Programa criado para diminuir o endividamento teve 200 mil pedidos de revisão. Especialistas, porém, criticam
Ao fazer o primeiro balanço do Novo Desenrola, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou, ontem, que quase R$ 1 bilhão em dívidas foi renegociado, em praticamente 100 mil pedidos fechados, entre 200 mil realizados. Os outros seguem sendo analisados pelas instituições financeiras e estão “praticamente fechados”, segundo Dario.
“Cada dia a gente tem visto mais renegociações sendo feitas, o que é muito importante. Essa semana o (Desenrola) Fies (Financiamento Estudantil) para os inadimplentes deve estar totalmente operativo”, disse o ministro, na sede da Fazenda, ao retornar de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
Além disso, ele disse que o governo deve anunciar, em breve, outro “Desenrola” para pessoas adimplentes, mas que pagam juros altos. A medida seria uma “recompensa” por não atrasar as parcelas.
Críticas
Lançado em 4 de maio, em cenário de mais de 82 milhões de brasileiros endividados, o novo programa de renegociação de dívidas vem enfrentando críticas de especialistas e do setor produtivo. Apesar de parecer uma iniciativa agressiva de descontos de até 90% no saldo devedor, eles apontam que o Novo Desenrola foi elaborado de forma atabalhoada, em curto espaço de tempo, após a primeira versão, em 2023.
Além disso, apresenta sinais de que retoma a questão do risco moral, ou seja, de que terá novamente outra edição em breve, a exemplo do Refis — programa de renegociação de dívidas tributárias —, além da questão eleitoreira, segundo os especialistas ouvidos pelo Correio.
Para eles, os problemas do programa não são poucos, segundo os analistas. O número de brasileiros endividados aumentou de forma expressiva em pouco tempo entre o primeiro e o segundo Desenrola — passando de 70 milhões para 82 milhões de pessoas — e a taxa básica de juros (Selic) aumentou, pois passou de 10% a 11% ao ano, na edição anterior, para 14,50% ao ano, atualmente. Segundo eles, ainda existe o problema da reincidência dos endividados, uma vez que conforme dados do SPC Brasil, mais de 85% dos novos negativados em 2026 já passaram pela lista de inadimplentes nos últimos 12 meses, e nada impede que essas pessoas voltem a ficar superendividadas.
“O Desenrola tem vários problemas. O primeiro é que é uma medida, obviamente, eleitoreira, e o governo lançou o programa de olho no impacto eleitoral sem pensar nos efeitos colaterais negativos que isso pode trazer e, nesse sentido, o principal efeito negativo é o do risco moral”, avalia o economista e especialista em contas públicas Bráulio Borges, consultor da LCA Consultoria e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Borges destaca que se, a cada ano, o governo sinaliza que pode fazer um novo Desenrola, é um problema sério, porque a inadimplência tende a ter um aumento estrutural, porque as pessoas não vão ter o interesse de quitar as dívidas e vão esperar um outro programa para poderem renegociar com algum desconto futuro.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera o Novo Desenrola uma “repetição piorada do Desenrola 1.0” e, o simples fato de proibir o indivíduo de fazer apostas on-line durante um ano não resolve o problema das bets.
“O novo programa incentiva ainda mais as pessoas a voltarem a se endividar. Além disso, há o problema em relação ao financiamento do programa, que é o fato de tentar usar novamente os recursos que haviam sido rechaçados pelo Congresso no passado novamente. Isso não funciona como política de longo prazo, e é paliativo que coloca a população em ciclo de novo endividamento rapidamente”, alerta.
O economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, também critica o programa. “O Novo Desenrola enxuga gelo e para uma redução de fôlego e permanente sobre o ônus com juros das famílias e das empresas. O caminho é conhecido e passa por endereçar o crescente desequilíbrio e percepção de risco das contas públicas”, resume.
Remédio amargo
O especialista em contas públicas e diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Alexandre Andrade, ainda reconhece que o programa tem problemas estruturais e destaca que um dos principais é que o Desenrola não ataca as causas estruturais do endividamento das pessoas. “Sem contar que pode gerar um incentivo ruim de as pessoas voltarem a se endividar à espera de um novo Desenrola no futuro”, acrescenta.
Com isso, o Novo Desenrola pode ser um remédio amargo para um paciente com infecção generalizada, segundo analistas. Conforme os dados do governo federal, o programa Desenrola 2.0 servirá para pagar, com descontos, dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estejam atrasadas entre 90 dias e dois anos, com cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC). O governo prevê taxa de juro máxima de 1,99% ao mês e até 48 meses de prazo nas negociações. Mas vale lembrar que isso representa juro mensal de quase 27% ao ano, o que não é um juro tão baixo assim no mercado, alertam os analistas. Claro que é mais baixo do que o juro do cartão de crédito, que são abusivos se comparados com a taxa média global dos juros do cartão de crédito, e passam de 420% ao ano.
Uma das novidades do Novo Desenrola é a possibilidade de o brasileiro endividado poder usará até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Mas o uso do fundo dos trabalhadores também é questiodo pelo setor imobiliário. Em entrevista ao programa CB.Poder, parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília, o vice-presidente financeiro da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Eduardo Aroeira, destacou que o uso do FGTS no Novo Desenrola é uma medida que exige atenção, já que o Fundo é uma das principais fontes de financiamento da habitação e da infraestrutura. “A utilização do FGTS para pagamento de dívidas pode reduzir investimentos em programas como o Minha Casa, Minha Vida e em obras essenciais”, disse. O executivo destacou que o setor defende soluções estruturais para o endividamento e avaliou positivamente as mudanças recentes no programa habitacional, “sem comprometer instrumentos essenciais para o desenvolvimento”.
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