Família recebe parecer da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos segundo o qual a colisão que matou o ex-presidente foi um atentado. A neta Anna Cristina Kubitschek diz que reabertura do debate é passo importante para a verdade
A Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) encaminhou à família do ex-presidente Juscelino Kubitschek o relatório sobre as investigações da morte do fundador de Brasília, em um desastre na Via Dutra (BR-116, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro), em 22 de agosto de 1976. Conselheira relatora do caso, a historiadora Maria Cecília Adão concluiu que o ex-presidente e o motorista dele, Geraldo Ribeiro, não foram vítimas de um acidente — versão oficial do regime militar —, e sim de um possível atentado.
Segundo o parecer que está em análise pelos demais conselheiros da comissão — objeto de reportagem da Folha de S.Paulo —, houve uma “ação externa” que provocou a saída do veículo da pista e a posterior colisão com uma carreta que trafegava no sentido contrário. Inquérito policial aberto após a tragédia apontou que o motorista de JK perdeu o controle do veículo ao tentar ultrapassar um ônibus de carreira da Viação Cometa, que fazia a ligação entre as duas capitais.
Para a relatora, não há nada na documentação analisada que sustente a versão da ditadura. O motorista do ônibus, por exemplo, sempre negou as conclusões da polícia. Ele, inclusive, chegou a enfrentar processo na Justiça, acusado de ser o principal responsável pelo “acidente”, mas foi absolvido por falta de provas.
Neta de JK e presidente do Memorial em homenagem ao fundador de Brasília, Anna Cristina Kubitschek disse que a família nunca acreditou na narrativa do Regime Militar e que a reabertura do debate sobre a morte do avô “representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil”.
“A família considera fundamental que o Brasil enfrente sua história com coragem e transparência. Caso a CEMDP conclua, oficialmente, que JK foi vítima de um atentado político, será um reconhecimento histórico necessário — não apenas para sua memória, mas para todas as vítimas da violência do Estado”, enfatizou Anna Christina, que, em nota, confirmou ter recebido da comissão os documentos.
“A reabertura do debate sobre a morte de meu avô Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil. Durante décadas, prevaleceu a versão de que JK teria sido vítima de um acidente automobilístico. No entanto, novas investigações, perícias independentes e relatórios produzidos por comissões da verdade estaduais, pelo Ministério Público Federal e, agora, pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), apontam graves inconsistências nessa narrativa”, declarou a neta de JK.
Em análise
O relatório de Maria Cecília Adão foi apresentado em 1º de abril, após trabalhar “de forma articulada com pesquisadores do tema”, segundo explicação da CEMDP. O parecer tem como base documentos coletados pelas comissões estaduais da Verdade de Minas Gerais e de São Paulo e no inquérito do Ministério Público Federal (MPF) aberto em 2013 para investigar a morte do ex-presidente. A comissão informa, porém, que os demais elementos que subsidiaram a conclusão da relatora só serão divulgados “na conclusão da deliberação”.
A sessão de análise e votação do relatório — que tem mais de 5 mil páginas — pela comissão especial ainda não foi marcada. “Diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações, deliberou-se que a votação ocorreria depois do contato com as famílias”, justificou a CEMDP, em nota.
O colegiado, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, é composto por sete membros. As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são aprovadas por maioria simples.
O pedido de reabertura das investigações foi feito pelo ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo Gilberto Natalini e pelo jornalista Ivo Patarra, logo após a reinstalação da comissão especial, determinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em julho de 2024. Criado em 1995 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso para reconhecer mortos e desaparecidos em decorrência da repressão política, identificar corpos e subsidiar ações judiciais de parentes das vítimas contra o Estado, o colegiado foi extinto em 2022, pelo então presidente Jair Bolsonaro, no apagar das luzes de seu governo.
Perseguido
Médico por formação, Juscelino governou o Brasil entre 1956 e 1961, período que, sob o lema “50 anos em 5”, ficou marcado por grandes obras, como a construção de Brasília, inaugurada em abril de 1960. Após deixar a Presidência, foi eleito senador por Goiás em 1961, mas teve o mandato cassado após o golpe militar de 1964, que depôs o então presidente João Goulart.
Perseguido pelos órgãos de repressão da ditadura, Juscelino se exilou na França. Ele retornou ao Brasil em 1967, com a pretensão de voltar a disputar a Presidência, mas, com direitos políticos cassados, foi proibido pela ditadura de fazer política e de visitar a capital que fundou. Morreu poucos dias antes de completar 74 anos.
“Os elementos reunidos ao longo dos anos indicam que o fato não pode ser analisado isoladamente do contexto político da época. Juscelino era uma das maiores lideranças civis do país, cassado pelo regime militar, perseguido politicamente e figura central da Frente Ampla em defesa da redemocratização. Em meio à repressão sistemática promovida na América do Sul, não é possível ignorar a hipótese de que ele tenha sido alvo de uma ação de Estado”, declarou a neta Anna Christina, ao comentar o relatório da Comissão de Mortos e Desaparecidos.
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