comunicação política deve deixar claro que não há “nova direita moderada” desvinculada desse passado recente, como já fica claro nas declarações recentes de Flávio Bolsonaro. Além disso, Tarcísio não é uma ruptura com Bolsonaro, mas uma continuidade com embalagem mais técnica. E Bolsonaro, por sua vez, sempre foi uma versão tropicalizada de Trump.
Esse encadeamento precisa ser compreendido pelo eleitor.
O momento é particularmente favorável. A crise do trumpismo oferece um argumento concreto, visível e atual para desmontar a narrativa da extrema-direita. Mas esse argumento precisa ser trabalhado, repetido e consolidado.
Se houver hesitação, o risco é que a extrema-direita se reorganize, reembale seu discurso e tente sobreviver sob novas máscaras.
Se houver enfrentamento político claro, consistente e inteligente, abre-se a possibilidade real de varrer do mapa – ou ao menos reduzir drasticamente – a influência desse campo no Brasil.
A oportunidade está posta. A diferença entre aproveitá-la ou desperdiçá-la dependerá, essencialmente, da capacidade de fazer o debate político no terreno certo: o da verdade, da memória recente e da comparação internacional. O Brasil não pode desperdiçar esta oportunidade histórica.
Com informações do Brasil247
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