Ceilândia em Alerta — Fazer jejum de oito a 12 horas antes de um exame de sangue pode ser desnecessário em muitos casos. É o que indica um estudo publicado em setembro na revista científica JAMA Internal Medicine, que analisou quase 10 milhões de resultados laboratoriais e constatou que a maioria dos exames de rotina não apresenta alterações clinicamente relevantes em função do tempo sem alimentação.
A pesquisa comparou resultados de pacientes submetidos a diferentes períodos de jejum. Entre os exames que mantiveram relativa estabilidade estão o hemograma, os testes de função renal e algumas avaliações do colesterol. Os pesquisadores também observaram que prolongar o jejum por mais de 12 horas não oferece vantagens gerais em relação ao intervalo tradicional.
Quais exames podem ser feitos sem jejum?
Segundo Rafael Jácomo, diretor técnico do Grupo Sabin, os resultados reforçam uma mudança nas orientações sobre a preparação para exames laboratoriais.
Entre as análises que, em geral, apresentam pouca variação após a alimentação estão o hemograma completo, os testes de função renal, como ureia e creatinina, o coagulograma e algumas enzimas hepáticas. As dosagens de colesterol total e HDL também tendem a permanecer estáveis.
Isso não significa, porém, que o jejum possa ser dispensado em todas as situações. A necessidade depende dos exames solicitados, das condições do paciente e da finalidade da avaliação.
Glicose e triglicerídeos exigem atenção
O estudo identificou que alguns resultados podem sofrer influência significativa da alimentação, entre eles os de glicose, triglicerídeos, gama-glutamiltransferase (GGT), lipase e lactato.
A glicose, por exemplo, pode aumentar após o consumo de alimentos ricos em carboidratos. A pesquisa apontou uma redução média de aproximadamente 4,3 mg/dL por hora adicional de jejum nas primeiras horas avaliadas.
Os triglicerídeos também podem apresentar variações após as refeições, especialmente pelo consumo de gorduras. No estudo, as alterações chegaram a 20,1% em períodos inferiores a oito horas de jejum.
Por isso, a orientação médica e as instruções do laboratório continuam sendo fundamentais para garantir que os resultados sejam interpretados corretamente.
Falta de preparo pode interferir no diagnóstico
Realizar um exame sem o jejum recomendado pode dificultar a análise de determinados indicadores e comprometer a avaliação clínica.
No caso da glicemia, por exemplo, a coleta após a alimentação pode produzir valores diferentes daqueles esperados em um exame destinado especificamente à medição da glicose em jejum. Isso pode interferir na investigação de condições como pré-diabetes e diabetes.
Os triglicerídeos também merecem atenção, pois podem aumentar após uma refeição e influenciar a avaliação dos níveis de gordura no sangue.
Segundo Jácomo, o médico deve considerar as condições em que a coleta foi realizada, especialmente quando os resultados apresentam alterações.
Recomendações já vinham sendo revistas
A discussão sobre a exigência de jejum não é recente. Em 2016, cinco sociedades científicas brasileiras, entre elas a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, publicaram um consenso que dispensou a obrigatoriedade de 12 horas de jejum para a avaliação do perfil lipídico em determinadas situações.
A nova pesquisa reforça a importância de evitar restrições alimentares desnecessárias, sem abandonar os cuidados exigidos por exames específicos.
Afinal, é preciso fazer jejum antes do exame?
A recomendação é verificar as instruções do médico e do laboratório antes da coleta. Mesmo quando a maioria dos exames solicitados não exige jejum, a presença de um teste que dependa desse preparo pode tornar necessário permanecer sem comer pelo período indicado.
Se houver glicemia de jejum entre os exames pedidos, por exemplo, será preciso seguir a orientação específica para esse teste.
Portanto, não suspenda o jejum por conta própria quando ele tiver sido solicitado. A melhor conduta é confirmar quais exames serão realizados e seguir as instruções recebidas, evitando tanto restrições desnecessárias quanto preparos inadequados que possam comprometer os resultados.
Fonte: Correio Braziliense



