A agência francesa de combate à desinformação, a Viginum, afirmou nesta quinta-feira que a empresa israelense BlackCore é suspeita de ter conduzido operações de interferência digital não apenas na França, mas também em eleições na cidade de Nova York, na Escócia, além de atuar em Angola e Togo.
No mês passado, a agência Reuters revelou que autoridades francesas suspeitavam que a BlackCore estivesse por trás de uma campanha online de difamação direcionada contra três candidatos à prefeitura ligados ao partido de esquerda radical e pró-Palestina La France Insoumise (LFI) durante as eleições municipais francesas.
Durante uma coletiva de imprensa ao lado do primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu, o diretor da Viginum, Marc-Antoine Brillant, afirmou que investigações técnicas levaram a agência até a BlackCore. Em seguida, o órgão apresentou um relatório detalhando supostas operações da empresa em diferentes partes do mundo.
Segundo Brillant, o método utilizado não se limitou às eleições municipais francesas.
“Esse modo de operação não se restringiu às eleições municipais na França. Ele também parece ter sido empregado em operações de interferência digital estrangeira em outros países ou regiões, como Angola, Togo, as eleições na Escócia e a eleição municipal de Nova York em 2025”, declarou.
Apesar das conclusões preliminares, a Viginum afirmou que ainda não conseguiu identificar quem teria contratado a BlackCore para atuar na França.
“Nossas investigações não permitiram identificar o patrocinador ou patrocinadores, caso existam, por trás dessa interferência digital estrangeira”, disse Brillant.
França cobra explicações de Israel
Lecornu informou que o governo francês solicitou explicações ao governo israelense sobre as atividades da BlackCore e também pediu cooperação para descobrir quem teria financiado a campanha de desinformação.
“Não tenho dúvida de que, se um grupo privado francês, operando a partir do território francês, tivesse conduzido uma interferência digital estrangeira em Israel, eles teriam feito exatamente o mesmo com nosso embaixador”, afirmou.
A embaixada de Israel em Paris confirmou ter sido procurada pelas autoridades francesas e declarou que aguarda mais informações da investigação para realizar sua própria apuração.
Em nota, o governo israelense afirmou:
“Israel não tem qualquer intenção de interferir no processo político francês, seja em nível nacional ou municipal.”
Nova York e Escócia também aparecem no relatório
Brillant não especificou quem teria sido alvo da suposta operação durante a eleição municipal de Nova York, vencida por Zohran Mamdani.
A vitória de Mamdani foi celebrada por setores progressistas, incluindo muitos jovens judeus, mas gerou preocupação entre grupos tradicionalmente pró-Israel devido ao seu apoio declarado à causa palestina.
Nem a equipe de Mamdani, nem autoridades da cidade e do estado de Nova York comentaram as acusações. Também não houve manifestação imediata do Federal Bureau of Investigation, da polícia de Nova York ou da agência americana de segurança cibernética Cybersecurity and Infrastructure Security Agency.
Em outro relatório, a Viginum afirmou ter identificado contas ligadas à BlackCore que atacavam o primeiro-ministro escocês John Swinney.
Swinney tem sido um crítico da situação em Gaza, classificando-a como uma “catástrofe humanitária provocada pelo homem” e afirmando que há indícios de genocídio em curso, citando o elevado número de vítimas civis, a destruição generalizada e declarações de autoridades israelenses.
Nem Swinney nem o Scottish National Party responderam aos pedidos de comentário.
Os governos de Angola e Togo também não se manifestaram até o momento.
Empresa apagou presença online
Antes de remover sua presença na internet após questionamentos da Reuters, a BlackCore se apresentava como uma empresa especializada em influência política, operações cibernéticas e tecnologia.
Em sua descrição institucional, a companhia dizia ser:
“Uma empresa de elite de influência, ciberoperações e tecnologia construída para a era moderna da guerra da informação.”
A empresa afirmava ainda oferecer a governos e campanhas políticas “estratégias de ponta, ferramentas avançadas e segurança robusta para moldar narrativas”.
Com informações DCM



