Como uma falsa oficina se transformou em base para furtar combustível no DF

Três homens foram presos após alugar um imóvel às margens da BR-070, em Ceilândia, e escavar um túnel até uma tubulação da Petrobras; polícia estima que, na última semana, eles furtaram de 90 a 100 mil litros do material

Durante três meses, uma oficina mecânica nunca abriu as portas à luz do dia, tampouco recebeu clientes. Mesmo instalada em um ponto estratégico às margens da BR-070, em Ceilândia, o estabelecimento só ganhava movimento na madrugada, duas a três vezes por semana. O pequeno espaço, porém, não abrigava equipamentos automotivos. Servia de base para um esquema clandestino de furto de combustível transportado de São Paulo para a capital federal por um oleoduto da Petrobras.

Pouco depois das 23h da última sexta-feira, vizinhos da falsa oficina souberam o que havia por trás do portão cinza. Antes disso, só sentiam o cheiro acre de gasolina. Policiais civis da 19ª Delegacia de Polícia (P Norte) chegaram ao endereço para deflagrar a operação Estige — rio mitológico do submundo grego. Encontraram três homens trabalhando em um túnel escavado rumo ao oleoduto.

Antônio Marcos da Silva Seurinho, 43 anos, José Marle de Queiroz Lucena Segundo, 43, e Paulo Batista de Oliveira, 36, estavam reunidos dentro da casa quando a polícia chegou. Há três meses, segundo as investigações, eles alugaram o ponto comercial por R$ 1,2 mil mensais. Ao real proprietário, alegaram que montariam uma mecânica. O valor era depositado sem atraso para não levantar suspeita.

Uma ocorrência similar registrada há dois anos contra Antônio o coloca como suspeito de encabeçar a ação. José e Paulo desempenhavam, afirma a polícia, o trabalho braçal. Nos registros públicos, José aparece como proprietário de uma empresa voltada à instalação e manutenção de ar-condicionado. A organização foi fundada em outubro de 2012 e atualmente considerada inapta.

Anomalia

Enquanto dotavam o túnel com ventiladores, soldavam a válvula de controle e instalavam uma mangueira de alta pressão para furtar o combustível, a Transpetro detectava uma anomalia numérica. Havia divergência no montante de combustível transportado e entregue. O oleoduto perfurado pelo grupo é responsável por trazer, todos os dias, três milhões de litros de gasolina de São Paulo para o DF.

Em paralelo à desconfiança da empresa, vizinhos queixavam do forte odor. As duas pontas da história se encontraram na investigação policial. O aluguel do ponto comercial foi certamente premeditado, apontam as investigações. O imóvel vazio está a cerca de 5 metros de distância da tubulação, ponto facilitador para o grupo.

A polícia estima que, apenas na última semana, tenham sido furtados entre 90 mil e 100 mil litros de combustível. O valor correto é investigado. “Havia risco real de explosão em um raio de 3km”, frisou o delegado Fernando Fernandes, da 19ª DP.

Os elementos e provas colhidos até o momento levam os policiais a outra camada da investigação: a suposta participação de transportadoras e postos de gasolina. Denúncias recebidas apontam para o envolvimento de ambos no esquema criminoso. Devido ao risco de explosão, a Defesa Civil interditou ao menos quatro imóveis próximos ao oleoduto, aconselhando que os moradores deixassem as residências.

Na vistoria, as equipes mapearam a escavação clandestina e avaliaram os riscos. Segundo a pasta, a remoção inadequada do solo pode comprometer a estabilidade das edificações. Alertou, ainda, que intervenções como essas colocam em risco não apenas os envolvidos na ação ilícita, mas os moradores e trabalhadores da comunidade. Até o fechamento desta edição, não havia informações sobre a liberação da área. A Polícia Civil realizou perícia, e a Transpetro assumiu a responsabilidade pelos reparos necessários.

Impacto

A reportagem tentou, ontem, localizar a defesa dos presos, sem sucesso. Em nota, a Transpetro informou que está acompanhando o caso em conjunto com as autoridades de segurança pública. “A companhia é vítima desse tipo de ação criminosa e reforça que sua maior preocupação é a preservação da vida, a segurança das pessoas e a proteção do meio ambiente.”

A companhia disse, ainda, que considera essencial o trabalho desenvolvido pela 19ª Delegacia e que não há impacto ao fornecimento de combustível para a região. “Após ocorrências dessa natureza, a companhia adota protocolos de segurança e integridade operacional previstos para atuação em contingências”, afirma a nota.

A Transpetro afirmou que conta com rotinas de manutenção preventiva e corretiva, serviços de engenharia, treinamentos e simulados operacionais para testar estratégias e a efetividade das ações de resposta a emergências. A empresa também dispõe de Centros de Resposta a Emergências “equipados e prontos para atuar em situações de contingência, além de um Centro de Reparos de Dutos com qualificação e agilidade para atuação em todo o Brasil”. O investimento, segundo eles, é de cerca de R$ 100 milhões por ano em tecnologia e proteção da malha de 8,5 mil quilômetros de dutos.

A Transpetro não divulga estimativas de prejuízos financeiros relacionados a esse tipo de ocorrência, para evitar estimular a prática criminosa. A companhia reforça ainda que disponibiliza o telefone 168, canal gratuito, anônimo e disponível 24 horas por dia para recebimento de denúncias sobre movimentações suspeitas em faixas de dutos.

Com informações do Correio Braziliense

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