‘Fomos encontrar a vida e encontramos a morte’, diz marido de grávida que morreu em hospital público no DF

Hilton André Roque da Conceição, marido de Maria Graciana Andrade Alves — mulher que morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia, no Distrito Federal, na sexta-feira (12) —, pede que a morte de sua companheira seja investigada.

“A gente foi encontrar a vida e encontramos a morte. Agora, é pedir força a Deus em um momento difícil. A gente já tinha feito tudo, comprado berço, pintado o apartamento. Esperar em Deus e na justiça, eu quero justiça”, disse Hilton nesta segunda (13).

A família de Maria Graciana Andrade Alves, que estava grávida de 41 semanas, denuncia negligência do hospital público durante o parto. A bebê está na UTI, em estado grave.

Entenda o caso

➡️ Segundo a família, apesar da paciente informar que não tinha condições de passar pelo parto normal, a equipe médica manteve a tentativa do procedimento por horas. A equipe só realizou a cesariana após a bebê apresentar sinais de sofrimento fetal.

➡️ A mulher sofreu hemorragia grave, teve o útero retirado, além de paradas cardiorrespiratórias. Ela morreu na UTI do hospital. A família também denuncia que não recebeu atualizações do estado de saúde de Maria, e só foram informados da morte horas depois.

Sobre a morte de Maria Graciana Andrade Alves, a Secretaria de Saúde disse em nota que “o caso está sendo apurado com rigor” (veja íntegra no final da reportagem).

Negligência durante o parto

Segundo familiares, Maria Graciana deu entrada no Hospital Regional de Samambaia na manhã de quinta-feira (9), com a bolsa rompida, mas sem dilatação e sem contrações.

Apesar de a paciente informar que não tinha condições para um parto normal, a equipe médica manteve a tentativa desse procedimento por várias horas e demorou a indicar a indução do parto.

Ainda de acordo com os parentes, durante a espera, o bebê apresentou sinais de sofrimento fetal, com queda dos batimentos cardíacos. Diante do quadro, a equipe realizou uma cesariana de emergência durante a madrugada de sexta-feira (10).

Durante a cirurgia, Maria Graciana sofreu uma hemorragia grave, precisou passar por uma histerectomia (retirada do útero), teve duas paradas cardiorrespiratórias e morreu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

A recém-nascida também apresentou complicações. Segundo os familiares, a bebê nasceu sem respirar, precisou ser reanimada e internada na UTI neonatal. A família afirma que a criança necessita de transferência para o Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), unidade com maior suporte para o caso, e que ainda aguarda uma vaga.

Os familiares também denunciam falta de informações por parte da equipe médica. Eles afirmam que, durante toda a madrugada, não receberam atualizações sobre o estado de saúde de Maria Graciana. A morte só teria sido comunicada pela manhã, por uma psicóloga da unidade, após parentes e integrantes da igreja da família se reunirem na recepção do hospital em busca de informações.

Segundo os relatos, nenhum integrante da equipe médica prestou esclarecimentos técnicos sobre o atendimento ou informou quem estava de plantão.

Denúncias no Hospital de Samambaia

Nos últimos quatro anos, pelos menos quatro famílias denunciaram negligência no Hospital de Samambaia em casos que envolvem o atendimento de gestantes e bebês.

  1. Em 2022, Mariana Cardoso Vieira, de 37 anos, e sua filha Luíza Vitória, morreram durante o parto no hospital. Segundo pacientes, ela vomitou e urinou sangue na unidade. A família denunciou o caso na Polícia Civil.
  2. Em 2023, a jovem Chayene da Silva, de 19 anos, perdeu o bebê e precisou esperar quatro dias internada, com o filho morto na barriga, até conseguirem induzir o parto. O caso foi denunciado na Polícia Civil.
  3. Em 2024, um bebê morreu após a mãe, Bruna Martins, ficar 30 horas em trabalho de parto à espera por atendimento no hospital.
  4. Também em 2024, Tairine, de 30 anos e grávida de dois meses, morreu depois de tentar atendimento em três hospitais da rede pública, incluindo o Hospital de Samambaia.

O que diz a Secretaria de Saúde

“A Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal informa que o caso está sendo apurado com rigor. Caso sejam constatadas falhas na assistência ou qualquer indício de negligência, todas as medidas administrativas e disciplinares cabíveis serão adotadas, com a devida responsabilização dos envolvidos.

Sobre as perguntas encaminhadas envolvem informações protegidas pelo sigilo de prontuário. Por esse motivo, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal não pode fornecer os dados solicitados.

A medida tem como objetivo resguardar a privacidade dos pacientes e assegurar o cumprimento das normas éticas e legais aplicáveis. O Código de Ética Médica, em seu Capítulo IX, Artigo 75, veda ao médico ‘fazer referência a casos clínicos identificáveis, exibir pacientes ou seus retratos em anúncios profissionais ou na divulgação de assuntos médicos, em meios de comunicação em geral, mesmo com autorização do paciente’.”

*Com informações do G1-DF

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