Ceilândia em Alerta – A decisão da Sony de encerrar gradualmente a produção e a comercialização de jogos em mídia física reacendeu entre os fãs da PlayStation uma discussão sobre o futuro dos games e, principalmente, sobre o que significa ser dono de um jogo adquirido digitalmente.
A partir de 2028, novos títulos lançados para os consoles PlayStation serão comercializados exclusivamente por meio de lojas digitais. Com isso, o jogador deixará de receber um disco físico e, segundo os próprios termos da Sony, não será proprietário do jogo comprado, mas terá apenas uma licença para acessar o conteúdo.
A questão está no centro de uma disputa judicial na Califórnia, nos Estados Unidos. Um grupo de jogadores acusa a Sony Interactive Entertainment, responsável pela PlayStation, de não deixar suficientemente claro em seus anúncios e termos de venda que a aquisição de um jogo digital representa, na prática, a compra de uma licença de acesso, e não da propriedade do produto.
Em resposta à ação, a empresa argumentou que não seria plausível afirmar que consumidores acreditassem estar adquirindo efetivamente a propriedade de um jogo digital.
Em uma petição apresentada à Justiça em 21 de agosto, a Sony afirmou que um usuário razoável teria acesso aos termos de serviço próximos ao botão de compra. Segundo a empresa, o consumidor pode utilizar o produto dentro das condições estabelecidas pela licença, mas não é proprietário dele.
A declaração provocou reações entre jogadores, principalmente porque a própria empresa deixou claro que a licença de acesso pode ser revogada.
Jogadores reagem
As declarações da Sony repercutiram nas redes sociais e provocaram críticas de fãs da PlayStation. Yann Neves, responsável pelo canal Save Manual, afirmou ter se sentido enganado com a posição apresentada pela empresa.
“Eu me senti enganado e muito puto. Aparentemente, a única segurança que tenho é se eu baixar meus jogos e não ligar mais a internet, terrível”, afirmou.
Outro ponto questionado pela Sony foi levantado durante a defesa apresentada à Justiça. A empresa citou o caso de dois jogadores que teriam adquirido o mesmo jogo com apenas 11 dias de diferença e questionou como eles poderiam acreditar que ambos seriam proprietários do mesmo produto.
Para a companhia, diante do modelo digital, não seria razoável imaginar que consumidores acreditassem estar adquirindo a propriedade permanente de um jogo.
O especialista em tecnologia Eduardo RedeSeT, do canal Aperte o Pause, avalia que a posição da Sony faz sentido dentro da transformação pela qual passa a indústria do entretenimento. Ele ressalta, porém, que existe uma diferença importante entre os termos utilizados pelas empresas e a percepção do consumidor.
“Existe uma diferença entre o que a Sony diz e a percepção do consumidor de que ele está comprando um produto”, afirmou.
Segundo o especialista, a indústria da música já passou por uma mudança semelhante, com a substituição de CDs e DVDs por plataformas de streaming. Nesse modelo, o usuário paga para ter acesso ao conteúdo, e não para possuir aquele produto de forma permanente.
“Nos games, estamos caminhando para algo parecido”, avaliou.
Fim das mídias físicas
A discussão ganhou força depois que a PlayStation anunciou, em julho deste ano, que todos os novos jogos lançados para seus consoles serão vendidos exclusivamente em lojas digitais a partir de 2028.
A empresa também informou que pretende reduzir em aproximadamente 10% a produção de discos de jogos lançados até dezembro de 2027. Segundo a Sony, a mudança acompanha as transformações nas preferências dos consumidores.
Para Eduardo RedeSeT, o avanço desse modelo deve tornar ainda mais importante o debate sobre os direitos de quem compra jogos digitais.
“Se a indústria realmente caminhar para o fim das mídias físicas, a discussão sobre o que significa ‘comprar’ um jogo vai ficar ainda mais importante”, afirmou.
Veículos especializados avaliam que ainda é cedo para determinar todos os efeitos dessa transformação na relação entre consumidores, PlayStation e outras empresas do setor. Entre os jogadores mais antigos, porém, existe preocupação com o desaparecimento dos discos.
Yann Neves destaca que a mídia física também possui um valor afetivo para quem cresceu colecionando jogos.
“Parece algo bobo, mas ter um jogo no CD acaba sendo uma forma de colecionar e de ter em um espaço físico aquilo que um dia te divertiu por horas”, afirmou.
Para ele, a ausência das mídias físicas pode representar também uma mudança na forma como as pessoas se relacionam com as obras.
“Nesse futuro triste, sem mídias, imagino que uma simples descida no feed de alguma rede social já vá ser o suficiente pra suprir a curiosidade, eliminando qualquer aproximação com a obra. Com filmes já é o que acontece, tanto é que quem ama muito alguma obra procura ao menos ter um pôster. E eu espero que a gente não chegue nesse ponto com os jogos também. Prefiro muito mais guardar CD do que um código”, declarou.



