O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma nova edição do programa Desenrola para aliviar dívidas dos brasileiros, em meio à persistência de altos níveis de endividamento que continuam pressionando o orçamento das famílias e gerando preocupação no cenário econômico e político, segundo o jornal O Globo.
A iniciativa surge após o término da primeira versão do Desenrola, lançada em 2023, que teve efeito temporário na renegociação de débitos, mas não conseguiu alterar de forma estrutural os indicadores. Dados recentes mostram que o endividamento das famílias permanece próximo ao patamar de 2022, quando atingiu níveis recordes ao fim do governo Jair Bolsonaro (PL), com a relação entre dívida e renda chegando a 49,7% em janeiro de 2026.
Além disso, a parcela da renda comprometida com o pagamento de dívidas alcançou 29,3%, o maior nível já registrado. O cenário é agravado pelo custo elevado do crédito, influenciado pela taxa básica de juros (Selic), que chegou a 15% ao ano e permanece em patamar elevado, mesmo após recuo recente para 14,75%.
Diante desse quadro, o Ministério da Fazenda, liderado por Dario Durigan, discute com instituições financeiras uma nova versão do programa, mais simplificada e de duração reduzida. A proposta deve focar nas modalidades de crédito mais caras, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais sem garantia.
O governo também avalia medidas para evitar que os beneficiários voltem a se endividar após a renegociação. Entre as possibilidades em análise estão restrições ao uso de apostas online por participantes do programa e a ampliação dos benefícios para microempreendedores individuais (MEIs).
Estudos do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas indicam que o problema é mais intenso entre as camadas de menor renda. Entre beneficiários do Bolsa Família, o comprometimento da renda com dívidas superou 30% no fim de 2024, evidenciando maior vulnerabilidade financeira nesse grupo.
Especialistas apontam que a expansão do crédito, especialmente por fintechs, facilitou o acesso a linhas mais caras, contribuindo para o aumento do endividamento. O crédito rotativo do cartão de crédito, por exemplo, cresceu 32,7% em 12 meses, com taxas que podem ultrapassar 400% ao ano.
Para a especialista em crédito Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, a dificuldade de acesso a opções mais baratas leva consumidores a recorrerem às modalidades mais onerosas. “Essas pessoas não conseguem modalidades melhores porque os bancos estão mais seletivos. Acabam pegando crédito nas piores modalidades, o que vira uma bola de neve”, explica.
O professor de Finanças Rafael Schiozer, da FGV, destaca que a inclusão financeira recente ocorreu principalmente via cartão de crédito. “As pessoas que têm mais cartões estão mais endividadas”, afirma, ressaltando a necessidade de maior transparência e educação financeira.
Já a pesquisadora Viviane Fernandes, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), critica a ampla oferta de crédito sem orientação adequada. “Ela recebe tanta oferta de crédito, com cheque especial, cartão, consignado CLT, Pix Parcelado, que, em algum momento, vira a vítima perfeita”, diz.
Com informações do Brasil247
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