Desejo de consumo cresce mais que a renda e preocupa o Planalto

Governo Lula avalia impacto do “consumo aspiracional” nas pesquisas, impulsionado pelas redes sociais.

O Palácio do Planalto passou a observar com mais atenção o peso do consumo aspiracional na avaliação popular do governo Lula (PT), em meio ao contraste entre a melhora de indicadores econômicos e a sensação de insatisfação de parte da população, informa o jornal O Globo.

O debate ocorre em um momento em que integrantes do governo reconhecem desconforto com a dificuldade de transformar dados positivos da economia em aprovação política mais ampla. Embora pesquisas recentes tenham trazido algum alívio a auxiliares do presidente, a avaliação positiva da gestão ainda não aparece em patamar confortavelmente superior à desaprovação.

Nos últimos anos, indicadores como crescimento do PIB, queda do desemprego, aumento real da renda e inflação sob controle passaram a ser citados pelo governo como sinais de recuperação econômica. Ainda assim, economistas, cientistas sociais e observadores dentro e fora da administração federal buscam explicar por que essa melhora não se traduz, de forma mais nítida, na percepção cotidiana da população.

Uma das hipóteses em discussão, inclusive na equipe econômica, é a de que os desejos de consumo avançam em velocidade maior que a renda das famílias. Esse fenômeno, conhecido como consumo aspiracional, estaria sendo ampliado pela hiperconexão provocada pelas redes sociais e pela expansão da economia digital.

A lógica é que, mesmo com ganho de poder de compra, a população passa a desejar bens, serviços e experiências em ritmo mais acelerado. A exposição permanente a padrões de vida nas redes sociais, combinada à facilidade de compra por plataformas digitais, cria uma pressão adicional sobre o orçamento familiar.

“O crescimento da renda no Brasil não acompanha a velocidade das aspirações, gerando frustração”, afirma Laura Carvalho, professora de economia da USP e diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundations.

Segundo a economista, a alta dos salários acima da inflação não significa, necessariamente, que as famílias sintam melhora suficiente em sua condição de vida. Para ela, os desejos de consumo também se transformam ao longo do tempo. “Ao mesmo tempo em que salários crescem talvez mais do que preços, com ganho em poder de compra, as pessoas não estão estáticas naquilo que elas desejam ter. As aspirações também são dinâmicas”, diz Laura Carvalho.

A avaliação parte da ideia de que a comparação social sempre existiu, mas mudou de escala. Antes, os padrões de referência estavam mais próximos do cotidiano das pessoas, como vizinhos, familiares ou personagens de novelas. Agora, as redes sociais exibem, de forma constante e global, estilos de vida associados a maior renda, viagens, serviços, produtos e experiências de consumo.

Esse novo ambiente amplia a chamada “janela de aspiração” e pode produzir frustração quando a renda disponível não acompanha o padrão de consumo desejado. Além disso, a facilidade de acesso a crédito, comércio eletrônico e outros mecanismos de consumo pode contribuir para o aumento do endividamento das famílias.

Laura Carvalho ressalta, porém, que o problema não está no desejo de ascensão social. Para ela, o ponto central passa pela desigualdade estrutural brasileira e pela recuperação lenta da renda, especialmente entre os mais pobres.

“O problema não é a aspiração das pessoas. Tem um problema que é a desigualdade social em si, estruturalmente elevada no Brasil. E o outro é que a renda não está crescendo de forma tão expressiva, insuficiente para essas aspirações, sobretudo se consideramos a queda de renda real para a metade mais pobre da população desde a crise de 2015/16, que teve recuperação muito lenta. Só hoje está se recuperando o nível de renda de 2014”, afirma.

Aspecto estrutural preocupa a equipe econômica

No governo, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda é uma das áreas que mais leva em consideração a hipótese do consumo aspiracional como fator para explicar a distância entre a macroeconomia e a percepção da população.

