China tenta recuperar sua influência sobre um aliado estrategicamente importante, mas conhecido por sua imprevisibilidade.
Para o líder chinês, Xi Jinping, a Coreia do Norte é um vizinho que a China não consegue controlar totalmente, mas também não pode se dar ao luxo de perder.
Os dois países costumam definir sua relação como um vínculo “selado em sangue”, em referência à participação conjunta na Guerra da Coreia (1950-1953).
Mas nos últimos anos a desconfiança desgastou essa parceria. Agora, a China busca recuperar influência sobre um aliado estrategicamente importante, mas conhecido por sua imprevisibilidade.
A China quer manter a estabilidade em sua fronteira e preservar sua influência na Coreia do Norte, sem ser arrastada para crises provocadas pelas ambições nucleares norte-coreanas.
Por isso, a visita de Xi ao país nesta semana tende a ter menos relação com amizade e mais com estratégia política.
Autoridades em Seul, na Coreia do Sul, avaliam que Xi pode tentar apresentar a China como mediadora entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, mas o governo chinês pode ter outros interesses.
Fontes diplomáticas ocidentais disseram à reportagem da BBC que a China acompanha com preocupação a aproximação entre a Coreia do Norte e a Rússia.
Depois de se reunir na semana passada com o presidente russo, Vladimir Putin, Xi pode querer garantir que também mantenha influência sobre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, sobretudo em um momento em que a China amplia sua presença no cenário internacional.
Reaproximação após anos de desgaste
O esfriamento das relações entre a China e a Coreia do Norte era perceptível, ainda que de forma discreta.
Os dois países praticamente não celebraram o 75º aniversário de suas relações diplomáticas, em outubro de 2024. As manifestações públicas foram contidas.
No mês anterior, o embaixador chinês não participou das comemorações pelo aniversário de fundação da Coreia do Norte. Ao longo de todo o ano, também não houve encontros de alto nível, um contraste evidente com a aproximação cada vez maior entre Coreia do Norte e Rússia.
Essa aproximação crescente com a Rússia passou a preocupar a China.
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Coreia do Norte ampliou sua cooperação militar com o presidente russo, Vladimir Putin. O movimento culminou na assinatura de um pacto de defesa mútua durante a visita de Putin a Pyongyang, capital da Coreia do Norte, em 2024.
Segundo uma investigação da BBC, cerca de 2.300 soldados norte-coreanos morreram lutando ao lado das forças russas contra a Ucrânia.
A Coreia do Norte também é acusada de fornecer munições para o esforço de guerra russo em troca de petróleo e ajuda econômica, um movimento que alarmou os EUA e seus aliados e gerou preocupação na China, ainda que de forma menos pública.
“A China quer garantir que seus interesses em relação à Coreia do Norte sejam preservados em um momento de rápida aproximação entre Rússia e Coreia do Norte“, afirma Ankit Panda, especialista em política nuclear do think tank (centro de pesquisa e debates) Carnegie Endowment for International Peace, dos EUA.
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Isolada do restante do mundo, a ditadura norte-coreana depende fortemente da China e da Rússia. — Foto: AFP via Getty Images
A China mantém apenas um tratado formal de defesa, e é justamente com a Coreia do Norte.
Por isso, a China dificilmente veria com bons olhos um cenário em que a Rússia se tornasse a principal força de influência sobre a Coreia do Norte. Um Kim mais autônomo e menos dependente da China significaria uma redução da capacidade chinesa de pressionar o regime norte-coreano.
A resposta da China tem sido tentar reconstruir a relação. No fim do ano passado, o presidente chinês convidou o líder norte-coreano para um desfile militar em Pequim, colocando-o em posição de destaque ao lado do presidente russo, Vladimir Putin.
Foi a primeira cúpula formal entre Xi e Kim em seis anos. Na ocasião, Xi descreveu os dois países como “bons vizinhos, bons amigos e bons camaradas unidos por um destino comum” e defendeu maior coordenação estratégica entre eles. Chamou atenção a ausência de qualquer menção ao arsenal nuclear norte-coreano nas declarações públicas divulgadas após o encontro.
A China tem “sentimentos contraditórios” em relação à aproximação crescente entre a Coreia do Norte e a Rússia, afirma Lee Seong-hyon, pesquisador visitante do Harvard University Asia Center, dos EUA.
Por um lado, segundo Lee, essa aproximação desvia a atenção dos EUA e torna mais complexa a estratégia americana em diferentes frentes, o que beneficia indiretamente a China.
