Secretária de educação e jornalistas do SBT são alvos de ataques racistas: ‘Espécie alienígena’

A secretária nacional de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), Zara Figueiredo, e as jornalistas Basília Rodrigues e Ester Cauany, do SBT, sofreram uma série de ataques racistas nas redes sociais após a publicação de uma chamada para o programa Sala de Imprensa, do SBT News, que foi ao ar no último sábado (4).

O episódio, que gerou forte indignação e uma rede de solidariedade política, ocorreu após a publicação falando da entrevista conjunta realizada pelas duas jornalistas para discutir com a secretária sobre a persistência do racismo estrutural e as desigualdades raciais no Brasil.

A postagem, veiculada na esteira do Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, logo foi inundada por comentários de cunho racista que atacavam diretamente a estética, os corpos e a legitimidade das três profissionais.

Diante da gravidade da violência cibernética, Zara Figueiredo gravou um pronunciamento público confirmando que todos os registros visuais e as identidades dos agressores já foram formalmente entregues à Polícia Federal.

Violência contra a estética e a desumanização

Os ataques concentraram-se majoritariamente em tentativas de ridicularizar os traços físicos e o cabelo das entrevistadas, uma das táticas mais recorrentes de violência simbólica de gênero e raça.

O usuário Romulo Leandro da Silva, por exemplo, escreveu: “Que cabelos penteados ridículos Cada qual pior Querendo lacrar a raça Asco”.

Na mesma direção, o perfil identificado como Edu Demilite comentou de forma desdenhosa: “Parei quando vi os cabelos”.

Outros comentários escalaram diretamente para termos de profunda desumanização e escárnio público. O usuário Julio Santos limitou-se a escrever a palavra “fezes” abaixo da imagem das profissionais.

Já a usuária Fatinha Diniz postou um comentário comparando-as a “manequim da casa funerária”. O usuário Rafael Benedito Marques (cujo perfil traz a descrição “rafael sou eu anti petista”) questionou de forma ainda agressiva: “Que espécie alienígenas é isso daí?”.

Uso de ‘skin’ como eufemismo para racismo

Ataques racistas cometidos no Instagram
Ataques racistas cometidos no Instagram | Crédito: Reprodução

A análise dos ataques revela ainda o uso sistemático e coordenado de jargões típicos de comunidades de jogos virtuais e fóruns da internet como eufemismo para destilar ódio racial.

Diversos perfis utilizaram o termo em inglês “skin” (que significa “pele” ou a aparência visual de um personagem) de forma pejorativa, em uma tentativa de despersonalizar as mulheres negras.

O usuário Admar PJ questionou na seção de comentários: “Essa skin é obrigatória?”. O mesmo termo foi alimentado pelos perfis de Aelton Souza (que publicou “a mesma skin“) e Maurício Souza Mello (com “que skin – risos”). Outra usuária, identificada apenas como evamaior, reforçou o tom depreciativo ao comentar escrevendo errado: “A skim sempre é a mesma”.

Em seu vídeo de resposta, Zara Figueiredo ironizou o erro ortográfico dos agressores: “Detalhe, skin não se escreve assim. A preta vai ensinar para você. Skin se escreve com N. No país onde 56% da população é negra, nós somos obrigatórios, necessários. Nós construímos esse país. Nós seguramos a democracia e a economia desse país

‘Não é liberdade de expressão, é crime’

Zara Figueiredo rechaçou qualquer tentativa de justificar as agressões sob o pretexto de debate ou opinião, defendendo que a internet não pode funcionar como uma terra sem leis. 

“Tem uma questão importante que eu aprendi com o ministro Alexandre de Moraes: as regras do mundo real devem prevalecer também no ambiente virtual. Portanto, racismo é crime no mundo real e racismo é crime no virtual.”

A secretária nacional destacou que os ataques são movidos pelo incômodo de ver mulheres negras ocupando posições de destaque, poder e decisão na República. “Fazem esses comentários porque estão vendo três mulheres negras no poder. E nós estamos no poder. Nós vamos continuar no poder e vamos trazer várias outras gerações para estar nesse lugar de poder. Nós não vamos recuar 1 mm.”

Basília Rodrigues, que comanda o programa Sala de Imprensa, usou a publicação de Zara para também se posicionar contra os racistas. “Entre as muitas formas de interromper uma mulher negra, há os comentários quanto à sua pele, cabelo, imagem e intelectualidade, dentro e fora da internet”, escreveu a jornalista.

‘Isso não é comentário isolado, é método’

A onda de violência simbólica motivou o posicionamento público de parlamentares e lideranças dos movimentos sociais. Em manifestação de apoio, a deputada estadual de Minas Gerais e ex-ministra Macaé Evaristo publicou uma nota apontando que o massacre virtual não se trata de reações isoladas, mas de uma tática política estruturada.

“Nada disso é coincidência, é método. O objetivo desses ataques nunca é debater. É interditar. É dizer para cada mulher negra que ousa ocupar um cargo, uma bancada, um microfone: esse lugar não é seu. Não vão conseguir nos calar”, escreveu a deputada, cobrando a responsabilização criminal dos autores e o dever de vigilância das plataformas digitais.

Posicionamento dos agressores

Brasil de Fato localizou individualmente os perfis dos agressores que assinaram os comentários difamatórios nas redes sociais e questionou cada um deles por meio da rede social usada para fazer o ataque.

Mensagens privadas foram enviadas a todos usuários citados nesta reportagem. O Brasil de Fato informou sobre os prints de suas respectivas declarações, identificou-se como veículo de imprensa e ofereceu formalmente o espaço de resposta, perguntando se gostariam de se manifestar sobre suas falas.

Até o fechamento desta reportagem, somente o usuário Maurício Souza respondeu que seu comentário era uma ironia sobre o tema da entrevista. Nenhum outro respondeu aos questionamentos. O espaço permanece aberto para manifestação.

*Com informações do Brasil de Fato

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