Ceilândia em Alerta — O controle adequado da pressão arterial poderia evitar mais de 518 mil mortes por doenças cardiovasculares por ano em 20 países de renda média, incluindo o Brasil. A estimativa faz parte de um estudo apresentado nas Sessões Científicas de Hipertensão de 2026 da Associação Norte-Americana do Coração (AHA), nos Estados Unidos. Os resultados reforçam a importância da prevenção e do tratamento da hipertensão arterial, uma condição que pode ser identificada por meio da aferição da pressão e controlada com acompanhamento médico.
A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, e será publicada em novembro na revista científica Hypertension. O trabalho utilizou dados de saúde existentes e modelos estatísticos para estimar quantas mortes poderiam ser evitadas caso os serviços de prevenção fossem ampliados nos países analisados.
Os pesquisadores consideraram um cenário no qual aproximadamente 80% das pessoas elegíveis recebessem os cuidados preventivos recomendados. Entre as seis estratégias avaliadas, o tratamento da pressão alta apresentou o maior potencial de redução da mortalidade.
Na comparação com outras medidas, o controle do colesterol por meio de medicamentos poderia evitar cerca de 340.682 mortes por ano, enquanto o controle da glicemia entre pessoas com diabetes teria potencial para prevenir outras 309.530 mortes. A análise também incluiu exames de rastreamento para câncer colorretal, de colo do útero e de mama.
Hipertensão aumenta o risco de doenças cardiovasculares
A hipertensão é considerada um dos principais fatores de risco modificáveis para doenças cardiovasculares. Embora não seja possível eliminar todas as causas dessas enfermidades, o diagnóstico e o tratamento da pressão alta ajudam a diminuir a probabilidade de complicações graves.
O cardiologista Vagner Ferreira, do Hospital Mantevida, em Brasília, explica que a pressão elevada provoca danos progressivos aos vasos sanguíneos e aumenta a sobrecarga sobre o coração.
Com o passar do tempo, esse processo pode favorecer o desenvolvimento de aterosclerose, infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e doenças renais.
O controle da pressão arterial também contribui para proteger o cérebro, os rins e o sistema circulatório. Segundo especialistas, a combinação de mudanças no estilo de vida e medicamentos, quando prescritos, pode reduzir significativamente os riscos associados à doença.
O professor associado de medicina Scott Pilla, da Universidade Johns Hopkins e um dos autores do estudo, ressalta que a hipertensão merece atenção justamente porque pode ser identificada e tratada antes do aparecimento de complicações.
Diagnóstico tardio é um dos principais desafios
Um dos problemas apontados pelos especialistas é que a hipertensão frequentemente evolui sem apresentar sintomas perceptíveis. Dessa forma, muitas pessoas só descobrem que têm a doença quando procuram atendimento por outro motivo ou após o surgimento de uma complicação.
O cardiologista Marcelo Bergamo, de São Paulo, alerta que a pressão elevada, o colesterol alto, o diabetes e o sedentarismo podem provocar alterações progressivas nas artérias ao longo dos anos.
Fabrício da Silva, cardiologista da Amplexus Saúde Especializada, em Brasília, também destaca que a ausência de diagnóstico e tratamento permite que órgãos como coração, cérebro e rins sofram danos contínuos.
Outro obstáculo é a continuidade do tratamento. Como a pressão alta nem sempre provoca sintomas, alguns pacientes deixam de tomar os medicamentos ou utilizam as doses de maneira irregular por acreditarem que não precisam mais deles.
Dificuldades de acesso às consultas, aos medicamentos e ao acompanhamento médico periódico também prejudicam o controle da doença.
Para os especialistas, ampliar a aferição da pressão arterial na atenção primária, facilitar o acesso aos medicamentos e investir em educação em saúde são medidas essenciais para reduzir as mortes cardiovasculares.
Estudo aponta falhas na prevenção
A análise apresentada no encontro da AHA identificou lacunas importantes no controle de doenças crônicas e na realização de exames preventivos nos 20 países avaliados.
Segundo os dados apresentados, apenas um em cada cinco adultos com hipertensão mantinha a pressão controlada abaixo de 140 por 90 mmHg. Entre as pessoas com níveis elevados de colesterol, somente 16% utilizavam estatinas, medicamentos empregados para reduzir o colesterol e o risco cardiovascular.
No grupo de pacientes com diabetes tipo 1 ou tipo 2, 39% apresentavam níveis de glicemia abaixo do limite considerado ideal pelos critérios adotados pelos pesquisadores.
A realização dos exames de rastreamento para câncer também ficou abaixo do esperado: a cobertura variou de 14% a 26%, dependendo do tipo de exame.
Em declaração sobre os resultados, Daniel W. Jones, presidente do comitê responsável pela elaboração das diretrizes da American Heart Association, afirmou que a análise pode contribuir para orientar políticas públicas e melhorar a prática clínica.
A expectativa é que os dados incentivem médicos e pacientes a dar maior atenção ao tratamento da hipertensão, combinando mudanças de hábitos com medicamentos quando necessários.
Quais hábitos ajudam a controlar a pressão arterial?
As diretrizes da American Heart Association destacam que a pressão arterial normal corresponde a valores inferiores a 120 mmHg para a pressão sistólica e inferiores a 80 mmHg para a diastólica.
A hipertensão pode não apresentar sinais evidentes, por isso a aferição periódica é importante mesmo para quem se sente bem. Quando surgem sintomas como dor no peito, falta de ar, alterações na visão, fraqueza ou dificuldade para falar, é necessário procurar atendimento médico. Dor no peito, falta de ar intensa ou dificuldade súbita para falar podem indicar uma emergência e exigem atendimento imediato.
Entre as principais recomendações para proteger a saúde cardiovascular estão:
- Manter uma alimentação equilibrada: priorizar vegetais, frutas, proteínas magras e alimentos com baixo teor de gordura saturada.
- Reduzir o consumo de sal: o excesso de sódio pode contribuir para o aumento da pressão arterial.
- Praticar atividade física regularmente: respeitar as condições de saúde e as orientações profissionais.
- Não fumar: abandonar o tabagismo reduz os riscos cardiovasculares.
- Dormir adequadamente: manter uma rotina de sono regular e suficiente.
- Controlar o peso: adotar hábitos que favoreçam a manutenção de um peso saudável.
- Acompanhar o colesterol e a glicemia: realizar exames conforme a orientação médica.
- Seguir o tratamento prescrito: não interromper nem alterar medicamentos sem orientação profissional.
Atenção primária é fundamental para reduzir mortes
Para o cardiologista Fabrício da Silva, o enfrentamento da hipertensão deve ser tratado como uma prioridade de saúde pública no Brasil.
O especialista defende o fortalecimento das Unidades Básicas de Saúde e da Estratégia Saúde da Família, com ampliação do rastreamento, acesso contínuo aos medicamentos e acompanhamento regular dos pacientes.
A aferição da pressão deve fazer parte da rotina de atendimento, inclusive para pessoas sem sintomas. Ações educativas também podem ajudar a reduzir o consumo excessivo de sal, combater o sedentarismo e melhorar a adesão ao tratamento.
A estimativa de mais de 518 mil mortes potencialmente evitáveis é resultado de uma modelagem estatística, e não de uma contagem de óbitos efetivamente prevenidos. Ainda assim, os dados reforçam que ampliar o diagnóstico e o controle da hipertensão pode ter um impacto expressivo na saúde pública.
Fonte: Correio Braziliense



