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Brasileiros desconfiam mais da imprensa do que de amigos no WhatsApp e nas redes sociais

Pesquisa inédita do Cetic.br revela crise profunda de credibilidade da mídia tradicional: plataformas digitais já superam rádio e TV como principal fonte de informação no Brasil

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Quase metade dos brasileiros desconfia da imprensa tradicional. É o que mostra a pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação”, lançada nesta sexta-feira (10) pelo Cetic.br: 48% dos usuários de internet desconfiam “sempre” ou “na maioria das vezes” das informações publicadas por veículos jornalísticos — índice superior ao registrado em relação a influenciadores e figuras públicas em redes sociais (43%). Enquanto isso, 72% se informam diariamente pelas redes sociais e 60% por aplicativos de mensagem como o WhatsApp.

O dado é revelador: em pleno debate sobre desinformação, o brasileiro confia mais no conteúdo que chega pelo grupo da família do que naquele apurado por uma redação. As plataformas digitais já superaram o rádio e a televisão — acessados diariamente por 58% dos entrevistados — e os jornais e revistas ficam ainda mais para trás, com 34%. Para ver a íntegra pesquisa, clique aqui.

Renata Mielli

Ao Portal Vermelho, Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), explica que o fenômeno tem raízes históricas e estruturais. “Isso é muito preocupante, mas infelizmente não é exatamente uma surpresa. A primeira motivação é a própria perda de credibilidade de muitos veículos de imprensa no Brasil, principalmente pós-2013, quando a polarização política nacional acabou explicitando para a sociedade que aquela suposta neutralidade e objetividade da imprensa, na verdade, não existia desta maneira como era propalada”, diz ela.

O grupo vale mais do que a verdade

A desconfiança na imprensa varia conforme o perfil do entrevistado. Entre os usuários com ensino fundamental, o índice chega a 59% — bem acima dos 48% da média geral. Entre os homens, é de 52%. Já a desconfiança em relação a influenciadores é maior entre os mais velhos: 51% entre os usuários de 60 anos ou mais.

Mas a pesquisa vai além da desconfiança e revela algo mais profundo onde uma parcela expressiva dos brasileiros simplesmente não vê sentido em checar o que recebe. Nada menos que 34% concordam, total ou parcialmente, que “não vale a pena pesquisar se as informações que recebo são verdadeiras ou falsas”. Outros 30% afirmam não ter interesse nesse tipo de verificação.

Mielli explica que a lógica por trás desse desengajamento tem a ver com pertencimento. “Quando você recebe um conteúdo num grupo de WhatsApp da família, que tem ali uma pessoa com autoridade familiar, ou um grupo de amigos no qual você tem pertencimento, aquelas informações têm muito mais peso do que a qualidade da informação em si” — seja o grupo da igreja, do sindicato ou de qualquer outra comunidade de confiança.

O fenômeno não é novo. Nas eleições de 2018, segundo a coordenadora, já havia indícios de que muitas pessoas sabiam que estavam recebendo fake news — como as relacionadas ao “kit gay” —, mas preferiam confiar na informação vinda de um familiar ou pastor a checar num veículo jornalístico. “Isso mostra a fragilidade que nós estamos enfrentando do ponto de vista da construção da opinião pública na sociedade brasileira”, avalia Mielli.

Sem dados para checar: a dimensão estrutural do problema

O desengajamento com a verificação de informações é mais frequente entre jovens do sexo masculino, das classes C e DE, e com ensino fundamental incompleto — e a pesquisa revela que esse perfil também é o que tem maior dificuldade em classificar corretamente informações como falsas ou enganosas na internet.

Mielli aponta que, para grande parte da população, checar uma informação não é apenas uma questão de hábito ou vontade — é uma questão de infraestrutura. A maioria dos brasileiros acessa a internet pelo celular com pacotes de dados pré-pagos. “No 12º, 15º dia do mês, a franquia de dados já zerou. Como checar uma informação quando eu saio do serviço de mensagem, que é gratuito, para ir no site de qualquer veículo de comunicação? Prefiro guardar os meus dados para saber se meu filho chegou bem da escola no fim do mês”, ilustra a coordenadora do CGI.br.

O exercício prático realizado pela pesquisa, com apoio da Agência Lupa, confirma a assimetria: os entrevistados foram convidados a classificar como falsas ou verdadeiras informações que circularam no país nos últimos dois anos. Os melhores resultados foram entre pessoas com 45 anos ou mais, das classes AB, com maior escolaridade e com conexão por fibra óptica. Os grupos mais engajados com verificação e com melhor compreensão do funcionamento das plataformas digitais também se saíram melhor.

Algoritmos, deepfakes e a captura da atenção

A pesquisa revela ainda que metade dos entrevistados (50%) acredita que o que faz um conteúdo circular mais na internet é ele ser mais confiável — uma confusão direta entre viralização e veracidade. Outros 45% afirmam que todos encontram as mesmas informações quando pesquisam na internet, demonstrando desconhecimento sobre o funcionamento das bolhas algorítmicas.

Sobre deepfakes — imagens, vídeos ou áudios produzidos ou manipulados por inteligência artificial para parecerem verdadeiros —, 41% dos entrevistados relatam contato diário com esse tipo de conteúdo, proporção que sobe para 44% entre jovens de 16 a 24 anos. A coordenadora do CGI.br admite que nem ela própria está imune ao problema: “Eu sou jornalista de formação, lido com temas de tecnologia há muitos anos, e não me sinto 100% confiante de identificar quando um conteúdo é falso ou não, ainda mais no contexto de inteligências artificiais generativas.”

O desconhecimento sobre deepfakes é maior justamente entre os mais vulneráveis: 20% das classes DE e 24% das pessoas com menor escolaridade afirmam não saber o que é ou nunca ter tido contato com o fenômeno.

Quanto ao uso de ferramentas de IA generativa, 47% dos usuários de internet de 16 anos ou mais já utilizaram o ChatGPT ou similares. Entre os que acessam a internet exclusivamente pelo celular, a IA do WhatsApp é predominante (38%) — mais um reflexo da divisão digital do país.

“A pesquisa inteira é um alerta”

Para Mielli, o caminho passa obrigatoriamente pela regulação das grandes plataformas digitais. “Essas plataformas não são veículos jornalísticos. Elas têm outro propósito. O modelo de negócios é baseado exatamente na captura da atenção para que a gente permaneça conectado, interagindo, reagindo, compartilhando”, afirma.

A coordenadora do CGI.br aponta avanços recentes como a condenação da Meta por causar vício nos Estados Unidos e a aprovação do ECA digital no Brasil — que proíbe o perfilamento de crianças com base em conteúdo de caráter moral e emocional e o scroll infinito. Mas avalia que muito mais precisa ser feito, inclusive na questão do financiamento do jornalismo.

“Nós precisamos urgentemente restabelecer o debate na sociedade sobre o papel do jornalismo. Isso passa por criar regras para que essas plataformas possam remunerar os conteúdos jornalísticos que circulam no seu interior, porque vivemos uma crise do financiamento de veículos de comunicação em razão da migração dos recursos de publicidade para essas plataformas. Acho que a pesquisa inteira é um alerta para a sociedade brasileira de que algo precisa mudar.”

A pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação” foi conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em parceria com o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Foram entrevistados 5.250 usuários de internet de 16 anos ou mais, por meio de questionário online, entre agosto e setembro de 2025. Os dados completos estão disponíveis em cetic.br.

Com informações do Vermelho

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