Por outro lado, o aprofundamento da cooperação militar entre Rússia e Coreia do Norte pode estimular uma resposta mais robusta dos EUA, do Japão e da Coreia do Sul, cenário que preocupa a China.
Essa também é uma das razões pelas quais a China evita apoiar abertamente o programa nuclear norte-coreano, já que isso ampliaria a presença americana na região e fortaleceria suas alianças locais.
Ao mesmo tempo, a China evita um confronto direto sobre o tema. Em 2022, China e Rússia vetaram uma resolução apresentada pelos EUA no Conselho de Segurança da ONU que previa novas sanções à Coreia do Norte em resposta aos testes de mísseis realizados pelo regime.
Se a China adotar uma posição mais dura contra o programa nuclear norte-coreano, “isso apenas empurrará a Coreia do Norte ainda mais para os braços de Putin”, avalia Victor Cha, presidente do departamento de política externa do Center for Strategic and International Studies, dos EUA.
O parceiro pragmático
Mas Kim também não pode se dar ao luxo de se afastar de sua principal fonte de ajuda econômica.
As exportações chinesas para a Coreia do Norte saltaram para cerca de US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 12,4 bilhões) no ano passado, o maior nível em seis anos. No início deste ano, o serviço ferroviário de passageiros entre as capitais Pequim e Pyongyang foi retomado após uma interrupção de seis anos.
Segundo analistas, essas medidas também fazem parte de um esforço calculado da China para trazer a Coreia do Norte de volta para sua esfera de influência.
Para Kim Jong-un, essa é uma escolha pragmática. Se a guerra na Ucrânia chegar ao fim, a necessidade russa de apoio norte-coreano pode diminuir. E, ao contrário de um Putin isolado internacionalmente, o líder chinês, Xi Jinping, tem recebido líderes mundiais em Pequim.
Por isso, Kim precisa evitar ficar dependente de um parceiro em perda de força.
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Kim Jong-un frequentemente aparece em público ao lado da filha, Kim Ju-ae. Alguns analistas acreditam que ela possa sucedê-lo no futuro. — Foto: Getty via KCNA
Mas essa relação já começou marcada por tensões.
Ao assumir o poder, Kim adotou prioridades diferentes das de seu pai. Enquanto Kim Jong-il visitava a China com frequência e dependia do apoio da China, seu filho acelerou rapidamente o programa nuclear norte-coreano.
Nos seis primeiros anos no poder, Kim supervisionou cerca de 90 testes de mísseis balísticos e quatro explosões nucleares, mais do que seu pai e seu avô haviam realizado juntos.
O avanço do programa nuclear alarmou a liderança chinesa. Depois, a execução de seu tio, Jang Song Thaek, visto pela China como uma figura moderadora dentro do regime, aprofundou ainda mais o desgaste entre os dois países.
Xi respondeu com sinais diplomáticos incomuns de insatisfação. Em 2014, visitou a Coreia do Sul antes mesmo de se encontrar com Kim, gesto interpretado amplamente como uma afronta ao líder norte-coreano.
A reação da Coreia do Norte foi dura. A imprensa estatal chegou a se referir à China como “traidora” e “inimiga”.
Foi apenas em 2018, quando as sanções impostas ao programa nuclear norte-coreano começaram a produzir efeitos mais severos, que Kim realizou sua primeira viagem internacional conhecida desde que assumiu o poder. Naquele ano, Kim fez sua primeira viagem internacional conhecida desde que assumira o poder. Em seu trem blindado, seguiu para Pequim.
O encontro marcou o início de uma reaproximação cautelosa.
Nos anos seguintes, Kim se reuniu com líderes dos EUA e da Coreia do Sul, mas sempre depois de consultar a China. A mensagem era clara: a Coreia do Norte não negociaria sem o respaldo da China.
Hoje, a Coreia do Norte representa para a China ao mesmo tempo uma proteção estratégica e uma fonte permanente de preocupação.
O regime norte-coreano ajuda a manter as forças americanas mais distantes da fronteira chinesa, mas seus testes de armas contribuem para a instabilidade regional.
Kim, por sua vez, busca a proteção da China sem aceitar tutela política.
Nenhum dos dois lados confia plenamente no outro. Ainda assim, ambos consideram a parceria necessária e, por enquanto, isso basta para manter aberto o diálogo.
Com informações g1
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