Rotulado de neoliberal por setores da esquerda e de “esquerdista” pela direita, o governo se move no terreno estreito do “neodesenvolvimentismo”. E revela os limites e tensões desse projeto no Brasil contemporâneo.
O debate sobre o caráter do terceiro governo Lula (PT) tornou-se refém de rótulos fáceis e, muitas vezes, analiticamente pobres e equivocados. De um lado, setores da esquerda o acusam de “neoliberal”; de outro, o bolsonarismo o denuncia como expressão de suposto “estatismo esquerdista”, de caráter socialista. Nem um, tampouco o outro.
Nenhuma dessas leituras se sustenta quando confrontada com análise mais rigorosa, como propõe Armando Boito Jr. ao definir o Lula 3 como “um governo neodesenvolvimentista”1. O longo artigo de Boito Jr. vale a leitura atenta, pois é esclarecedor.
Segundo Boito Jr., a confusão nasce, em grande medida, de erro conceitual central: a incapacidade de distinguir política de governo e modelo de Estado. O Brasil permanece inserido em um capitalismo de matriz neoliberal — financeirizado, dependente e globalizado —, mas isso não implica que todos os governos operem com a mesma lógica política.
Há variações reais, ainda que limitadas, dentro desse modelo. É nesse espaço estreito que se inscreve o chamado neodesenvolvimentismo.
Neodesenvolvimentismo sob pressão
Trata-se, essencialmente, de política de resistência. Diferente do neoliberalismo, que aprofunda a dependência por meio da abertura irrestrita, da desregulação e da compressão de direitos sociais, o neodesenvolvimentismo busca conter — e, em alguns casos, mitigar — esses efeitos.
Não rompe com o modelo, mas o tensiona. Não promove transformação estrutural, mas altera a direção de algumas políticas públicas.
No caso do Lula 3, isso se expressa em três frentes. Na economia, a retomada do papel do Estado como indutor — ainda que moderado — do crescimento, com instrumentos como crédito público, políticas industriais pontuais e valorização do mercado interno.
No campo social, a recomposição de programas redistributivos e a recuperação (limitada) do salário mínimo. E, na política externa, a tentativa de ampliar margens de autonomia em um sistema internacional cada vez mais competitivo e instável.
Confusão conceitual do debate público
Nada disso equivale ao desenvolvimentismo clássico do século 20, marcado por ambições mais robustas de industrialização e maior capacidade estatal. Mas tampouco se confunde com o receituário neoliberal, cuja lógica central é a subordinação ativa às dinâmicas do capital financeiro global.
Ainda assim, o neodesenvolvimentismo atual é mais frágil do que em ciclos anteriores. As razões são estruturais: menor dinamismo da economia global, maior poder do capital financeiro, enfraquecimento da base industrial brasileira, além de mudanças institucionais internas, como o fortalecimento do Legislativo e as amarras fiscais.
A isso se somam fatores políticos: a desorganização das bases sociais do lulismo e a opção recorrente pela conciliação em detrimento da mobilização.
Esse conjunto de limites ajuda a explicar porque o governo oscila, muitas vezes, entre avanços pontuais e concessões significativas.
É um projeto que administra tensões mais do que as resolve. E é justamente essa ambiguidade que alimenta as leituras distorcidas: para uns, o governo cede demais ao mercado; para outros, intervém além do aceitável.
Democracia, economia e o risco de regressão
Mas há um ponto que transcende o debate econômico e recoloca a discussão em outro patamar: o conflito entre democracia e autoritarismo. Como alerta Boito Jr., o embate atual não se restringe à escolha entre neoliberalismo e neodesenvolvimentismo. Esse envolve também a própria natureza do regime político.
Nesse sentido, a hipótese de retorno de forças associadas ao bolsonarismo não significaria apenas inflexão econômica mais dura — alinhada ao neoliberalismo em sua versão contemporânea —, mas também risco concreto às instituições democráticas.
A experiência recente brasileira mostrou que ambos os vetores podem caminhar juntos: radicalização econômica e erosão política.
O Lula 3, portanto, ocupa lugar incômodo. Não é a ruptura desejada por parte da esquerda, nem o espantalho ideológico construído pela direita e extrema-direita. É, antes, a expressão possível de projeto intermediário, condicionado por correlações de força adversas e por ambiente global hostil.
Reduzi-lo a caricaturas — seja de “neoliberal disfarçado” ou de “ameaça socialista” — empobrece o debate e obscurece o essencial: compreender os limites reais da ação estatal no capitalismo contemporâneo e os riscos políticos que cercam qualquer tentativa, ainda que moderada, de enfrentá-los.
No fim, a questão central talvez não seja apenas o que o governo é, mas o que consegue ser. E até onde pode ir sem romper o equilíbrio precário que sustenta tanto sua agenda econômica quanto a própria democracia brasileira.
VERMELHO
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