A secretária de Política Econômica, Débora Freire, afirma que essa leitura pode ajudar a compreender uma insatisfação mais estrutural de parte dos brasileiros. “Talvez a cesta de consumo desejada esteja se alargando de forma mais rápida que a renda. É uma hipótese minha”, afirma.

Ela cita mudanças no padrão de consumo contemporâneo, como a multiplicação de serviços digitais e assinaturas, além do impacto das redes sociais sobre a sensação de pertencimento. “Hoje em dia, a cada série nova, a cada coisa nova, você tem que assinar… E com a massificação das redes, isso obviamente gera um impulso, aquela sensação de que, para você estar incluído, precisa ter acesso àquele bem, àquele serviço. Acho que isso traz uma percepção de que a sua renda não está dando”, diz Débora Freire.

O subsecretário de Política Fiscal da Fazenda, Rodrigo Toneto, também avalia que as redes sociais criam uma percepção artificial de exclusão. Embora veja um cenário econômico mais favorável ao governo, ele considera que o consumo aspiracional pode ajudar a explicar a insatisfação de uma parcela da população.

“A rede social cria de maneira artificial uma sociabilidade em que você é o único que está de fora. Seus amigos na rede social sempre estão bem, viajando, comprando um carro novo, colocando uma coisa nova na casa deles, enquanto você segue lá, na escala 6×1, pegando um ônibus lotado, tendo que sair correndo de trabalho para tirar o filho da creche, deixar o filho com uma cuidadora, ficar na fila do médico esperando. O algoritmo cria essa fantasia”, afirma Toneto.

Para ele, a comparação social sempre fez parte da vida em sociedade, mas ganhou intensidade com o funcionamento das plataformas digitais. Esse processo se soma ao acesso ao cartão de crédito, ao comércio eletrônico e às apostas online, formando um ambiente que pode elevar o endividamento das famílias.

Toneto avalia que a resposta passa não apenas por ampliar a capacidade de crescimento econômico do país, mas também por investir na melhoria dos serviços públicos. A ideia é aumentar a renda disponível das famílias, reduzir desigualdades e reconstruir perspectivas de ascensão social.

Pesquisador vê falta de dados para sustentar a tese

A hipótese, no entanto, não é consensual. Para Leonardo Weller, professor da Escola de Economia da FGV de São Paulo, ainda não há dados suficientes para afirmar que o consumo aspiracional seja uma explicação segura para a insatisfação popular.

Em sua avaliação, os próprios indicadores econômicos ainda ajudam a entender o descontentamento de parte da população. Weller argumenta que, apesar da melhora recente, a renda das pessoas permanece em nível semelhante ao de 12 anos atrás, antes da recessão de 2014 a 2016.

“Talvez daqui a alguns anos possamos ter dados sobre essa hipótese, mas a gente não tem ainda. Meu ponto é que os indicadores positivos na economia não são nem tão fortes, principalmente do ponto de vista do salário real das pessoas, e, na verdade, são fracos dado o período severo e longo de crise econômica que nós tivemos”, afirma.

Para o pesquisador, o Brasil ainda sente os efeitos da crise econômica prolongada da década passada. Ele sustenta que o país não viveu, desde então, um ciclo robusto e duradouro de crescimento capaz de alterar de forma mais profunda a renda e as expectativas da população.

“Ainda estamos vivendo as consequências daquela crise. Ainda não tivemos um novo ciclo virtuoso, longo e intenso de crescimento. Não temos isso e não estamos na perspectiva de ter”, diz Weller.

A discussão sobre o consumo aspiracional, portanto, passou a ocupar espaço no debate econômico e político por reunir fatores de renda, desigualdade, redes sociais, crédito e percepção subjetiva de bem-estar. No centro da análise está o desafio do governo Lula de transformar a melhora dos indicadores macroeconômicos em sensação concreta de avanço na vida cotidiana dos brasileiros.

Com informações Brasil 247

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